Augusto Botelho

senador (PDT-RR) e vice-presidente da Comissão de Educação do Senado

Compartilhe
, / 1009 0



Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?


Antes de entrar no cerne dessa discussão, é importante ressaltar que a educação básica no Brasil foi marcada por diversas reformas educacionais, muitas delas construídas dentro de gabinetes e outras chegavam ao nosso país em pacotes prontos, isso caracteriza uma educação sem identidade própria. Mas, hoje, temos um modelo educacional que tem despertado para buscar sua identidade e isso pode ser visto na LDB 9.394/96 e na última reforma que se localizou diretamente nas questões curriculares. Contudo, apesar dos esforços realizados nos últimos anos, inclusive com investimentos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bird), e da busca de humanismo defendido pela Unesco para educação do século XXI com base, por exemplo, no “aprender a aprender”, não se tem conseguido avançar em áreas fundamentais, como a formação continuada e permanente dos educadores que enfrentam dificuldades salariais, a democratização da gestão educacional que tem sido atrelada ao projeto pedagógico da escola, mas em muitos casos inviabilizada pelo centralismo das políticas públicas que tradicionalmente distanciaram a comunidade da participação em questões de interesse público e ainda em relação aos investimentos financeiros, que apesar de aparecerem nos orçamentos da União, dos Estados e dos municípios, como indicativos de prioridade das políticas educacionais, não são suficientes para atender às exigências do sistema educacional. É isso pode ser confirmado ao conversar com qualquer professor da rede pública. Dessa forma, temos uma educação com baixo nível de aprendizagem, currículos que não atendem aos atuais desafios da sociedade e da própria educação, como pode ser comprovado no Saeb e no Enem, os quais têm nos indicados no geral que as políticas de educação precisam de mudanças mais substanciais em questões que vão das políticas de investimento à forma do professor dar aula.

Compreendo que o desenvolvimento de uma sociedade não depende exclusivamente da educação, mas de políticas que se organizam e se articulam no processo das decisões políticas. Contudo, é por meio da educação que a nação amadurece, cria oportunidades e se constrói parte do cidadão.




Na sua opinião, qual é o principal desafio para alavancar o desenvolvimento e a qualidade da educação em nosso país?


É necessário investir mais na formação e na valorização salarial dos professores, garantindo-lhes uma formação de qualidade, salários dignos, condições de acesso a bens culturais e tecnológicos, mas essas capacitações, seja qual for a natureza,  precisam superar a visão assistencialista, se não, serão apenas programas fatigantes, longe dos reais problemas que o professor enfrenta no seu cotidiano. Nesse sentido, os professores precisam ser incluídos em uma nova ordem política e social, em que possam ter acesso a bens sociais (saúde, cultura, informação, “educação”), para que o professor possa desenvolver uma cultura pedagógica transformadora, garantindo as condições de trabalho, melhorando a estrutura física das escolas, com a definição  de  padrões de atendimento adequado, equipando as escolas com os recursos didático-tecnológicos necessários ao desenvolvimento do trabalho pedagógico, e fortalecer a gestão democrática das escolas, inclusive, com formação dos gestores, garantir que os investimentos em educação possam ser direcionados para atender às necessidades educacionais e implantar estratégias ou orientações curriculares que possam ser efetivadas nas escolas, pois as experiências com os PCNs não conseguiram atingir suas metas, pelo menos no contexto da escola.




Da forma como a educação está sendo administrada atualmente, como você acha

que estará a área daqui a dez anos?


Não é fácil fazer previsões quando se trata de aspectos sociais. Hoje o Brasil está mais maduro em suas políticas, a sociedade aprendeu a cobrar mais, no entanto é necessário construir uma proposta de política pública de educação, que se disponha a responder aos desafios para o sistema educacional, tornando um instrumento para oportunizar intelectualmente a população para os impactos ocorridos no mundo do trabalho e também para lidar com os novos padrões de cidadania, mediados pelos novos  paradigmas produtivos. Sabemos que a educação e a sociedade são indissociáveis e mantêm até uma simbiose sociopolítica, mas parece que em termos de políticas públicas, ambas têm se portado de forma análoga em alguns aspectos. E isso precisa ser considerado, é necessário olhar para o plano decenal, para as últimas políticas de educação, refletindo que não é só garantir acesso como muitos programas federais fazem, mas atentar para os aspectos que já salientei anteriormente, se não, daqui a dez anos, estarei respondendo a essas questões da mesma forma de hoje.



Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN