Avaliar a avaliação

Para representante da Unesco, essa é a chave para melhorar a educação

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Vincent Defourny, representante da Unesco

É hora de fazer uma avaliação das avaliações educacionais existentes no país. Para o representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Vincent Defourny, o momento atual é propício para pensar um modelo de avaliação mais abrangente, que não se atenha somente à medição do desempenho dos alunos. Na opinião de Defourny, doutor em Comunicação pela Universidade de Louvain (Bélgica) e diretor do escritório brasileiro da Unesco desde maio de 2006, uma avaliação mais abrangente pode ser a chave para acelerar o processo de elevação da qualidade da educação no Brasil.


Qual será o centro dos debates sobre educação básica no Brasil em 2008?

O grande debate continuará a girar em torno da questão da qualidade. O Brasil, indiscutivelmente, promoveu avanços significativos no plano quantitativo, praticamente universalizando o ensino fundamental e atingindo metas importantes de inclusão no ensino médio. Mas, como indicam as avaliações e levantamentos em âmbito nacional e internacional, o desempenho das crianças e dos jovens está distante do de países mais avançados. Por outro lado, quando se fala em avaliação, nunca será demais lembrar que os testes, sejam os do Pisa ou os do Saeb e do Enem, indicam de­sem­penhos predominantemente no campo cognitivo. A avaliação educacional é muito mais complexa e deve incluir outras aprendizagens, como a da cidadania. Está na hora de fazer uma avaliação das avaliações.

 
A educação básica brasileira segue a mesma direção de outros países?

A posição do Brasil em relação aos países mais avançados continua a ser desconfortável. Os dados recentes do Pisa indicam isso. Está mais próxima de países vizinhos, como Argentina e Chile, mas muito distante dos países da comunidade européia e do leste asiático. Há necessidade de ampliar investimentos e de encontrar as alternativas mais adequadas para reduzir a repetência. Ampliar investimentos em políticas com alto grau de incerteza pode ser um desperdício. Por outro lado, quanto mais se elevar a qualidade da educação, mais efeitos positivos a educação terá no desenvolvimento social e econômico do país. Há uma grande desigualdade entre as diversas regiões do país, o que significa que a política educacional depende também do desempenho de outros setores. A desigualdade de renda no Brasil é das mais acentuadas e essa condição se projeta na educação. A educação por si só não opera milagres.

  
Qual deveria ser a maior prioridade dos governantes?

A prioridade de todo governante deve ser sempre a da melhoria das condições de vida da população e assegurar que os direitos humanos de todos os cidadãos sejam respeitados. A dimensão econômica deve estar a serviço da dimensão social. O poder da educação se distribui por todas as demais áreas. Constitui um investimento com retornos assegurados. É oportuno lembrar, no entanto, que todo planejamento deve ter uma dimensão sistêmica, de forma a permitir interações positivas e resultados recíprocos entre os diversos setores que compõem um plano de desenvolvimento. Essa visão integrada, ao lado de uma correta definição de prioridades, ensejará resultados cumulativos. Por último, deve-se salientar que estamos em uma sociedade do conhecimento, sendo a escola o lócus privilegiado para a aquisição organizada de conhecimentos básicos e fundamentais por todas as pessoas. O governante que tiver essa visão certamente será um candidato a um lugar de honra na história.

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