B de Bush

Ou como se transgride a ordem do superficial

Compartilhe
, / 1039 0

Tão importante quanto aprender conteúdos é aprender a pensar. E a pensar sobre o pensar. As escolas que não estiverem conscientes dessa necessidade incorrem num erro de omissão, cujas consequências [o escritor, crítico literário e jornalista português] Ramalho Ortigão descreveu do seguinte modo: "Aprende-se de tudo menos a descobrir, a pensar, a sentir conscientemente, analisando, criticando. Tem-se uma educação por via da qual se pode chegar a ser deputado, mas nunca um homem".

Outra escritora, que terá escrito – já não recordo onde – que reflectir é transgredir a ordem do superficial. Na Ponte, aprendemos o valor do pensar sobre o pensar à custa de muito estudo, que nos foi ajudando a transgredir a ordem do superficial. Aprendemos como toda a gente aprende: errando e corrigindo. Como aconteceu numa reunião da assembléia da escola.

Os alunos estavam prestes a aprovar o quadro de direitos e deveres que iriam vigorar naquele ano lectivo. No início da semana, três jovens expulsos de outras escolas tinham sido acolhidos pela Ponte. Uma semana é tempo escasso para que se processe a reciclagem dos afectos, uma efectiva mudança de atitudes, ou a compreensão do modo como a escola actua. Pelo que tiveram de ser admoestados pela mesa da assembléia. A presidente, uma jovem aluna de oito anos, lançou um sério aviso àqueles três jovens entre os treze e os quinze anos: "Se vós não vos comportardes como deve ser, não tereis direito de propor e de votar!" 

Não sei se eles entenderam, de imediato, o ultimato. Sei que perguntaram se poderiam fazer propostas. Foi-lhes dito que sim. E um deles propôs, "achando":

"Acho que tenho o direito de namorar com a minha namorada, dentro da escola!"

Procedeu-se à discussão da inédita proposta. E, para minha surpresa, foi aprovada.

A assembléia não é um faz-de-conta. Os professores teriam de aceitar as decisões ali tomadas (embora tivessem direito de veto, raramente exercido, diga-se). E eu acho que também devo ter o direito – aqueles jovens recém-chegados ainda só sentiam ter direitos. – de dar beijinhos na minha namorada. Cá dentro! Na escola! Os três adolescentes estavam excitadíssimos. Os professores, apreensivos.

Durante a discussão, eu escutava nos grupos dos mais pequenos, que eram maioria nessa época:
"Dar beijos na namorada? Que nojo!"

A proposta não foi aprovada. Conflito de interesses? Bom senso? Ou algo mais?
O Alberto fez uma pesquisa na internet sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão. No seu portfólio, havia várias evidências de aprendizagem. Porém, uma delas chamou a minha atenção. Tratava-se de um relatório de pesquisa. Nesse documento, o Alberto registou aprendizagens e dificuldades.

Uma delas foi descrita deste modo: "Quando fui à internet, para estudar a guerra no Afeganistão, percebi que quase tudo estava escrito em inglês. E que eu ainda não sabia ler e falar inglês. Pedi ajuda ao meu grupo. Ajudou-me, mas pouco. Então, falei com a professora Paulinha. Ela ensinou-me adjectivos em inglês. Aprendi, por exemplo, que o adjectivo "bad" (que quer dizer "mau") pode ser escrito com um b de Bin Laden, mas também com um b de… Bush".

Nos seus sete anos de idade, o Alberto aprendeu a ler em inglês. Mas, partindo de uma questão que a sua curiosidade suscitou, envolveu-se num projecto, desenvolveu pesquisa e compreendeu que, numa guerra, não há inocentes. São todos igualmente culpados. Tanto o Bin Laden quanto o Bush.


José Pacheco

é educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

josepacheco@editorasegmento.com.br

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN