As lições da Finlândia para o Brasil


Respeitadas e compreendidas todas as diferenças entre os dois países, o Brasil pode tomar a Finlândia como um bom exemplo de sistema educacional.

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São Paulo, 24 de maio de 2013.

Enquanto a Campanha Nacional pelo
Direito à Educação realiza, em parceria com a Faculdade de Educação da USP
(Universidade de São Paulo) o importante seminário “Nem herói, nem culpado.
Professor tem que ser valorizado”, a diretora do Ministério da Educação da
Finlândia, Jaana Palojärvi, visita o Brasil. Como não poderia ser diferente, a
presença da gestora finlandesa por aqui tem causado certo frisson. Seu
país, no curso dos últimos anos, tem sido a principal referência no PISA
(Programme for International Student Assessment ou Programa Internacional de
Avaliação de Estudantes), da OCDE (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico). E, diante disso, ninguém resiste à pergunta: qual é
o segredo da Finlândia?

Segundo Jaana Palojärvi, o sucesso finlandês no
PISA não tem nada a ver com métodos pedagógicos revolucionários, uso da
tecnologia em sala de aula ou exames gigantescos como Prova Brasil, Enem ou
Enade. Pelo contrário: a Finlândia dispensa as provas nacionais e aposta na
valorização do professor e na liberdade para ele poder
trabalhar.

Adicionalmente, segundo matéria do portal G1, na Finlândia a
educação é gratuita, inclusive no ensino superior. A jornada, de 4 a 7 horas, é
relativamente curta para os padrões europeus. E os alunos não têm muita lição de
casa. “Também temos menos dias letivos que os demais países, acreditamos que
quantidade não é qualidade”, diz Jaana.

A gestora educacional considera
que duas reformas foram responsáveis pela melhoria da educação finlandesa: uma
na década de 1970 e outra nos anos 1990. Na década de 70 a educação ganhou
centralidade na agenda pública nacional. Já a partir do início da década de 90,
o sistema educacional foi descentralizado. Os municípios, escolas e,
principalmente, os professores passaram a ter mais autonomia, recebendo
condições adequadas de trabalho.

“Fé e confiança têm papel fundamental no
sistema finlandês. Descentralizamos, confiamos e damos apoio, assim que o
sistema funciona. O controle não motiva o professor a dar o melhor de si. É
simples, somos pragmáticos, gostamos de coisas simples.”

Em outras
palavras, sistemas apostilados, que mediocrizam o trabalho do professor, não
cabem na Finlândia. Bem como programas de remuneração por mérito, tão defendidos
pelo Brasil afora. Atenção economistas de plantão: Ideb (Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica) na porta da escola na Finlândia?
Jamais!

Obviamente, é impossível implantar o modelo finlandês por aqui.
Brasil e Finlândia são países completamente diferentes. Mas, sem dúvida, a
ex-colônia russa pode servir como exemplo em termos de trabalho pedagógico. E em
remuneração dos professores.

Ao ler as matérias publicadas na imprensa
nacional sobre a visita de Jaana Palojärvi ao Brasil fui surpreendido por uma
curiosa notícia: para ela, o segredo do sucesso não está ligado ao financiamento
da educação.

A Finlândia investe um patamar próximo a 6% de seu PIB em
educação pública. “O sistema de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma
questão de organização”, afirma Jaana.

Mas quanto ganha o professor por
lá? Em média, cerca de R$ 8 mil!

Seria justo, seria ótimo… Contudo, nem
com um investimento público em educação pública equivalente a 10% de seu PIB
(Produto Interno Bruto), o Brasil conseguirá remunerar com R$ 8 mil reais, na
média, seus profissionais do magistério. Na melhor das hipóteses, alcançado esse
patamar, daqui a 10 anos, nosso país pode conquistar uma média de remuneração
docente entre R$ 3 mil e R$ 4,5 mil reais. Ainda assim, para tanto, precisa ser
aprovado e implementado, urgentemente, um novo e bom PNE (Plano Nacional de
Educação).

