Aula de diplomacia

Alunos do ensino médio aprendem a arte da negociação em conferências simuladas que se inspiram no modelo da Organização das Nações Unidas

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Durante quatro ou cinco dias, alguns jovens encostam a mochila, guardam o tênis, trocam o uniforme por trajes mais comportados e formais, e experimentam os desafios e emoções dos grandes fóruns de discussão internacional graças a uma prática pedagógica nascida nos EUA nos anos 50 e cada vez mais freqüente no Brasil: as conferências simuladas — exercícios de diplomacia que reproduzem o Modelo Nações Unidas de negociação e constituem necessidade imperiosa na sociedade globalizada, em que indivíduos, organizações e estados estão constantemente sujeitos a conflitos de toda natureza.








 Renato Stockler





 Alunos do colégio Visconde

de Porto Seguro, em São Paulo


Nessas simulações, alunos de instituições particulares e públicas de ensino médio atuam, durante quatro ou cinco dias, como delegados e representantes de diversos países, em comitês e comissões específicas. Preparam estratégias, negociam acordos, buscam o consenso e a solução de problemas regionais e mundiais, tendo como referência a política externa e os interesses da nação representada. Complicado? Nem tanto, garantem os jovens que já participaram desse tipo de atividade, descrita por eles como altamente desafiadora e gratificante. “É melhor e mais interessante do que
War

“, afirma David Chien, do Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo (SP), referindo-se a um dos mais populares e tradicionais jogos de estratégia.


Quem dá as cartas —

Organizados por alunos dos cursos de graduação em Relações Internacionais sob a orientação de seus professores, os modelos – como são chamadas essas simulações – dirigem-se aos estudantes do ensino médio e fazem parte do calendário de eventos de instituições de ensino superior como a Universidade de Brasília (UnB), a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), a PUC-RJ, a Universidade Estácio de Sá, também do Rio de Janeiro, e a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), de São Paulo.

Na UnB, por exemplo, realizou-se em abril passado a quarta edição da Simulação das Nações Unidas para Secundaristas (Sinus), com a participação de 450 delegados de 20 escolas públicas e privadas de vários estados brasileiros – entre eles, Amazonas, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. “Cerca de 70 alunos de Relações Internacionais, Direito, História, Comunicação e Letras participaram da organização do Sinus”, afirma Heitor Castro, secretário-geral do evento. Estão previstas, ainda para 2005, as seguintes simulações: II Modelo Intercolegial de Relações Internacionais-Mirin (26 a 30 de julho), VI Mini-ONU (12 a 15 de outubro) e a III ONU Jr. (11 a 15 de novembro), organizadas, respectivamente, pelos alunos de Relações Internacionais da PUC-RJ, PUC-MG e Universidade Estácio de Sá.

O “caçula” desses eventos é o Fórum FAAP de Discussão Estudantil, cuja primeira edição, em maio último, recebeu 280 alunos do ensino médio, de 48 escolas, inscritos como delegados nas reuniões das seguintes entidades: Assembléia Geral da ONU (Comitê de Desarmamento e Segurança Internacional, e Comitê Econômico e Financeiro), Conselho de Segurança da ONU, Conselho Econômico e Social da ONU (Comissões de Direitos Humanos, de Ciência e Tecnologia, e de Desenvolvimento Sustentável) e Organização Mundial do Comércio.

À semelhança do que ocorre em outras simulações, essa também foi organizada por estudantes do curso superior de Relações Internacionais, mas contou com o apoio de discentes de outros cursos da FAAP. “Essa equipe multidisciplinar foi responsável pelas partes administrativa e acadêmica do fórum, incluindo desde a captação de recursos, a logística das atividades e a divulgação até a pesquisa, redação e edição do
Guia de Estudo

, no qual foram relacionadas as regras oficiais do evento e, importantíssimo, textos gerais sobre cada um dos temas que seriam debatidos pelas comissões”, explica a secretária-geral Raquel Rocha, estudante de Relações Internacionais com larga experiência em simulações.

