Ato de coragem

Peça sobre abuso sexual é encenada em escolas alemãs

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Salvador Pane Baruja, de Witt (Alemanha)



Por meio de risos e lágrimas do público infantil, uma peça teatral na Alemanha discute abertamente um tema em geral evitado por pais e professores: o abuso sexual. Exatamente por incutir confiança e coragem nas crianças, a montagem é um sucesso nas escolas alemãs há onze anos.


O Meu Corpo é Meu!

já foi vista por mais de um milhão de crianças, mas também por milhares de pais e professores. Centenas de entidades da sociedade civil, órgãos municipais e estaduais participam de uma rede de intercâmbio de experiências e de apoio a crianças, pais e professores. Afinal, as estatísticas na Alemanha assustam: cerca de 30% das moças e 13% dos garotos são vítimas de algum tipo de abuso sexual até os 16 anos de idade.

No palco improvisado de uma sala de aula ou no auditório da escola, dois atores mostram inúmeras situações do dia-da-dia na família, na escola, na rua. Uma cena logo no início apresenta uma menina penteando o cabelo do menino. No início, ele gosta. Mas, assim que fica chato, ele se vira e diz à menina: “Não quero mais!”. Outro momento é o de um homem no metrô que roça sua perna na coxa da mocinha. Ela hesita, mas, após reagir contra o assédio, sente-se melhor.

Mais uma passagem: o menino conta para a mãe que o tio fica mexendo nele. A mãe tem medo de romper o
status quo

familiar. O menino apela para o treinador da equipe infantil de futebol, que desconversa. A professora na escola diz que não tem tempo para se ocupar disso, mas depois acaba topando o desafio e pergunta ao menino se aceita contar o drama no Juizado de Menores. Após a conversa com psicólogos, a professora pergunta ao aluno como se sente. A resposta: “Muito melhor”.

A dramaturga Anne Pallas, co-autora da peça e diretora do grupo teatral Oficina de Pedagogia Teatral de Osnabrück, resume os objetivos: “Nós queremos conversar com cada criança, mostrar-lhe que o seu corpo lhe pertence. A peça pretende fortalecer o eu da criança, sua auto-confiança para se defender de ataques e para que tenha a coragem de procurar ajuda de outras pessoas. Além do mais, verbalizando a questão do abuso sexual, rompe-se o silêncio cúmplice que protege o criminoso e isola a vítima”.

Dirigida a crianças da 3ª e 4ª séries do ensino fundamental, a peça é apresentada em três dias diferentes, em geral com uma semana de intervalo. A idéia é que as crianças possam assimilar o conteúdo e os professores sintam a ressonância na sala de aulas. O público infantil é constantemente estimulado a se manifestar, fazer perguntas, ir ao palco.

Os objetivos do primeiro dia são explicar a sequência das três apresentações, criar um clima de confiança entre crianças e atores, e levá-las a participar da peça. “Transmitimos a convicção de que todas as crianças são pessoas ótimas, que têm o direito de dizer
sim

e
não

“, explica Anne.

Na segunda apresentação, entra-se no tema do abuso sexual. “Mostramos várias cenas onde pessoas desconhecidas tentam abusar de menores, na pracinha, numa área arvorizada. Mas também as várias alternativas que existem para evitar ou sair de situações parecidas. Repetimos várias vezes as três perguntas preventivas. Frisamos ao longo da peça que a criança não é culpada pelo que poderia acontecer ou aconteceu. Culpado é o adulto que abusa da boa fé e inocência da criança”, acrescenta Anne. Os atores perguntam a cada criança quem é a pessoa responsável por ela, inclusive fora da família, pois os abusos também acontecem nesse âmbito que mistura familiares e amigos.

No terceiro dia, um ator representa o jovem que se abre e conta o que lhe aconteceu com um parente. O outro ator é o professor, que ouve a vítima e, solícito, busca resolver o problema. “Tematizamos que é muito difícil para a criança se abrir, mas que fazê-lo é um ato de coragem. E também que o professor é uma pessoa de contato na escola, em quem se pode confiar. Por outro lado, há pais que não querem admitir o que aconteceu ou não levam a sério o que a criança conta, por vergonha ou medo de romper suas relações sociais estabelecidas”.

