Beleza contra decadência

Escolas no interior paulista apostam na tradição de prédios antigos para criar diferencial e resgatar excelência de ensino

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Jéssika Torrezan e Lígia Ligabue*




No interior paulista, parte da história econômica e urbanística dos municípios respira por meio de alguns prédios escolares. Em meio à decadência do ensino público, obras majestosas e a tradição desses estabelecimentos motivam articulações diversas que permitem desde a restauração da parte física até um envolvimento maior da comunidade com a qualidade do ensino.



Basta chegar nas cidades e perguntar por determinado colégio que não haverá uma pessoa que não saiba indicá-lo. A trajetória de escolas do interior de São Paulo como o antigo Instituto Educacional Álvaro Guião, em São Carlos, ou o Otoniel Mota, de Ribeirão Preto, confunde-se com a das cidades. Escolas como o Cesário Coimbra, em Araras, a Manoel Bento da Cruz, em Araçatuba, e a Henrique Morato, em Matão, todas no interior de São Paulo, tornaram-se ponto de referência. Boa parte dos vereadores, prefeitos e outros líderes municipais estudou nesses estabelecimentos.



O prédio em estilo
art nouveau

do “Instituto” – como até hoje é conhecida a Álvaro Guião, em São Carlos – foi inaugurado em 1916, e chama a atenção de quem passa pela principal avenida da cidade. O edifício, tombado pelo patrimônio histórico do estado, já foi referencial em educação na região, segundo Lucinei Tavoni, vice-diretora. “A escola é o reflexo do que acontece na sociedade. Não temos mais o padrão educacional que tínhamos antes. Houve descaso, falta de investimento”, avalia.



Daniela Delben, diretora da escola Cesário Coimbra, de Araras, lembra que as pessoas que têm condições preferem um colégio particular, apesar da tradição dessas escolas públicas. Os diretores reclamam da falta de investimento do governo, da desvalorização dos salários, da má infraestrutura. “Há uns 20 anos, estudar em escola pública era sinal de
status

“, compara Daniela. Mas todos concordam que muita coisa pode ser feita para reverter esta situação.

Contra-ataque –

Muitos estudaram nos colégios que hoje administram e guardam lembranças do tempo em que esses lugares eram sinônimo de ensino de qualidade. “Meu sonho sempre foi ser diretora deste colégio”, afirma Maristela Margutti, do Henrique Morato, de Matão. “No começo tínhamos grandes problemas de disciplina, mas acreditávamos que podíamos mudar, então, passamos a construir uma nova imagem, para resgatar o nome da escola”, conta.



E deu certo. O colégio foi o vencedor, em 2002 e 2003, do projeto
Construindo o Futuro

, uma parceria entre a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo e a ONG Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Cidadania. O prêmio visa estimular programas envolvendo escola e comunidade no Estado, com uma iniciativa de alunos e professores para levar soluções aos problemas dos bairros da cidade – hoje, ao contrário dos anos 40, quando a escola foi inaugurada, os alunos têm origem social diversa.



A diretora do Henrique Morato lembra que os projetos promovidos pelo colégio surgiram dentro da instituição, depois foram levados à comunidade. A próxima iniciativa já está sendo desenvolvida: “Em 2004, estamos trabalhando o tema ‘paz’ e vamos concorrer ao prêmio
Paz e Cooperação

, da ONU, ainda neste ano”, conta Maristela.



Para aprofundar o vínculo com a comunidade, o Álvaro Guião, de São Carlos, promove gincanas, campanhas do agasalho e feiras gastronômicas. “O importante é que a comunidade reconheça a escola como espaço que também pertence a ela”, afirma a vice-diretora Lucinei Tavoni, ex-aluna. “Indiretamente, essas atividades proporcionam não só a integração, como também evitam a depredação.”



A Escola Estadual Manoel Bento da Cruz, de Araçatuba, tem uma estratégia diferente para atrair a população: aulas gratuitas de dança e teatro, ministradas pelos estudantes que participam do grêmio estudantil. O colégio, que completa 70 anos em 2004, se prepara para ampliar esse movimento. “Nós queremos trazer toda a comunidade para dentro da escola”, diz Ricardo Andrade, vice-diretor.



Mas nem sempre a relação escola-comunidade é tão pacífica. Em Araras, a direção do colégio comprou briga com os comerciantes que vendiam bebidas alcoólicas e cigarros nos arredores. “Existe a lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas ao redor das escolas, mas não está na lei orgânica do município”, afirma a diretora. “Fui pessoalmente à Câmara dos vereadores e tive discussões sérias com os proprietários”. Os bares tiveram de parar de vender as bebidas.


Parcerias –




A iniciativa privada e as universidades também são importantes parceiros dos colégios. A Álvaro Guião mantém convênios  com a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que cede seus laboratórios para universitários ministrarem aulas de biologia, química e física, e com a Unesp, para a realização de  aulas gratuitas de francês. Além disso, os professores mantêm um cursinho pré-vestibular gratuito na própria escola, fora do horário de aula.




Em Araras, a Cesário Coimbra possui um jornal e uma rádio patrocinados pelo comércio local. “Nós mesmos vendemos as propagandas, para que o jornal possa circular no colégio”, afirma Lucas da Silva, aluno do primeiro ano do ensino médio e editor do periódico. Com a veiculação de anúncios e algumas contribuições, pequenos lojistas ajudam a manter essas atividades. Neste ano a escola completa sete décadas e lançará um livro – escrito por um ex-aluno, com a colaboração de professores, alunos e outros ex-alunos – que conta a história da cidade pela perspectiva do colégio.


 





*Da Agência Repórter Social





 


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