“Com a ajuda do guia, os inscritos puderam se preparar com antecedência e se adaptar rapidamente aos procedimentos adotados em negociações – por exemplo, o respeito ao discurso de outro delegado, os limites de tempo de cada pronunciamento, as questões de ordem.” A esse respeito, Mariane Marino, do Colégio Visconde de Porto Seguro, afirma: “Aprendi, no fórum, a ouvir e a falar na hora certa.” E com ela concordam seus colegas de escola, que só têm elogios para a experiência. “Quem não pode ir, por um motivo ou outro, chegou a ficar com inveja”, lembra Éderson Luiz Eduardo, coordenador do curso técnico profissionalizante de Comércio Exterior do colégio e orientador dos estudos preparatórios para o fórum.


Tudo a ganhar, nada a perder —

Nesse faz-de-conta criativo e inteligente, todos ganham, tanto do ponto de vista humano quanto intelectual. Essa é a conclusão unânime dos 33 alunos do Porto Seguro que passaram pela experiência: alguns do 1º ano, outros do 2º e do 3º, mas todos do curso técnico de Comércio Exterior – o que fez uma grande diferença, acreditam eles, pois a formação recebida nas várias disciplinas que compõem a grade (Economia, Relações Internacionais, Direito e Logística, entre outras) permitiu bom desempenho nas reuniões do Fórum.

“Notamos que muitos dos participantes de outros colégios estavam despreparados e acho que nossa equipe foi beneficiada tanto pelo nosso conhecimento na área de comércio exterior como, também, pelo apoio que recebemos da escola, nos 30 dias que tivemos de preparação”, revela Letícia Ribeiro. O aluno Gabriel Ramos concorda com Letícia e garante que o treino de oratória recebido em sala de aula – por meio de apresentações, seminários e debates freqüentes – foi fundamental para sua atuação como delegado da República Popular da China no Conselho de Segurança. Nem mesmo o fato de as discussões desse Conselho serem em língua inglesa prejudicou sua participação

“A experiência foi desafiadora, principalmente porque exigia de nós pensamento rápido e agilidade nas discussões, mas estávamos bem preparados”, garante Gabriel. “Havíamos estudado a política externa chinesa e, também, o cenário político e econômico dos outros países que compõem o Conselho. Isso nos ajudou quando foi colocada em discussão uma situação de crise entre a China e o Japão sobre o direito territorial das ilhas Ryukyu. Só fomos surpreendidos quando a delegada da Federação Russa protestou contra o representante dinamarquês, batendo com o sapato em cima da mesa – exatamente como fez, décadas atrás, na ONU, o líder soviético Nikita Krushev.”

Para o aluno Eduardo Penteado, que representou a Ucrânia no Comitê Econômico e Financeiro, o Fórum valeu a pena, pois permitiu a ele ampliar seus conhecimentos, adquirir maior confiança para falar em público e conscientizá-lo da importância do processo de negociação. “Inicialmente fiquei acanhado, é natural. Depois me senti à vontade e expus minhas posições. Além disso, percebi que é essencial saber negociar. Vejo isso claramente, hoje, quando leio os jornais.” Mariane Marino, delegada da China no Comitê de Desenvolvimento Sustentável, aponta dois outros fatores positivos: as negociações fora das salas de reuniões e a integração da equipe do Porto Seguro.

“Muitas alianças se consolidaram na hora do
coffee break

, a maioria das negociações foram feitas nos corredores. Isso mostra como todos estavam comprometidos na busca de soluções. Além disso, nossa equipe reunia-se sempre que possível para discutir posições e estratégias. Isso nos aproximou muito.” Adriano Tavares concorda com Mariane: “Ficamos mais próximos de colegas da escola, mesmo daqueles que estão em turmas diferentes da nossa”. E Mariana Camargo completa: “Fizemos amizade também com alunos de outros colégios. Dentro da sala de reunião, eu representava a China, mas, lá fora, era eu mesma”.

