Beleza e presteza

Disciplina, repetição e valorização da instrução, traços culturais do povo japonês, compõem legado dos mais importantes à educação brasileira

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Em 1926, 18 anos após desembarque dos primeiros imigrantes japoneses, crianças se perfilam para uma foto em frente a uma escola da colônia em Bauru, interior de São Paulo

Em meio a dezenas de eventos e celebrações que homenagearam o centenário da imigração japonesa no Brasil, uma outra efeméride relacionada à cultura nipônica passou quase que totalmente despercebida. Exatos 50 anos depois que o Kasato Maru aportou em Santos com os primeiros imigrantes, o professor de matemática japonês Toru Kumon fundava o Instituto Kumon de Educação, decorrência do método de ensino da mesma disciplina que levava seu nome, desenvolvido a partir de 1954. Toru Kumon, então um jovem docente, foi instado pela própria mulher a ajudar o filho, que estava com dificuldades na escola. Sem tempo de fazer o papel de tutor, Kumon bolou um material didático de auto-instrução. Começava a nascer um método que se tornou popular em vários países, chegando oficialmente ao Brasil em 1977. Até hoje, é visto como uma alternativa aos métodos adotados pelas escolas brasileiras.

Ao lado de outros métodos, como o Suzuki, voltado ao aprendizado de música, e de manifestações e formas culturais como o haicai e o origami, hoje muito usados como recursos didáticos em salas de aula, o Kumon constitui uma das principais marcas do Japão na educação brasileira.

Atualmente, de 4,2 milhões de alunos em 45 países, 100 mil deles só no Brasil, utilizam o método criado nos anos 50. A primeira escola de Kumon brasileira foi criada em Londrina, em 1977, cidade que concentra uma parcela significativa da colônia japonesa. Embora muitos considerem o método uma alternativa à linha tradicional construtivista, baseada na indução e conclusão, o Kumon, se usado de forma complementar à escola, pode dar outra dimensão ao aprendizado, aprofundando-se em determinados pontos em que a escola tem mais dificuldade, em função do tempo disponível e do grande número de alunos por sala.

Carlos Henrique de Freitas Zigiotti, gerente do Departamento de Orientação do Instituto Kumon São Paulo, ressalta que o método não guarda nenhuma relação com técnicas de memorização. "O Kumon é uma metodologia de ensino individualizado, que respeita o ritmo de aprendizagem de cada aluno e tem como principal objetivo desenvolver o autodidatismo, que é a capacidade de aprender sozinho, sem auxílio de um professor", afirma. Nesse sentido, o método guarda identidade com a visão behaviorista do psicólogo americano Burrhus Skinner (1904-1990), criador de métodos de aprendizagem como a "Instrução Programada" e a "Máquina de Aprender", concebidos para que o educando pudesse prescindir da presença de um professor. Assim como no caso do Kumon, Skinner também desenvolveu suas propostas entre os anos 50 e 60.

Zigiotti descreve o estresse dos alunos que chegam ao instituto preocupados com a quantidade de fórmulas a que foram submetidos no aprendizado escolar. "Aqui, ensinamos a eles apenas as fórmulas principais, de modo que descubram as outras por indução, senão vira uma decoreba sem sentido", afirma. No caso das crianças menores, elas aprendem a seqüência numérica básica com um tabuleiro de peças imantadas, facilitando a visualização.


Carlos Henrique Zigiotti, do Instituto Kumon: método individualizado

Método da língua materna

Além da origem nipônica, os métodos Kumon e Suzuki têm em comum o rigor e a repetição, de que se valem para transmitir seus conceitos. O Suzuki, voltado à música, primeiramente foi concebido para os instrumentos de corda, sendo depois adaptado a outros instrumentos, como o piano. Foi desenvolvido pelo japonês Shinichi Suzuki (1898-1998), pedagogo e violinista, depois da tragédia de Hiroshima e Nagasaki, quando o Japão se encontrava imerso na depressão do pós-guerra. Ele se valeu da lógica do aprendizado da língua materna, aplicando-a ao universo da música.
Diferentemente dos métodos tradicionais, o Suzuki estimula primeiro a observação e a familiarização das crianças com o instrumento para, só depois, abordar a teoria. As crianças ouvem e depois repetem o que ouviram, num processo análogo à aquisição da língua. Por isso, é também conhecido como o "método de língua materna".

"O Suzuki trabalha acima de tudo o desenvolvimento do caráter e da auto-estima. Nenhuma criança pode ser comparada a outra, cada aluno compete apenas consigo mesmo. Solicita-se a participação dos pais, que se envolvem no aprendizado dos filhos, prolongando em casa o efeito da aula", afirma Clises Marie Carvajal Mulatti, membro da Suzuki American Association e diretora da escola Tom Sobre Tom, em São Paulo. Para Clises, a metodologia Suzuki repousa na educação do ouvido como ponto de partida. "O aluno aprende partindo da imitação, da audição, da participação ativa e direta: parte do sensível para, devagarzinho, chegar ao intelectual", explica.


