Autoridade revisitada

Seria possível restabelecer a confiança num mundo fundado na obsolescência veloz de objetos, práticas, teorias e valores?

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Pelo menos desde a década de 60 que a autoridade como princípio regulador das relações entre escola, professores e alunos parecia banida – talvez mesmo escorraçada – dos discursos pedagógicos renovadores. Hoje, em função da espetacularização de atos de violência em escolas, o tema parece voltar com alguma força. Começa-se a falar na necessidade de um ‘resgate’ de uma pretensa autoridade perdida, capaz de imprimir ordem onde reina o caos.

As duas modalidades de discurso – o pretensamente libertário e o abertamente conservador – parecem ter um claro ponto em comum: não distinguem autoridade de poder, força ou coerção. Como o resultado final é aparentemente o mesmo – a obediência – a peculiaridade e o sentido de cada tipo de relação ficam obscurecidos. No entanto, se pensarmos em nossas experiências cotidianas, intuímos que há uma diferença significativa entre obedecer ao comando de alguém que nos aponta uma arma ou ao conselho de um médico ou sacerdote em quem confiamos. Neste último caso, ao contrário do primeiro, a submissão à palavra do outro se funda num assentimento voluntário.

A relação de autoridade preserva, pois, a liberdade daquele que obedece. A obediência não é obtida por coerção, mas resulta da confiança inspirada pelo reconhecimento de um saber, seja sua fonte a experiência ou a transcendência. Por isso, o recurso à violência e à coerção não restaura a autoridade, simplesmente constata seu enfraquecimento ou desaparecimento. Por outro lado, a persuasão e o convencimento podem gerar adesão e obediência; mas tampouco se confundem com uma relação fundada na autoridade. Enquanto esta última implica a aceitação de uma hierarquia tida como legítima – como aquela entre o fiel e seu sacerdote; o líder e seus seguidores – a persuasão, procedimento político por excelência, sugere a igualdade como ideal de relação.

Um mundo fundado na rápida obsolescência de objetos, práticas, teorias e valores é basicamente hostil a uma relação estruturada em laços de confiança baseados na firme crença da legitimidade de um lugar e de um saber. Como se vê, o problema é complexo e não se resolve pela substituição de um método de ensino ou pela adesão a uma linha pedagógica. Muito menos se recorrendo à polícia e às suas armas. Sejamos, pois, corajosos para encarar com lucidez seu esvanecimento.


José Sérgio Fonseca de Carvalho



Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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