Beatriz Bracher comenta trechos de obras de outros autores

A convite de Educação, escritora dá suas impressões sobre fragmentos de livros de Alberto Manguel, Primo Levi, Graciliano Ramos e Philip Roth

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Beatriz Bracher comenta trechos de obras de outros autores

Imagem: Shutterstock

A imagem do palimpsesto, os antigos pergaminhos que eram raspados para que sobre eles se escrevesse um novo texto sem que o antigo se perdesse, tornou-se corrente nos estudos literários no século passado. Metáfora preferencial para o diálogo ou inter-relação entre vários textos, ressalta o fato de que as histórias são agora sempre continuações ou versões, de que não há mais histórias inaugurais, todas já escritas.

Mais contemporaneamente, no final do século passado, o cinema também passou deliberadamente a utilizar-se das imagens de arquivo para ressignificá-las em novas narrativas, às vezes mudando por completo seu sentido original para colocar em questão as narrativas passadas.

Em sua obra, a escritora Beatriz Bracher, entrevistada desta edição, faz uso constante e consciente de fragmentos de outros textos literários e de letras de canções. Como ela explicou em palestra realizada no primeiro semestre deste ano, são quatro as suas maneiras de incorporar os textos de outros autores:

– quando eles entram em seu fluxo de pensamento (ou de uma personagem), ditados muitas vezes pelo ritmo. São fragmentos recolhidos da memória;

– pela escolha de uma referência do presente, com trechos de livros, jornais, ou revistas com os quais esteja em contato no tempo da escrita da obra;

– quando o texto de um autor ou o próprio são assuntos mencionados em meio à narrativa da autora;

– quando ela explicitamente se ancora nas palavras de terceiros para descrever algo ou uma cena.

A seguir, Beatriz Bracher responde a uma sugestão de Educação: comentar trechos de livros escolhidos pela revista, todos eles ligados de alguma forma à literatura e à linguagem, para passar suas impressões sobre as ideias de terceiros. São eles os escritores Alberto Manguel, Primo Levi, Graciliano Ramos e Philip Roth, este último em entrevista concedida ao jornalista David Remnick, e a estudiosa Jeanne-Marie Gagnebin.

Alberto Manguel e a curiosidade

Criamos histórias para dar um formato a nossas perguntas; lemos ou ouvimos histórias para compreender o que queremos saber. Em cada lado da página, somos levados pelo mesmo impulso de questionamento, perguntando quem fez o quê, e por quê, e como, de modo que possamos por nossa vez nos perguntar o que fazemos, e como, e por que o fazemos, e o que acontece quando algo é feito ou não. Nesse sentido, todas as histórias são espelhos do que acreditamos ainda não saber. Uma história, se for boa, suscita em sua audiência tanto o desejo de saber o que acontece em seguida, quanto o desejo conflitante de que a história nunca termine: essa dupla ligação explica nosso impulso para contar e ouvir histórias, e mantém viva nossa curiosidade.

Uma história natural da curiosidade (Companhia das Letras), de Alberto Manguel, pág. 59, capítulo 2, “O que queremos saber?”.

Beatriz Bracher – Comigo também, o que me move a escrever é aquilo que eu não sei. Nunca acho a resposta, porque, na verdade, nem sei bem qual foi a pergunta. Às vezes, o livro pronto, o universo da pergunta e da resposta mudaram inteiramente. Talvez “pergunta e resposta” não sejam bons termos, no meu caso. Sei que escrevo sobre aquilo que me incomoda, que não sei explicar e gostaria de. Não é uma curiosidade, é uma necessidade. Quando leio outros autores, essa curiosidade de que fala Manguel existe e é muito importante.

Primo Levi, holocausto e linguagem

Assim como nossa fome não é apenas a sensação de quem deixou de almoçar, nossa maneira de termos frio mereceria uma denominação específica. Dizemos ‘fome’, dizemos ‘cansaço’, ‘medo’ e ‘dor’, dizemos ‘inverno’, mas trata-se de outras coisas. Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por homens livres que viviam, entre alegrias e tristezas, em suas casas. Se os Campos de Extermínio tivessem durado mais tempo, teria nascido uma nova, áspera linguagem, e ela nos falta agora para explicar o que significa labutar o dia inteiro no vento, abaixo de zero, vestindo apenas camisa, cuecas, casaco e calças de brim e tendo dentro de si fraqueza, fome e a consciência da morte que chega.

É isto um homem? (Rocco), Primo Levi, pág. 182, “Outubro de 1944”.

BB – Que lindo! Nossa! Como o Primo Levi é honesto! Me parece que seu olhar profundamente honesto, exigente consigo próprio na percepção da realidade, é o que lhe permite essa inteligência sensível, e a capacidade de transmiti-la a nós, mortais. Exatamente sua consciência absoluta e insistente da nossa mortalidade é o que nos faz sentir, imediatamente, sem qualquer intermediação, tão irmãos desse ser extraordinário que ele foi. Para mim, a escrita de Primo Levi é uma prova de que a honestidade intelectual e de nossa sensibilidade é algo construído.