Síntese da natureza


Embora não seja um método educacional, o haicai, forma poética japonesa por excelência, tem sido empregado com sucesso em salas de aula. Escrever um haicai requer disciplina, e convém evitar a verborragia, atendo-se somente ao necessário. Composto por três versos – de 5-7-5 sílabas, respectivamente – o haicai tradicional deve apresentar uma palavra que se refira direta ou indiretamente a uma estação do ano, termo também conhecido em japonês como kigo (termo-de-estação).

Partindo dessa premissa, os alunos da professora de geografia Lúcia Helena Martins Gonçalves, da Escola Estadual Professora Dora Pereti, em Mogi das Cruzes, vêm sendo conscientizados sobre a questão ambiental por meio da composição de haicais que versem sobre a natureza. Eles são orientados a escolher termos que digam respeito à realidade local, sejam as flores do jardim ou as árvores do bairro onde moram. Numa etapa seguinte, apresentam seus poemas em sala de aula e trocam impressões sobre as palavras utilizadas.

"O kigo escolhido pelos alunos deve ser fácil de ser encontrado", sugere Lúcia Helena, cuja turma teve dois alunos classificados na categoria infanto-juvenil do prêmio Masuda Goga 2008, concurso realizado pelo Grêmio Haicai Ipê em parceria com a Livraria Saraiva. "A simplicidade do haicai casa bem com as crianças de origem simples e me ajuda a lidar com as mais problemáticas. Elas só escrevem sobre o que vêem, sem metáforas", enfatiza a professora, que vê o despojamento da forma como alternativa a redações longas, muitas vezes rejeitadas pelos alunos.

Também o Origami, a arte de dobrar papéis que remonta ao século 6, tem sido objeto de práticas em sala de aula, especialmente na educação infantil e no fundamental 1. O ato de criar, por meio de dobraduras, representações de barcos, flores e animais, entre outras tantas possibilidades, ajuda no desenvolvimento de habilidades de raciocínio e paciência, além de melhorar a coordenação motora.


A chegada ao novo mundo


A preocupação com a instrução dos filhos sempre foi uma tônica na cultura japonesa. Essa postura decorre dos 300 anos de isolamento que precederam a Era Meiji (iniciada em 1868), que trouxe profundas transformações sociais e políticas aos japoneses, como escreve a pesquisadora Zeila de Brito Fabri Demartin em seu artigo "Relatos orais de famílias de imigrantes japoneses: elementos para a história da educação brasileira". Tais mudanças, em paralelo à rápida modernização do país, estimularam os japoneses que viveram esse período a reproduzir um ambiente semelhante ao chegarem no Brasil. A pesquisadora anota que o alto grau de escolaridade dos japoneses recém-chegados deve ter influenciado a educação que se praticou por aqui nos anos seguintes. Segundo dados da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, em relação aos imigrantes que desembarcaram no porto de Santos entre 1908 e 1932, maiores de 12 anos, a taxa de não-analfabetos era de 89,9% entre os japoneses; 71,36% entre italianos e 51,7% entre os portugueses.

O processo de escolarização da população japonesa está dividido em dois momentos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. "O primeiro caracteriza-se pelo grande e intenso processo de criação de escolas particulares japonesas e por sua procura; o segundo é marcado pelas medidas nacionalistas do governo Getúlio Vargas, que condena veementemente a educação japonesa, induzindo à transformação dessas escolas ou provocando seu desaparecimento", escreve.
Relatos dão conta de que no início da imigração as escolas eram construídas com poucos recursos na área rural de São Paulo, na maioria das vezes com o apoio de pais e da associação de moradores. Teruko Oda, coordenadora do Grupo Haicai Ipê na capital paulista, relata o ambiente de estudos à época: "Era uma espécie de salão, com algumas janelas, sem divisórias. Não havia a separação por séries e o mesmo professor cuidava de todos os alunos, conferindo as tarefas, corrigindo cadernos e passando exercícios numa grande lousa que dividia entre as quatro séries", relembra. Não só a escola era mantida pelos moradores da vila, como também o professor, cuja casa era construída perto da escola. "Os pais dos alunos, ou os próprios alunos, levavam para a família do professor cestas contendo produtos hortifrutigranjeiros", lembra Teruko.


O cineasta Akira Kurosawa, diretor de Madadayo

O mestre vê os mestres

Em Tóquio, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um professor de alemão decide que é hora de se aposentar para investir na carreira de escritor. O professor Hyakken Uchida é tão benquisto por seus alunos, muitos deles de gerações diferentes, a ponto destes se reunirem todos os anos para celebrar seu aniversário, de maneira divertida e calorosa. Último filme e espécie de testamento do cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998), Madadayo (em tradução livre, "ainda não") retrata de maneira fiel o apreço que os japoneses têm pela educação, sobretudo pela figura do professor (sensei, que em japonês quer dizer "aquele que veio antes"), compondo uma metáfora do espírito professoral japonês, ao mesmo tempo austero e afetuoso.

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