As filhas do regime

Quarenta anos depois do golpe militar, televisão ainda guarda marcas de sua adolescência

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Laurindo Lalo Leal Filho



 



O golpe se consumou em 1º de abril de 1964, mas não pegava bem comemorá-lo no dia da mentira. Ainda mais quando queriam chamá-lo de revolução. A data oficial ficou sendo 31 de março. Agora, 40 anos depois, as festas oficiais do início do regime estão esquecidas, mas não o retrocesso imposto ao país pela ditadura.





Em 1964, a televisão brasileira completava 14 anos e, em plena adolescência, começava a ser tratada pelo governo como se fosse filha de um pai rico e autoritário. De um lado, recebia incentivos, isenções de impostos, propaganda oficial e, principalmente, uma infraestrutura moderna de telecomunicações, bancada pelo Estado, que lhe permitia chegar a todo país. De outro, tinha que se comportar. Nada de críticas ao regime, de debates políticos e de maiôs muito curtos – Rita Cadillac apareceu com um no Chacrinha que tinha pano para fazer uns seis dos que são usados hoje, e ainda assim foi parar na Polícia Federal.





A Globo, filha obediente, sobreviveu ao golpe e prosperou. Curvava-se às restrições oficiais e ia além, fazendo a sua própria censura. A estrondosa vitória do MDB, a oposição consentida, nas eleições para o Senado, em 1974, foi escondida. O noticiário global começava destacando sempre uma inexpressiva vitória da Arena (o partido do governo) numa pequena cidade do interior. Quando o ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu num estranho acidente na via Dutra, a Globo “esqueceu” de informar que ele estava com seus direitos políticos cassados. No final do regime, o comício pelas Diretas na Praça da Sé, em São Paulo (SP), foi anunciado como uma festa em comemoração ao aniversário da cidade. Não por acaso, a cidade passou a ter de três emissoras, em 1969, para 11, em 1973. O pai sabia recompensar a filha comportada.





Já a Excelsior, rebelde, nacionalista, fazendo um jornalismo independente e crítico, sucumbiu. Fundada em 1960, revolucionou a televisão brasileira ao criar faixas específicas de programação, com grandiosos espetáculos musicais, novelas, esportes e um telejornal inovador, o
Jornal de Vanguarda

. As notícias eram apresentadas ao vivo e comentadas por especialistas e críticos mordazes, como o cronista Sérgio Porto.





Outra que sucumbiu foi a Tupi, perdulária, mal administrada e deixada à própria sorte pelo governo. Sua concessão foi repartida entre Sílvio Santos (SBT) e Adolfo Bloch (Manchete), considerados mais dóceis e submissos ao regime do que os concorrentes Jornal do Brasil e Editora Abril. Bandeirantes e Record, sempre às voltas com problemas administrativos e financeiros, atravessaram a ditadura aos trancos e barrancos.




Hoje, quarenta anos depois do golpe, a televisão que temos guarda as marcas da sua adolescência. Na meia-idade, comporta-se de maneira infantil, buscando a mesada do pai (conhecido como BNDES) e endeusando o governo de plantão. Pena que nesse caso só terapia não resolve.


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