Beatrice Baxter

O “breakdown” dos valores e a necessidade da Educação Moral

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O reconhecimento da importância dos aspectos afetivos, sociais e éticos na estruturação da personalidade, leva à valorização do papel da educação moral na formação integral dos indivíduos e no desenvolvimento da sociedade. Nos momentos de crise, como a atual – agravada pelos recentes escândalos no ambiente político do país -, cria-se de forma aparentemente contraditória, ambiente favorável a
 

um esforço nacional coletivo para instaurar uma política de valores necessária à manutenção das regras democráticas.



O desenvolvimento de propostas de educação moral no currículo escolar brasileiro se apresenta como um motivo de real preocupação neste contexto. A promoção de valores morais através da escola tem sido motivo de debate desde a década de 70 – quando verificou-se um verdadeiro

boom






no campo da investigação moral.



Basta lembrar os programas de educação moral desenvolvidos por Kohlberg (1966/1987), em Harvard; os trabalhos de Emler (1978/1983), na Inglaterra; Kuhlmann (1986), na Alemanha; Habermas (1976/1983), para se ter idéia da preocupação dos cientistas sociais com a questão da moralidade. Nesta época, relatório da UNESCO já apontava que a educação moral deve ter, como objetivos, motivar os jovens a:



1 –

desenvolverem uma personalidade independente capaz de participação ativa na
  

sociedade, tanto no âmbito nacional como internacional;



2
 


desenvolverem atividades condizentes à paz e a uma ordem socioeconômica mais justa;



3
 


enfrentarem a ambigüidade e a rapidez da transformação social;



4 –

tornarem-se capazes de considerar os importantes problemas mundiais segundo uma perspectiva global;



5
 


desenvolverem a capacidade e o desejo de avaliar suas próprias ações em termos de normas sociais.



Entretanto, apenas o reconhecimento da importância da educação moral para o desenvolvimento pessoal e social, não é suficiente para o alcance de seus objetivos. As mudanças do comportamento – já observava Osterrieth (1964) – dependem da maneira pela qual o indivíduo apreende os fatos e não do que estes fatos significam para quem educa.



Dessa forma, torna-se necessário que os responsáveis pela educação moral estejam informados de como se desenvolvem os valores morais dos indivíduos.



O trabalho de Piaget
 

“Le jugement moral chez l’enfant” (1932) foi a primeira tentativa para descrever o desenvolvimento moral como uma


seqüência



de estágios – que acompanha as mesmas etapas do desenvolvimento cognitivo -, dando origem a uma vasta pesquisa no campo da moralidade infantil e adulta. Pioneiramente, interessou-se pelo fato de que a moral tem a ver com regras e pelo desenvolvimento do respeito a tais regras: ­- ­toda moral é um sistema de regras e a essência de toda moralidade consiste no respeito que o indivíduo sente por tais regras, disse ele.



Inspirado por este enunciado e exercitando o método clínico de observação, Piaget inicia suas pesquisas escolhendo um campo peculiar da atividade humana: o jogo de regras.


Os jogos coletivos de regras, argumenta, são paradigmáticos para a moralidade humana, pois:



1 –

representam uma atividade interindividual necessariamente regulada por certas normas
    



que, embora geralmente herdadas de gerações anteriores, podem ser modificadas pelos membros de cada grupo de jogadores, fato que explica a condição de “legislador” de cada um deles;



2 –

embora tais normas não tenham em si caráter moral, o respeito devido a elas
 

envolve questões de justiça e honestidade;



3 –

tal respeito provém de mútuos acordos entre os jogadores, e não da mera aceitação de normas impostas por autoridade estranha à comunidade de jogadores.



Refutando tanto a teoria inatista quanto a behaviorista, propõe uma visão psicogenética do conceito de moral. Nesse sentido, ninguém nasce com um nível de
moral
– a moral é construída na convivência social, podendo ser desenvolvida, pois os indivíduos são plenamente capazes de auto-aperfeiçoamento!





O pensamento moral efetivo, isto é, a experiência moral (que se distingue da moral teórica) se constrói na ação quando a criança entra em contato com fatos, conflitos, situações-problemas e através da tomada de consciência
 

de suas ações e reações. Assim, é levada a julgar seus atos e dos seus pares segundo seu nível de desenvolvimento cognitivo.



Piaget demonstra convincentemente como a evolução da inteligência permite organizar a área da moral e da afetividade. O desenvolvimento do raciocínio lógico é exatamente paralelo ao desenvolvimento moral. Piaget afirma que os indivíduos percebem o parentesco que existe entre
 

normas morais e normas lógicas. A lógica é uma moral do pensamento, como a moral é uma lógica da ação, afirma.



Desta forma, crianças de até 7 anos – sem reversibilidade mental – apresentam uma moral heterônoma (moral do dever), caracterizada por respeito unilateral e submissão à autoridade, enquanto crianças de 10/12 anos – já com reversibilidade do pensamento operacional -, apresentam um sistema de ética autônomo, baseado no respeito mútuo e no auto-governo.


Surgem, portanto, nesta concepção, duas grandes categorias: a moral da coação (heteronomia) e a moral da cooperação (autonomia).

A relação da coação é assimétrica, não existe reciprocidade: enquanto a coação fornece um modelo (um conteúdo) a ser seguido, a cooperação fornece um método (uma forma) a ser vivenciada.



Os ideais democráticos, que incluem valores abstratos como a dignidade pessoal, o respeito pelo ponto de vista do outro, a noção da justiça social e cidadania, pressupõem a existência deste método.



Ora, toda educação moral visa fazer com que os jovens sejam capazes de controlar seus sentimentos, seus desejos, em nome de um ideal social ou grupal.



Para favorecer a conquista da autonomia, a escola precisa respeitar e aproveitar as relações entre crianças –
 

através da tomada de consciência sistemática -, como elemento de cooperação e por se configurarem como relações a ser constituídas entre iguais. A crítica nasce da discussão e a discussão só é possível entre iguais. Somente a cooperação realizará o que a coação é incapaz de fazer, argumenta Piaget neste sentido.



Mesmo diante de nossa perplexidade face à crise ética, ao abuso do poder político e à falência dos valores, é preciso admitir ser este o preço da democracia, uma fase necessária à sua consolidação e que o retorno aos grandes padrões de conduta vai de encontro ao ideal democrático.



A moral é um fato social, uma ação social. Não podemos hesitar em propor novas atitudes pedagógicas, que possibilitem ao futuro cidadão cumprir o ideal libertário e democrático.




Beatrice Baxter é Mestre em Filosofia (PUC-RJ) e Educadora com especialização em epistemologia genética.







 






 







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