As trincheiras do ensino

Enfermidade “de guerra”, Transtorno de Estresse Pós-Traumático começa a ser detectado em professores vítimas de violência em sala de aula

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Baiana radicada no Rio de Janeiro, a professora Joseneide Santos de Aquino, 43 anos, dirigia seu carro em uma via de mão dupla, logo após encerrar uma aula na escola onde lecionava. Com a iminência do semáforo vermelho, desacelerou o veículo e aguardou. Em uma espécie de alucinação, teve a sensação de ver uma cadeira voando em sua direção e se descontrolou: desviou para não ser atingida, batendo na calçada alta e arranhando toda a lataria do carro. Por sorte, nem ela nem qualquer transeunte se feriu. Só depois de passado o susto é que ela se deu conta de que os problemas de violência do Rio ainda não incluíam cadeiras perdidas chovendo sobre o trânsito. Joseneide havia confundido a aproximação de um veículo na pista lateral com um episódio que a traumatizara em sala de aula: o comportamento de alguns de seus alunos, habituados a atirar objetos uns contra os outros – e contra ela, a professora. O incidente no trânsito era, portanto, um flashback: a revivência persistente de um evento traumático – principal sintoma do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), com o qual Joseneide seria diagnosticada.


Casos como o da docente carioca começam a aparecer de maneira isolada pelo país. Nos últimos dois anos, a Santa Casa do Rio de Janeiro registrou dois casos de TEPT. Em Curitiba e São Paulo, há registro de casos ligados ao transtorno, mas não existe uma sistematização do número de ocorrências. A terminologia “Transtorno de Estresse Pós-Traumático” começou a ser usualmente aplicada a partir do fim da Guerra do Vietnã, quando os combatentes americanos, ao retornar ao país, apresentavam quadros complexos de desordem psicológica. Mas, antes da formulação dessa categoria diagnóstica, já havia antecedentes que remontavam à síndrome. Na Primeira Guerra Mundial, ela era chamada de Shell Shock (algo como “choque da bomba”), associada aos soldados que voltavam das trincheiras apresentando tremores e alto grau de agitação. Imaginava-se que tais sintomas fossem decorrentes de traumatismo cerebral ocasionado pelos estampidos das explosões – o comportamento mais indicativo disso no veterano de guerra atormentado era o de se esconder, espelhando o instinto de procurar uma barricada para se salvar. Já na Segunda Guerra, outras reações graves começaram a aparecer entre os combatentes, como as tentativas de suicídio. O transtorno, portanto, parecia não ter relação exclusiva com os ruídos de canhões e afins, o que o levou a ser enquadrado na classificação genérica de “neurose de guerra”.


De acordo com Vera Lemgruber, chefe do Setor de Psicoterapia do Serviço de Psiquiatria da Santa Casa carioca, por muito tempo o TEPT também ficou associado a vítimas de grandes catástrofes geológicas. Só mais recentemente abriu-se o conceito para vítimas que tenham vivenciado situações individuais, como mães que perderam filhos, sequestrados, etc. “Mas sempre com a noção de que o estresse é muito grave. Não pode ser ””Ah, briguei com meu namorado””. Por definição, tem de haver um desencadeante”. Entre os principais sintomas, além do flashback – que é, na definição de Vera, um “pesadelo acordado” – aparece a agitação do sistema nervoso autônomo, que gera a taquicardia ou o “ataque de pânico”. Há ainda a reação inversa – e complementar – ao flashback, que é a esquiva persistente de estímulos associados com o trauma. “É quando a pessoa fica numa concha, foge do mundo, se retrai”, explica Vera.