Há seis anos que
O Meu Corpo é Meu!

é apresentada na Marienschule, escola para crianças com deficiências físicas ou mentais, na cidade de Lohne, perto de Hannover. Nunca se sabe o que eles já vivenciaram e como irão reagir. “Há seis anos, uma menina desmaiou durante a apresentação. Provavelmente foi vítima de abuso sexual, mas infelizmente não foi possível esclarecer o caso”, admite Heiner Bleckmann, diretor da escola.

Um caso de abuso sexual denunciado na imprensa local criou sérios problemas na escola de Sickingmühle, no município de Marl. Toda vez que um carro vermelho parecido ao do criminoso passava perto dessa escola público de ensino fundamental, muitas das 168 crianças reagiam histericamente. “A peça ajudou a colocar a questão nos seus eixos, meninos e meninas acordaram de maneira sadia, ganharam confiança para falar com os professores”, conta a diretora Petra Badners.

Heike Spietmann, mãe de dois filhos e presidente da Comissão de Pais da Sickingmühle, tem suas dúvidas: “Depois de assistir a uma cena sugerindo que um adulto abusa da criança, os alunos disseram que não perceberam o risco que a criança estava correndo. Uma menina disse inclusive: ‘Mas o homem era tão legal!’ O tema é sutil demais, não sei se as crianças conseguem captar todas as nuances, ter consciência do que se passa numa situação de perigo”.

Para enfrentar esse ponto, existe uma instância de apoio a quem queira aprofundar a questão. Semanas antes de ser apresentada às crianças, a peça é vista por pais e professores num dia só. Fala-se inclusive da organização de contatos entre a escola, os pais e entidades da rede de apoio em nível local ou regional, que oferecem inclusive cursos de treinamento.

O diretor do Conselho Municipal de Prevenção da cidade de Lohne, Heinz Rasche, coordena grupos de pais que buscam novos fundamentos para a educação de seus filhos, mas também oferece treinamento para professores da rede pública. “Os valores tradicionais, como religião e família, perderam o status de verdades imutáveis. O mundo está mais complexo, os pais não sabem lidar com os novos meios de comunicação. A peça é um excelente exemplo da transmissão de valores básicos para a criança, como o direito de dizer sim ou não, e o de ser diferente da mãe e do pai”.

Andrea Busskotte, diretora da Divisão de Proteção ao Adolescente do governo estadual da Baixa Renânia, também trabalha nesse espaço. Ela orienta e fornece material didático a entidades civis que militam numa área geográfica onde moram um milhão de menores de 18 anos. “Os pais têm medo de encarar o problema do abuso sexual. Diante de uma situação concreta ou mesmo hipotética, reagem dizendo para as crianças que o mundo é um horror e que existem perigos por toda parte. A peça mostra que é possível lidar com o tema sem gerar pânico, e oferece ainda aos pais elementos para se orientar: o que eu posso fazer, com quem eu posso falar”, diz Andrea.




As três perguntas


“Meu corpo me pertence, pertence só a mim. Você decide pelo seu; eu, pelo meu”.




(Música cantada em Meu Corpo é Meu!, disponível para karaokê na página da produtora teatral na internet)



Um objetivo fundamental da peça é mostrar às crianças que elas mesmas podem avaliar se uma situação aparentemente inofensiva pode se tornar um pesadelo. É um apelo ao inconsciente – em alemão, fala-se de “Bauchgefühl”, uma espécie de intuição que se manifesta, por exemplo, por uma sensação boa ou ruim no plexo solar.

Conforme a situação, a criança deve se fazer uma, duas ou as três perguntas, na sequência indicada. Elas são:

1. Sinto que tenho que dizer
sim

ou
não

? (Ao adulto ou à situação que começa a se desenrolar.)

2. Alguém da minha confiança sabe onde estou? (Por exemplo, se for convidada a ir a um lugar deserto ou uma casa, um quarto.)

3. Se eu precisar, alguém pode me ajudar? (A sair de uma situação ou de um local.)

Anne Pallas não tem dúvidas: “Se a criança tiver  uma única vez a sensação de
não

, deve dizer claramente
não

, se afastar da pessoa, do local e, se necessário, procurar ajuda imediatamente”.



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