Avaliação para todos

Estado de São Paulo estuda implantar avaliação compulsória para rede privada; pesquisa aponta desempenho abaixo da média mundial em escolas de elite

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Madeira, da Fipe: contrastes entre avaliação docente e do Saresp

É muito provável que, a partir de 2009, as escolas da rede particular paulista passem a integrar, compulsoriamente, o sistema estadual de avaliação. Ao menos essa é a proposta que está em discussão no âmbito do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, partindo do princípio de que, se a Constituição confere direito à livre iniciativa da rede particular, atribui ao Estado o dever de avaliar a sua qualidade.

"Até agora, as escolas particulares ficaram excluídas dos projetos que envolvem a avaliação da qualidade, o que não é bom nem para o sistema, nem para as escolas, nem para o país", considera o presidente do Conselho Estadual de Educação, Arthur Fonseca Filho.

A idéia de submeter as escolas particulares à avaliação parece não mais assustar os diretores da rede privada, que já consideravam a tendência como irreversível. O que preocupa é a possibilidade da publicação dos resultados na forma de rankings e a obrigatoriedade de adesão a um modelo único de avaliação. Para os diretores, as avaliações de rendimento não contemplam especificidades que caracterizam o atendimento na rede privada, e acreditam ser importante incluir diferentes paradigmas, como a opinião dos pais e o ambiente escolar, entre outros aspectos.

Assim, diversos sindicatos estão desde já procurando formas próprias de avaliar a rede, de modo a preservar autonomia e manter controle sobre o processo. O Sindicato de Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp), por exemplo, elegeu um modelo próprio de avaliação, em parceria com a empresa Inade. Outras empresas desenvolveram propostas semelhantes para o mercado, como o Avalia, ligado à editora Santillana. Contudo, a tendência é prevalecer um sistema único de avaliação, como é o caso do Saresp, que deve ser ampliado.

Com a avaliação, entrará em causa um aspecto pouco lembrado da problemática da Educação brasileira – a qualidade das escolas que tradicionalmente formam as elites brasileiras. Há indicadores nada alentadores. No estudo
Educação das Elites no Brasil – a Bélgica não existe

, Creso Franco, professor da PUC/RJ e um dos mais respeitados especialistas brasileiros em avaliação, comparou os resultados dos alunos situados no topo da pirâmide do Pisa realizado em 2000.

Seu objetivo era separar dos resultados do Pisa dois efeitos que tradicionalmente vêm sendo apontados para explicar o baixo desempenho dos alunos brasileiros – as condições socioeconômicas desiguais e o fato de 40% dos alunos com 15 anos (a faixa etária avaliada) ainda estarem no ensino fundamental, e ainda não no médio.

Assim, selecionando na amostra do Pisa os 25% de alunos filhos de pais com educação superior, bens culturais e computadores em casa, entre outros critérios, Franco encontrou resultados ainda muito inferiores à média mundial. "Há problemas onde não esperávamos: com as exceções de praxe, a boa escola brasileira não é uma boa escola para os padrões do mundo globalizado. Aprender essa lição é imprescindível. Talvez a consciência de que a educação das elites seja tão dramaticamente deficiente nos ajude a encarar de frente o conjunto de nossos problemas educacionais e a oferecer aos professores condições favoráveis para que tenhamos educação de qualidade para todos", escreveu Franco.
 

Questionamentos


Há um processo contínuo de revisão dos instrumentos de avaliação do país. Recentemente, o Saresp foi revisado para que seus diagnósticos pudessem ser comparados com outras metodologias de avaliação, como o Saeb. Do mesmo modo, o Enem mudará para que suas avaliações possam ser comparáveis ano a ano, o que hoje não é possível.

Começam a se multiplicar estudos que visam avaliar os próprios instrumentos de avaliação. Afinal, quanto uma avaliação espelha com fidelidade o que se passa no processo de ensino e aprendizagem?

Um estudo realizado pelos pesquisadores Ricardo Madeira, Fernando Botelho e Marcos Rangel, da Fipe-USP, comparou as notas obtidas pelos alunos nas provas do Saresp, o sistema de avaliação de rendimento implantado em São Paulo, e as notas atribuídas pelos professores aos mesmos alunos em sala de aula. O resultado preliminar é surpreendente. Enquanto o padrão das notas do Saresp reproduz a tendência de um sino, ou seja, com uma distribuição maior das notas, os professores tendem a inflacionar as médias, com uma aglutinação das avaliações positivas.

O estudo não avança sobre o que motiva o professor a atribuir notas dessa maneira, mas Madeira especula sobre alguns aspectos. Entre eles, o fato de que conferir notas ruins pode causar impacto negativo à reputação do professor, na medida em que a reprovação se tornou algo condenável na pedagogia moderna, ou simplesmente que o professor leva outros fatores em conta na hora de atribuir pontos.

O levantamento abre espaço para um novo eixo de reflexões. Aponta para uma face preocupante, na medida em que 50% a 60% de alunos considerados não-proficientes pelo Saresp são aprovados normalmente na rede pública.
Para Ricardo Madeira, contudo, a avaliação do Saresp não deve ser tomada como a correta e a do professor, como a errada. Segundo diz, é possível que o professor tenha acesso a outras informações sobre o aluno, não captadas pelo exame externo. "Um professor sabe que a nota dele é um estímulo para o aluno e reconhece que a nota tem de ser fiel, mas não é uma medida perfeita", diz.

Por isso, segundo diz, tendem a surgir avaliações que buscam contemplar também os aspectos chamados de habilidades não-cognitivas. A auto-confiança é um desses aspectos. "Um aluno motivado, com alta sociabilidade, tende a ter desempenho melhor, mas não estamos ainda medindo isso", considera. Pela primeira vez, segundo o pesquisador, algumas perguntas destinadas a uma avaliação desse tipo foram incorporadas em um estudo feito pelo Inep em projetos de educação de jovens e adultos.

As lições do estudo, para ele, remetem à necessidade de aprimorar as formas de avaliação, na medida em que influem em decisões do aluno e da família, como o abandono escolar. "A nota é um instrumento importante para as decisões futuras do aluno, por isso deve ser uma informação o mais próxima possível da realidade", diz.


% de alunos de nível socioeconômico elevado nos diversos níveis de habilidade em leitura*


País

Abaixo do nível 1(%)

Nível 1(%)

Nível 2(%)

Nível 3(%)

Nível 4(%)

Nível 5(%)

Brasil
3
14
25
37
16
5

Coréia do Sul
0
1
10
34
45
10

Espanha
1
4
15
35
36
10

Estados Unidos
1
5
14
26
29
24

Rússia
2
7
23
30
24
9

França
1
2
11
29
38
19

México
2
7
26
34
24
3

Portugal
1
3
13
34
37
11
*sendo o nível 1 o mais baixo e o 5 o mais alto /

Fonte:

Pisa 2000

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