As grandes emoções dos pequenos

Ficção e atividades lúdicas ajudam alunos da pré-escola a controlar sentimentos e usar palavras para expressar manifestações físicas

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Todos os dias, quando entram na sala de aula, os alunos da educação infantil do Colégio Santo Inácio, na capital paulista, encontram um pote cheio de carinhas coloridas em três versões: sorridente, normal e triste. Num mural batizado de “emocionômetro”, eles são convidados a usá-las para expressar como se sentem naquele momento. E com direito a mudar a figura escolhida se algo errado acontecer na hora do recreio. Quem quiser, pode falar sobre a opção escolhida nas rodas de conversa comandadas pela professora.

O medidor de emoções é apenas um dos recursos utilizados pelo Santo Inácio para ajudar as crianças a lidar melhor com seus sentimentos. E a escola não está sozinha nessa missão, na qual a razão precisa ser introduzida na vida dos pequenos. O tema faz parte do dia-a-dia das instituições de ensino, principalmente entre os alunos com até cinco anos de idade. Para eles, a escola é a primeira experiência de convívio social. É quando precisam ficar longe da família, aprender novas regras de convivência e trabalhar em grupo.

Diante de tantas vivências novas, como a percepção do outro e o aprendizado de que dividir é preciso, o ambiente escolar pode assustar as crianças ou provocar reações, como choro, principalmente entre as que têm até 3 anos.  Por isso, o acompanhamento da maturidade emocional do aluno e o contato com a família são fundamentais.

“No caso das crianças entre um ano e meio e três anos, procuramos antecipar algumas reações e mostrar aos pais como eles podem ajudar”, explica Paula Cury, diretora pedagógica do Santo Inácio. Vencida a barreira das primeiras semanas, entram em cena as ferramentas para aprender a lidar com as emoções. “Usamos muitos jogos de rodas para que eles se conheçam melhor, principalmente os menores”, diz Paula. Outra estratégia é apostar na brinquedoteca: “Vivenciamos situações do cotidiano, com brincadeiras de escritório e cabeleireiro, para que eles possam se manifestar”.

Além desses recursos, o colégio utiliza ainda uma arma secreta para estimular a aproximação entre seus pequenos: o jabuti Inácio. “Todos querem dar comida, chamar o amigo para visitar o bichinho. Isso reforça o vínculo com a escola e com os colegas”, afirma Paula.

 Em muitos casos, situações individuais podem ser trabalhadas coletivamente na classe. Se o pai conta ao professor que seu filho de três anos tem tido pesadelos com monstros, o tema pode gerar, de forma indireta, um debate na turma. “A leitura de um livro sobre monstros na sala fará com que outras crianças opinem sobre o tema. Sem falar que a história pode incluir monstros bonzinhos também”, sugere Érica Mantovani, orientadora pedagógica do colégio Cidade de S. Paulo.

Estimular as crianças a falar, seja sobre uma leitura ou assuntos de seu dia-a-dia, aprimora a capacidade de elas conhecerem e nomearem diferentes sentimentos. Defensora do diálogo, a psicopedagoga Adriana Scoz cita o exemplo de uma aluna de 6 anos que quis dividir com os companheiros a informação de que é filha adotiva. Em plena dinâmica de roda, todos ficaram sabendo que, depois de morar num abrigo, ela foi adotada e passou a morar com seus pais. “Foi um ato corajoso, um momento em que, juntos, professor e grupo abriram espaço para conversar sobre a realidade daquela participante”, lembra Adriana.

Outra ocasião em que a troca ensina a lidar com os sentimentos é o chamado “dia de trazer brinquedos de casa”. A proposta é fazer com que uns emprestem seus objetos aos outros. “Até os mais apegados percebem que é melhor brincar junto e quebrar o brinquedo do que deixá-lo intacto e sem uso”, diz Érica.


Comunicação corporal


Manifestações como morder, bater ou empurrar os colegas são comuns entre os alunos dos primeiros anos da educação infantil. E, ao contrário do que possa parecer, essas atitudes nem sempre são um sinal de agressividade. A conduta pode simplesmente ser uma forma de comunicação, um jeito que a criança arrumou para “pedir”, por exemplo, o carrinho que está nas mãos do colega. Nessa hora, o educador precisa impor limites, mostrar ao pequeno que a sua atitude deixou o colega triste e chamá-la para uma conversa. “Quem é mordido, chora. Como fazemos dinâmicas explicando as reações diante da alegria e da tristeza, o agressor vai entender que machucou alguém e mudar de postura”, acredita Érica.

Além das atividades de integração, o uso do faz-de-conta como recurso pedagógico é também usado nas escolas preocupadas em ensinar os pequenos a lidar com suas emoções. No Cidade de S.Paulo, as dramatizações envolvem diferentes versões de uma mesma história entre os alunos de 5 e 6 anos de idade. É o que acontece com a Cinderela. No texto dos Irmãos Grimm, as irmãs más da mocinha têm os olhos furados por pombos no final, como castigo. Já a versão divulgada pela Disney, em livro e desenho animado, deixa as megeras impunes. “Usamos as diferentes versões para discutir a relação dos alunos com seus irmãos, e assim por diante”, explica Érica.

Na mesma linha de atuação, o Colégio Dante Alighieri tem uma sala de fantasias com figurinos e palco para as encenações. As vestimentas mais disputadas são as de princesas, pelas meninas, e de super-heróis, pelos meninos. “São brincadeiras que ajudam a mostrar as emoções”, ressalta Silvana Leporace, coordenadora de orientação educacional do colégio.


Parceiro pedagógico


Voltado para o desenvolvimento emocional de crianças entre 6 e 7 anos, o programa Amigos do Zippy mostra como a ficção pode ajudar a expressar emoções. Criado na Inglaterra pela ONG Partner Chip for Children, o projeto chegou ao Brasil em 2004 e já foi implantado em 167 escolas nos Estados de São Paulo e no Paraná, num total de 17.818 alunos envolvidos.

A iniciativa é um complemento às demais disciplinas formais e consiste em relatar as aventuras do bicho-pau Zippy e seu dono, Tiago. A saga, contada durante um ano, em uma hora de aula por semana, é organizada em seis módulos com temas como sentimentos, comunicação e resolução de conflitos, entre outros.

“Através das situações da trama, os alunos entram na história e aprendem a lidar com conflitos semelhantes aos do cotidiano”, explica Tânia Paris, coordenadora nacional do programa. O trabalho educativo vai além do relato dos bons e maus momentos do bichinho. Cada turma é convidada a construir a sua própria versão do personagem, que pode ser levado para a casa por uma criança diferente a cada dia. Dentro ou fora da classe, elas cuidam bem do bichinho. “Durante a Copa, alguns Zippys voltavam para a escola usando uma camisa do Brasil. No inverno, muitos eram agasalhados para se proteger das baixas temperaturas”, diz Tânia.

É uma maneira lúdica de ensinar as crianças a conviver com as diferenças, respeitar o próximo e ter habilidade para lidar com os próprios sentimentos. Dessa forma, ao controlar as emoções, os pequenos também começam a desenvolver a comunicação verbal e tentam entender o mundo a sua volta. São cuidados e atitudes simples que os introduzem no mundo da razão.

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