Macroviolência
Essa característica foi detectada no caso da professora Joseneide. “Fiquei de um jeito que eu não podia nem ver o uniforme da escola. Se visse, eu saía para qualquer outro lugar”, revela. O diagnóstico, grave, seria até de certa forma compreensível para qualquer profissional da educação dentro do contexto, digamos, de “macroviolência” na qual a escola onde Joseneide lecionava se insere: o bairro do Jacarezinho, considerado área de risco na capital carioca. “A gente lidava com todos os conflitos externos que acontecem: granadas, tiros, polícia invadindo. Havia uma Cracolândia em frente à escola”, detalha. “Mas nada a que eu não estivesse acostumada”, completa Joseneide que, num emprego anterior, também em área de risco, chegou a se ver como aquele personagem do filme Cidade de Deus: na linha de fogo entre os tiros da polícia e dos traficantes. No entanto, não seria a violência exterior a causa de seus problemas na escola de Jacarezinho, que integrava o Projeto Ayrton Senna, focado na aceleração de aprendizagem – espécie de supletivo para estudantes que não conseguiram se alfabetizar pelo processo normal. A turma de Joseneide era composta por 25 pré-adolescentes, mas seis deles comportavam-se como uma minigangue. “Tinham um líder, um menino de 13 anos, cuja mãe estava com diagnóstico de Aids. Ele estava desorientado e machucava muito as outras crianças. Para ele, minha interferência era tida como algo pessoal”, conta.


“Geni”
Segundo o relato de Joseneide, um fator colaborava com o comportamento daquele adolescente: a recente mudança de professoras, que não era esperada pela turma. A docente assumira o Acelera 2, a segunda etapa do processo, e o jovem infrator queria ter aulas com a professora que já conhecia, do Acelera 1. O tratamento agressivo seria, portanto, uma represália. Ela diz que a personalidade violenta do garoto intimidava os colegas. Ele dava a ordem de boicotar todas as atividades propostas e que, quando ela se virasse para o quadro-negro, objetos fossem atirados contra ela. “A criança que não cumprisse teria as consequências depois”, relata. Certamente contaminado pela cultura da violência do entorno, o jovem uma vez ameaçou uma merendeira iniciante da escola munido de um facão de 30 centímetros.


Com frequência, prometeu matar Joseneide “a fuzil”, no bairro dela. Em um recreio, chegou a atirar uma pedra em sua direção. Não a acertou, mas atingiu uma aluna. “O fato de ela ter sido machucada no meu lugar me fragilizou muito”, lamenta Joseneide. Suas crises de choro se tornaram comuns. Ao fim dos expedientes, habituou-se a parar o carro no estacionamento de um hipermercado só para chorar, para não fazê-lo diante do namorado com quem se encontraria mais tarde. O primeiro psiquiatra a quem recorreu constatou nela apenas “problemas administrativos e ansiedade”, receitando-lhe ansiolítico. Uma segunda opinião médica apontou o TEPT e a encaminhou para tratamento na Santa Casa de Misericórdia, onde passou a ser medicada com antidepressivos (Risperidona, Procimax e Rivotril). Ela está há dois anos em tratamento, e ainda aguarda o aval para retornar à antiga escola na condição de “readaptada”.


Recaídas
Outro professor diagnosticado com o TEPT, A. L. (que prefere não se identificar), tem 45 anos de idade e 21 de profissão. Considera que sua saúde mental ficou em frangalhos pela recorrência de eventos traumáticos que vivenciou em escolas de Diadema (SP)  em um período de dez anos. Ele lecionava em um colégio de ensino médio, localizado numa região periférica da cidade, tomada pelo tráfico de drogas. Um de seus alunos que era conhecido por ser muito agitado, certo dia, saiu da sala. Instantes depois, o professor notou uma movimentação de pessoas estranhas no pátio que, ao que parecia, estavam à procura de algum estudante. Escaldado, o professor tratou de trancar a porta. A seguir, ouviu-se o barulho de tiros. Seu aluno inquieto havia sido alvejado – por um equívoco em um acerto de contas entre bandidos. Como os tiros atingiram a cabeça, o garoto não sobreviveu.