Portanto, tal como propõe a Campanha Nacional pelo Direito à
Educação, a melhor alternativa de ação é perseverarmos na luta por um “PNE pra
Valer!”. Se não podemos ser a Finlândia, que o Brasil dê um passo decisivo e
decidido rumo à educação pública de qualidade.



Além do portal
G1, este post utilizou informações publicadas pela Agência Senado e Agência
Brasil.


(***)

Comentário de 25/5: Por algum motivo, não
está funcionando o serviço de comentários do Blog.

Assim, via Facebook,
alguns leitores me perguntam se o Brasil precisa investir o equivalente a 10% do
PIB em educação pública, pois a Finlândia investe menos. Vamos lá…

Se
quiser valorizar o professor, o Brasil precisa dobrar, em uma década, seu
investimento em educação pública.
Em termos absolutos, a Finlândia é um país
com um PIB menor do que o brasileiro, mas com muito menos habitantes e,
obviamente, com ainda menos estudantes.
Com isso, mesmo investindo menos em
educação em comparação ao seu PIB, investe muito mais em termos de
custo-aluno/ano e em salário dos professores, como postei.
Segundo o último
relatório “Education at a glance 2012” da OCDE, a Finlândia investe USD 5.553
dólares por aluno ao ano em educação pré-primária (educação infantil), USD 7.368
no ensino primário, USD 8.497 na educação secundária e USD 16.569 no ensino
superior.
Já o Brasil, respectivamente, investe: USD 1.696, USD 2.405, USD
2.235 e USD 11.741. Ou seja, muito menos.
É por isso que por lá, com cerca de
6% do PIB investidos em educação, a Finlândia tem uma remuneração média do
professorado próxima de R$ 8.000. E percebam: com 10% do PIB destinados à
educação pública o Brasil alcançaria apenas metade desse valor.
Ou seja, hoje
investimos o equivalente a 5,3% em educação pública e estamos com uma
remuneração média do profissional do magistério que não chega a R$ 2 mil reais.
Vocês acham que vale a pena investir um patamar de 10% do PIB e alcançar quase
R$ 4,5 mil reais de remuneração média dos docentes da educação básica?
Ainda
é pouco, mas é um salto necessário. Pergunto: vale a pena dá-lo? Essa é a
pergunta central.
A Campanha Nacional pelo Direito à Educação acredita na
valorização docente. E, por isso, trabalha por um “PNE pra Valer!”, com uma meta
de investimento público em educação pública equivalente a 10% do PIB, a ser
alcançada em 10 anos.
Portanto, quando Jaana Palojärvi afirma que o “sistema
de educação gratuito não sai tão caro assim, é uma questão de organização”, ela
está comparando a Finlândia com seus vizinhos, pois em termos práticos, seu país
investe muito mais em suas crianças, adolescentes e jovens do que o Brasil. Essa
realidade me incomoda. E a vocês?
Agora, espero que tenha ficado mais clara
minha posição… Mandem mais comentários. E aqui eu mando um forte
abraço!
Para acessar o relatório da OCDE, clique aqui: Education at a Glance
2012
.

**

26/5: Comentário da Profa. Catarina de
Almeida Santos, da Faculdade de Educação da UnB:

“Daniel Cara, nessa
missão [de Jaana Palojärvi] ao Brasil, alguns professores também participaram e
um dos locais de visita foi Brasília e a UnB. Em uma atividade que realizamos na
Faculdade de Educação duas professoras, sendo uma diretora de escola, trouxeram
informações importantes para entendermos esse processo.
A questão da
formação: todos os professores das series iniciais têm mestrado, os da educação
infantil têm graduação e já está em desenvolvimento uma política para que eles
também façam mestrado.
A educação obrigatória começa aos sete anos de idade,
mas 90% das crianças pequenas estão matriculadas na educação infantil.
Os
alunos ao concluírem o ensino médio podem escolher se vão fazer curso superior
acadêmico, Politécnico ou ambos.
Não existe escola particular, todas são
publicas, da educação infantil à pós-graduação. Não há grandes disparidades de
renda, ou seja, muito pobres e muito ricos.”

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