Graciliano Ramos e a sede de leitura

Invoquei, num desespero, o socorro de Emília. Eu precisava ler, não os compêndios escolares, insossos, mas aventuras, justiça, amor, vinganças, coisas até então desconhecidas. Em falta disso, agarrava-me a jornais e almanaques, decifrava as efemérides e anedotas das folhinhas. Esses retalhos me excitavam o desejo, que se ia transformando em ideia fixa. Queria isolar-me, como fiz quando nos mudamos em razão de consertos na casa. Para bem dizer, os outros é que se mudaram. A pretexto de ver os trabalhos, escapulia-me com o romance debaixo do paletó, voltava, desviava-me dos pedreiros, serventes e pintores, ia esconder-me na sala. Mergulhava numa espreguiçadeira e, empoeirado, sujo de cal, sentindo o cheiro das tintas, passava horas adivinhando a narrativa, à luz que se coava pelos vidros baços. Privara-me desse refúgio. E onde conseguir livros?

Infância, de Graciliano Ramos, págs. 229/230, capítulo “Jerônimo Barreto”, 48ª edição, Record, 2015.

BB – Pensei agora que é curioso pensar em Drummond lendo entre as mangueiras e Graciliano no meio de uma obra sujo de cal e sentindo o cheiro de tinta. Assim, em lugares tão diferentes, talvez lessem o mesmo livro e habitassem, naquele momento, um mesmo lugar.

Philip Roth e o ocaso da literatura

Roth não gosta muito de falar dessas coisas, teme estimular mais discussões e hostilidades. Sua opinião sobre as condições de leitura, na academia e na cultura em geral, pelo jeito é o problema que mais o incomoda.

A cada ano, morrem setenta leitores e apenas dois são substituídos. Eis um modo bem fácil de visualizar a questão”, Roth disse. Por “leitores” ele entende pessoas que leem livros sérios regular e seriamente. A prova de que “a era literária chegou a seu final está por toda parte”, ele afirmou. “A prova é a cultura, a prova é a sociedade, a prova é a tela, a passagem da tela do cinema para a tela da televisão e para a do computador. Não temos muito tempo, nem muito espaço, e poucos hábitos mentais determinam o modo como as pessoas usam seu tempo livre. A literatura exige um hábito mental que desapareceu. Exige silêncio, algum tipo de isolamento e a concentração continuada na presença de um fator enigmático. É difícil apreender um romance maduro, inteligente, adulto. É difícil saber o que fazer da literatura. Por isso digo que dizem coisas estúpidas sobre ela, pois, a não ser que as pessoas sejam suficientemente educadas, elas não sabem o que fazer dela.

“Em campo aberto: Philip Roth”, entrevista a David Remnick, editor da The New Yorker, em 2000, transposta para o livro Dentro da floresta, de David Remnick (Companhia das Letras).

BB – Parece que Roth estava com muita raiva neste dia. Mas a rabugice é bem uma característica de seus personagens e, neste caso, dá para entender sua razão e não discordar inteiramente. De qualquer maneira, concordando com o contexto geral que ele descreve, penso que, exatamente pela leitura de um romance sério exigir silêncio, por este motivo é que os jovens voltarão a lê-lo. Porque as pessoas precisam de solidão. Eu preciso desesperadamente, talvez por isso me projete na humanidade (ou projete a humanidade em mim) e penso que todos devem ser assim, e talvez não seja o caso. Mas talvez eu esteja certa e esta seja uma necessidade básica para nossa sanidade. É como se fosse assim: a leitura exige isolamento e o isolamento pede uma leitura, uma companhia tão silenciosa quanto nós.

Blanchot, Benjamin, Gagnebin: original e tradução

(…) Ora, a forma de uma língua, o que ela visa na sua especificidade, só pode se mostrar na passagem – tradução, Über-setzung – para uma outra língua: só na diferença entre as línguas, neste intervalo doloroso que o tradutor pretende, à primeira vista, preencher, mas que, de verdade, ele revela na sua profundidade, só neste intervalo então pode se expor a verdade das línguas. Maurice Blanchot comenta com força: ‘todo tradutor vive da diferença das línguas, toda tradução está fundada nesta diferença, enquanto persegue, aparentemente, o desígnio perverso de suprimi-la’. Ou ainda: a verdade do original só pode se dar a ver no afastamento do original, nas diversas transformações e traduções históricas que ele percorre, não na sua imediatez inicial.

História e narração em Walter Benjamin (Perspectiva), de Jeanne-Marie Gagnebin, pág. 21, capítulo 1, “Origem, original, tradução”.

BB – Bem, não entendi bem essa ideia de haver uma “verdade do original”. Original é original, podemos lê-lo superficialmente (que acho que tem a ver com o que Jeanne-Marie chama de imediatez) ou prolongadamente, muitas e muitas vezes, e chegar, a cada vez, em uma verdade diferente. Acho que os bons livros são, sempre, muitos livros, e só o são porque são, profundamente, essencialmente, um livro só, denso, inteiro nele mesmo. Mas entendo, e acho bonito pensar que a tradução revele verdades que não teríamos como saber se não fosse o trabalho sobre a diferença das línguas. A leitura de uma boa tradução sempre enriquece a nossa leitura do original, lhe dá uma verdade a mais. O que não quer dizer que o original, nele mesmo, seja mais pobre do que suas traduções.

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