“A integração e o comprometimento da nossa equipe merecem aplausos”, afirma o professor e coordenador Éderson Luiz Eduardo. “Dei a partida no processo de preparação para o evento, mas rapidamente os chefes de delegação assumiram a tarefa de organizar as pesquisas e as informações. A rapidez, a eficiência e a seriedade com que trabalharam superaram todas as expectativas e comprovaram a importância dessa atividade na formação de nossos alunos. A prática das simulações casa-se com os quatro pilares de nosso curso de comércio exterior, que são o empreendedorismo, a diplomacia empresarial, as relações internacionais e o comércio exterior.”


De coadjuvante a secretário-geral


Sem temer clichês, Guilherme Casarões afirma que a experiência em conferências simuladas mudou sua vida. De fato, em 2000, quando foi convidado a participar da primeira edição da Mini-ONU, promovida pelos alunos do curso de Relações Internacionais da PUC-MG, sua preocupação maior era entrar para a faculdade de medicina. “Ninguém sabia muito bem o que eram simulações e acabei me inscrevendo para representar Cuba porque um comitê iria discutir biotecnologia, um tema possível de cair no vestibular. Outros colegas preferiram recusar o convite para continuarem focados nos seus estudos.”

Felizmente, Guilherme não passou no vestibular para medicina e resolveu participar mais uma vez da Mini-ONU. “A segunda experiência em conferência simulada mudou completamente a minha visão de mundo e, conseqüentemente, os meus planos de carreira. Estudar Relações Internacionais me pareceu, então, a coisa certa. Foi o que fiz e não me arrependo, pois a minha subseqüente participação nos simulados da PUC-MG confirmou o acerto da minha decisão.”

De fato, Guilherme “fez carreira” – exemplar, diga-se – na Mini-ONU. Junto com seus colegas da primeira edição, trabalhou arduamente para aumentar a visibilidade do evento e acabou pulando da posição de delegado para a de diretor assistente de comitê. Mas sua experiência não parou aí: foi também diretor acadêmico do evento e diretor de comitê antes de assumir o cargo máximo, atual, de secretário-geral. “Minha gestão termina em outubro, no início da próxima Mini-ONU, quando toda a equipe organizadora elegerá o próximo secretário-geral.”

Esse percurso certamente consolidou a escolha de Guilherme para a carreira de relações internacionais e ampliou seus conhecimentos acadêmicos e profissionais. “A experiência como delegado e como integrante da equipe que organiza o evento me deu a chance de atuar nas mais diversas áreas – preparar uma simulação desse porte implica captar recursos, treinar pessoal, pesquisar, redigir, buscar parcerias, utilizar técnicas de marketing para divulgar o evento, aprovar textos e lay out… Enfim, em lugar nenhum eu teria a chance de me enriquecer com informações e práticas tão diferentes e abrangentes.”



ONU tem 191 países-membros




O ideal de um planeta no qual os conflitos fossem superados de maneira pacífica determinou a criação, em 1945, da Organização das Nações Unidas. Em 24 de outubro daquele ano, imediatamente após o final da II Guerra, 51 países ratificaram o tratado internacional conhecido como Carta da ONU, que regulamenta os direitos e deveres de seus membros – hoje, são 191 estados soberanos.

Sediada em Nova York (EUA), a ONU é constituída de seis órgãos principais: a Assembléia Geral (principal corpo deliberativo da entidade), o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, o Conselho de Tutela, o Secretariado e o Tribunal Internacional de Justiça – este último com sede em Haia (Holanda). Sua estrutura é acrescida, ainda, de 82 agências especializadas, intergovernamentais, que atuam em âmbito planetário nas áreas social, científica e técnica – entre essas agências destacam-se o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), as organizações Internacional do Trabalho (OIT), Mundial do Comércio (OMC) e Mundial da Saúde (OMS).




Reportagem: Sheila Mazzolenis



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