As fissuras da guerra

Quase dez anos após o fim da guerra civil, a Irlanda do Norte, com 1,5 milhão de habitantes, dos quais 55% protestantes, ainda tem dificuldade de integrar a educação

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Numa colina de Carrickfergus, 15 quilômetros ao norte de Belfast, capital da Irlanda do Norte, foi instalado em 1997 o Colégio de Ulidia. De suas janelas, é possível avistar os veleiros saindo na ensolarada baía de Belfast. Os alunos que descem a colina para pegar o ônibus usam o uniforme tradicional, cinza para os que ingressarão no 2o grau e bordô para os que estão se preparando para o vestibular. Ulidia não é uma escola como as outras do país. 

"Numa zona com 90% de protestantes, 30% dos 530 estudantes do estabelecimento são católicos, enquanto o corpo docente é constituído tanto de católicos quanto de protestantes", explica Eugène Martin, professor coordenador. Ulidia é o que se chama na Irlanda do Norte de um "colégio integrado", coisa nada simples numa nação em que 93% dos protestantes e 92% dos católicos são formados nos estabelecimentos de suas confissões, mesmo tanto tempo após o acordo de paz de 1998, que pôs fim a trinta anos de uma guerra civil com mais de 3 mil vítimas.

As escolas públicas recebem perto de 140 mil crianças protestantes, e as escolas católicas – financiadas pelo Estado, porém geridas pelo Conselho das escolas católicas – recebem 160 mil. No começo de 2006, só existiam 58 estabelecimentos integrados (39 do estágio equivalente à educação infantil e Fundamental 1 brasileiros e 19 do que seria o nosso Fundamental 2), responsáveis pela educação de 18 mil alunos, ou seja, 5,3% do total do país.

Nas escolas integradas, tenta-se de tudo para habituar os estudantes de diferentes comunidades a trabalharem juntos, tornando a convivência o mais normal possível. Nas aulas do primário, há discussões e debates para que os pequenos reflitam sobre questões de identidade. Mais tarde, assim que surge um conflito, eles se reúnem para discuti-lo. "A idéia não é privar os alunos de sua própria identidade, mas conscientizá-los das diversas bagagens culturais, sobretudo as dos outros", explica Eugène Martin.

Alguns quilômetros ao norte de Uli­dia, em Harryville, gueto protestante, o sentimento é outro. "A escola integrada é uma bolha. Assim que os alunos saem dali, recomeçam os insultos racistas e os abusos de todo tipo", afirma Oonagh Murtagh, professora católica. Claire McGlynn, professora na Queen’s Uni­versity de Belfast e autora de uma pesquisa sobre as escolas integradas, faz um balanço menos sombrio: "A maioria dos antigos alunos desse tipo de escola reconhece ter reforçado a autoconfiança, desenvolvido o espírito de tolerância e, além disso, feito amizades em todas as co­munidades, as quais conservam até hoje".

Para Michelle, de 17 anos, foi muito difícil no começo: "Meus amigos e vizinhos do bairro me olhavam torto, pois eu ia a uma escola com católicos, mas, como Ulidia tem uma boa reputação acadêmica, acabaram esquecendo". "Aqui, os alunos são mais abertos", afirma Johnny, católico de 17 anos. "E, afinal de contas, pouca gente se interessa pela religião dos outros."


Falta de vontade política

Se perduram resistências no plano confessional, há adesão às escolas integradas no plano escolar. Ulidia, por exemplo, além de aceitar todas as religiões, retoma os critérios estabelecidos pelo Conselho de Educação Integrada da Irlanda do Norte (Nicie). Tais critérios lembram a escola unificada francesa: mista, sem seleção para ingresso – o que, no entanto, é regra na Irlanda do Norte – e variedade dos cursos propostos, da matemática aos profissionalizantes. Em Ulidia, os resultados se mostraram rapidamente. "Nossos alunos atingem resultados muito superiores à média dos estabelecimentos secundários equivalentes", garante Eugène Martin. Uma necessidade na Irlanda do Norte, onde os pais podem matricular seus filhos na escola de sua escolha. No ano passado, Ulidia recusou 60 alunos no primeiro ano por falta de vagas.

"Enquanto 50 mil vagas estavam disponíveis nas escolas protestantes e católicas no início do ano letivo de 2005, as integradas tiveram de recusar 600 alunos", observa Michael Wardlow, diretor do Nicie. As sondagens confirmam a popularidade das escolas integradas. Em 1994, após o primeiro cessar-fogo do Exército Republicano Irlandês (IRA), quase 60% dos pais queriam matricular seus filhos numa escola desse tipo. Em 2006, eram 75%. Michael Wardlow estima que 25% a 30% dos pais estariam hoje prontos a dar esse passo.

Apesar da demanda, o número de escolas integradas cresce devagar. No início do ano letivo de 2006, seis delas foram inauguradas, entre as quais uma em Saintfield, na região de Down, ao sul de Belfast. O colégio é fruto do trabalho intensivo de um grupo de pais, reunidos pelo fotógrafo Hohn Hagan desde 2004.

"Reunimos quase 130 pré-matrículas para o primeiro ano do novo colégio quando tentávamos arregimentar pelo menos 80 crianças", explica Hagan. A documentação levantada era consistente, mas o Ministério da Educação recusou financiar essa e outras três escolas integradas. Motivo: excesso de vagas disponíveis nos colégios dos arredores. Conclamado, o Fundo pela Educação Integrada (IEF), fundação em parte subvencionada pelo Ministério, bancou 750 mil euros para o novo colégio de Saintfield e para uma segunda escola. 

Embora a lei de 1989 sobre a educação preveja que o governo "apóie e facilite o desenvolvimento das escolas integradas", o fato é que elas são refreadas. Além dos vários pedidos recusados pelo governo, outro obstáculo é a igreja católica. Com a baixa geral do número de alunos, 17 escolas protestantes se transformaram em integradas para sobreviver. Já os católicos recusam essa possibilidade e preferem "abrir suas portas aos protestantes", como propõe Jim Clark, diretor-adjunto do Conselho das Escolas Católicas. A igreja visa eventualmente à criação de campi biconfessionais onde duas escolas, protestante e católica, compartilhem os mesmos equipamentos, mas conservem sua própria ética. No entanto, observa Simon Toyle, jornalista do The Irish Nezus, diário católico de Belfast: "A Igreja teve a possibilidade de criar uma escola desse tipo na região de Antrim. Em vez disso, preferiu mudar sua escola e fundi-la com uma outra escola católica".

Para a escola integrada, o futuro talvez se mostre menos sombrio. O duplo sistema educativo protestante-católico custaria hoje 450 milhões de euros por ano a mais do que um sistema único. Do mesmo modo, a grande baixa demográfica (50 mil vagas livres neste ano, mais 38,5 mil previstas para 2008) incentiva o governo a racionalizar sua oferta. Para isso, lançou uma reforma do sistema educativo que deve entrar em vigor em 2008. Se os norte-irlandeses hoje não querem educar seus filhos juntos, amanhã serão obrigados a fazê-lo por um argumento muito forte: o dinheiro.



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