Na ocasião, A. L. já tomava o antidepressivo Fluoxetina, como tratamento de bulimia nervosa, desencadeada meses antes, quando teve um entrevero com um sujeito na faixa de 40 anos de idade que invadira a sala de aula – pela postura e pelo linguajar, o professor teve a certeza de tratar-se de um traficante. Com a possibilidade real de o sujeito estar armado, o professor imaginou que seria morto ali mesmo. A partir de então, A. L. foi tomado por crises de fobia. “Tinha medo de tudo. Não podia sair de casa sozinho. Você imagina que tem alguém te perseguindo em todo lugar”, conta. Quando começou a se recuperar, ocorreu o assassinato do aluno. “Meus sintomas vieram em dobro e a minha vida nunca mais foi a mesma”, indica. Assim, teve de aumentar de um para dois comprimidos de Fluoxetina, o que acabou causando, ele diz, outros distúrbios cardiológicos e endocrinológicos.


Anos depois, A. L. já estava em outra escola, embora o cenário da circulação livre de drogas fosse o mesmo. Tanto que, ao chegar para uma aula, sentiu cheiro de maconha em plena sala. Deu uma justificativa qualquer e saiu, para avisar a direção a respeito do problema. O diretor dirigiu-se à sala e tentou a pouco eficiente estratégia de buscar a confissão espontânea: quem havia fumado? “Deduziram que eu, como professor, tinha denunciado”, diz A. L. Dias depois, andando na rua, ele foi cercado por três estranhos. Anunciaram que era chegado o momento do acerto de contas do que havia acontecido. Um deles levantou a blusa e mostrou um revólver na cintura. A. L. conseguiu escapar ileso e não voltou a lecionar ali. Mas a somatização dos eventos acabou desembocando depois em uma convulsão quando já trabalhava em outro colégio. Segundo um neurologista que o atendeu, o caso poderia evoluir para uma epilepsia. “Podia ter virado câncer ou AVC, mas, no meu caso, afetou meu neurológico”, constata o professor. Vera Lemgruber confirma que a pessoa sob TEPT fica mais vulnerável a outras disfunções de saúde. “O cérebro faz o comando geral. Se ele está prejudicado, com uma doença do tipo depressiva, de ansiedade ou TEPT, isso vai repercutir em outras áreas do organismo”, explica. A. L. encontra-se afastado da atividade pedagógica e entrou com pedido de aposentadoria por invalidez.


5%
O fato de o diagnóstico de TEPT em professores só ter começado a aparecer há pouco tempo está atrelado ao desconhecimento generalizado sobre o transtorno. A pessoa que vivencia um episódio violento tende a achar que a insegurança e o pavor consequentes são reações naturais, e mesmo em casos extremos, não as vê como um problema de solução clínica. “É um pouco semelhante como foi com o TOC [Transtorno Obsessivo Compulsivo]. Depois que o Roberto Carlos falou que tinha, passamos a receber pessoas que diziam: ””Ah, então é isso que eu tenho”””, diz Vera. Foi há cerca de dois anos que ela recebeu na Santa Casa a primeira professora para tratamento, encaminhada pelo sindicato da categoria. A princípio, a professora fora diagnosticada como tendo Burnout, uma síndrome de menor gravidade, em que a vítima apresenta quadros de profunda estafa mental, geralmente desencadeada por excesso e/ou más condições de trabalho – tanto que o grupo de professores compõe com o de médicos e o de enfermeiros os mais afetados pelo problema. Mas era TEPT.


Na carona da primeira professora atendida na Santa Casa, outros surgiram com os mesmos sintomas. No entanto, nem todos se confirmaram como casos de TEPT. Transtornos de origem psicológica, como depressão e ansiedade, acabam muitas vezes confundidos na mesma geleia geral. A especialista ressalta que a incidência de TEPT é bem baixa, atingindo apenas 5% das pessoas que passam por experiências violentas, o que é indicativo de que o instinto de sobrevivência impele o ser humano a se adaptar ao meio em que vive.


“Paga para dar nota”
Se se imagina que a questão da violência contra o professor espelha uma realidade de periferia ou de áreas de risco, o caso da professora de Belo Horizonte C. A. (que também pediu para não ser identificada), de 40 anos, é oportuno para mostrar que mesmo entre estudantes bem-nascidos as coisas não são muito diferentes. Professora de ensino superior, ela lecionava para uma turma de administração em faculdade particular quando, em abril do ano passado, passou por uma experiência que preferiria esquecer. Ao aplicar uma prova, 60% dos alunos tiveram desempenho ruim. Uma das alunas, ao ver a nota baixa, jogou a prova no chão. A professora notou a tensão e recolheu a folha, tentando contemporizar. Não deu certo, e ainda ouviu: “Você é paga para me dar nota”. C. A. avisou que faria uma ocorrência da aluna junto à direção, mas quando deixou a sala, foi empurrada e ofendida com palavrões, xingamentos e promessas de que aquilo “não ficaria assim”.


Com a integridade física ameaçada, C. A. teve uma crise de pânico e acabou se ausentando das aulas nos dias que se seguiram. Chegou a fazer boletim de ocorrência em delegacia. “Saía de casa olhando para ver se tinha alguém me seguindo. Se parasse um motoqueiro do lado, já achava que era alguém que ela tinha encomendado para me matar”, recorda. A sensação de perseguição durou cerca de quatro meses, atenuada com o uso de um antidepressivo ministrado por uma médica da família. Mas, no caso de C. A., o que houve foi uma “reação aguda ao estresse”, situação que pode trazer à tona alguns dos sintomas do TEPT, como taquicardia, embora o flashback não apareça. “Mas sendo reação aguda, a evolução é muito mais benigna e a resposta mais rápida”, explica Vera Lemgruber. “A pessoa se recupera normalmente.” É por isso que, para confirmar ou não um quadro de TEPT, é preciso que a vítima fique em observação por pelo menos seis meses após a ocorrência do evento desencadeante.


Ceticismo e esperança
Via de regra, professores e profissionais do ensino concordam que a postura da escola perante os casos de violência precisa ser repensada. Joseneide Aquino aponta que a cultura engessada e viciada dos colégios ratifica o preocupante estado de coisas. Quando a relação com seu aluno problemático vinha se tornando insustentável, ela sugeriu à diretora levar o assunto à Associação de Moradores. Mas teve de ouvir: “estou aqui há 24 anos e nunca precisei disso”, revela. A própria diretora contribuía para esfarelar a autoestima da professora, ao dizer que aquela turma “nunca havia apresentado aquele tipo de problema”. Joseneide concluía que estava sendo chamada de incompetente. O professor A. L. aponta a falta de comprometimento da comunidade no acompanhamento da educação dos filhos e também a má formação dos profissionais do ensino nos cargos diretivos como os gargalos da questão. A mineira C. A., falando especificamente sobre o ensino privado, observa que o aluno, por pagar mensalidade, se comporta como o cliente no usufruto de um serviço.


A. L. reconhece que, por tudo o que passou, perdeu boa parte do gosto pela docência. Não pretende mais ter contato com aluno. Quer se dedicar, agora, à pesquisa acadêmica, transformando as próprias experiências pessoais em matéria-prima para estudos sobre saúde mental do professor. Joseneide, por sua vez, considera que nasceu para ser professora. A jornada pode ser árdua, mas ela, que no auge da síndrome pensou em suicídio, não esmorece. Vivia pedindo alta aos médicos mesmo quando o tratamento ainda estava longe do fim. “Acredito na educação como mudança para o mundo interno da criança, e para o nosso mundo. A educação é a base e não há outro caminho”, define.





A origem
Cenas dos filmes Glória Feita de Sangue (1957) e Apocalypse Now (1979) e da minissérie The Passific que retratam a 1° Guerra, a Guerra do Vietnã e a 2° Guerra, respctivamente. Os sintomas já haviam sido relatados na 1° Guerra, mas a terminologia TEPT só passou a ser usualmente aplicada a partir do fim da Guerra do Vietnã.












 


 


 


 


 


 






Os sintomas do TEPT


>Flashbacks de situações que desencadearam o estresse
>Agitação do sistema nervoso autônomo (que gera taquicardia ou o “ataque de pânico”)
>Esquiva persistente de estímulos associados com o trauma

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