As eleições e a escola

Em que medida nossas ações na sala de aula ajudam a produzir esse regime político específico que é a democracia?

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Depois de muita discussão, brigas, baixarias, fim de velhas “amizades” nas redes sociais, finalmente a eleição acabou e podemos voltar às nossas conversas normais. Mas afinal, discutir política não é normal? Por que ficamos tão furiosos quando defendemos nosso candidato ou atacamos o do outro? Por que damos pouca atenção aos argumentos contra nosso partido, ideologia ou sonho? Afinal, não somos animais racionais e civilizados?

Fico pensando se a escola tem alguma coisa a ver com isso. Bom, a escola tem a ver com tudo, foi de lá que viemos, e por isso é fácil culpá-la pelas mazelas culturais ou, no outro extremo, acreditar que ela é a única salvação da humanidade. Buscando evitar qualquer dos dois extremos, proponho aqui uma breve reflexão, de professor para professor: em que medida nosso trabalho cotidiano ajuda a aprimorar a democracia no Brasil? Digo isso porque, mesmo sendo professor de biologia, sei que meu principal objetivo não é ensinar biologia. A biologia é um meio e não um fim, como dizia meu professor e mestre Mauricio Mogilnik. Demorei alguns anos para chegar a essa conclusão, e talvez ela pareça entranha a alguns, mas tenho cada vez mais convicção disso.

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Acho que os meus principais objetivos quando estou na sala de aula são mais amplos. Espero que meus alunos aprendam a pensar cientificamente, mesmo que não lembrem uma frase de efeito sobre a mitocôndria. Espero que meus alunos aprendam a se expressar e ouvir o que o outro está falando, mesmo que isso tome um tempo da aula em que eu poderia estar “passando matéria”. Houve época em que o “número de conceitos por hora” me preocupava bastante, mas hoje fico feliz quando vejo a sala discutindo, mesmo que de forma ruidosa, mas com um sincero esforço de fala e escuta, de construção coletiva de saberes e decisões. Meu papel nesses momentos não é de explicar, de professar, nem de preparar para a prova. Estou lá para garantir a qualidade do debate em si, garantir o direito à fala, a escuta, o respeito, e de vez em quando apagar o fogo que surge quando colocamos os corações adolescentes para se encontrarem uns com os outros de forma livre. Nessas horas não sou um professor de biologia, sou um professor.

Por isso acho que, como professores, podemos aprender pelo menos duas lições dessas eleições, principalmente em relação ao baixo nível (de educação ou cognitivo mesmo) dos debates, tanto no mundo “virtual” como no “real” (embora, nesse último, a gente já tenha aprendido a controlar melhor nossos impulsos violentos).

Espírito científico
Uma das lições é sobre o ensino de ciências (e não falo aqui só das chamadas “ciências naturais”). Tenho a impressão de que faltou “espírito científico” nessas eleições. Não sei se foi a imensa quantidade de informações pouco confiáveis, a falta de tempo, a falta de costume ou o sentimento de “torcedor” que acompanha a política partidária mas, convenhamos, quem de nós tentou – em meio às discussões, curtições e compartilhamentos – analisar os fatos, conferir a fonte da informação, buscar contra-argumentos para suas próprias ideias (o bom e velho teste de hipótese), enfim, todos aqueles princípios que aprendemos nas aulas sobre “método científico”? E os números, então? Assistimos debates onde os dados de um candidato não batiam com os do jornalista e, pior, acredito que ninguém se preocupou com isso. Parece que aprendemos – na escola, onde mais? – a fugir dos números e dos gráficos, provavelmente em algum momento do ensino fundamental II. Afinal, professor, o que é realmente importante no ensino de ciências? Será que não estamos esquecendo algumas coisas básicas, preocupados com a quantidade de conteúdo dos livros didáticos e vestibulares? Um pouco mais de espírito científico não ajudaria a melhorar o nível de nossas discussões políticas? Claro, falar é fácil, não tenho fórmulas universais para isso, mas acho que é preciso levar em conta esta questão na hora de planejar os cursos de ciên-cias. Sempre que consegui fazer isso, presenciei excelentes resultados.

A outra lição diz respeito ao papel da escola na democracia. Dizia o mestre Anísio Teixeira (no livro Educação e o mundo moderno) “não é qualquer educação que produz democracia, mas, somente, insisto, aquela que for intencionalmente e lucidamente planejada para produzir esse regime político e social”. Em que medida nossas ações na sala de aula ajudam a produzir esse regime político específico que é a democracia?

Mediação
Concretizando um pouco a pergunta: o que você faz, professor, quando os alunos começam a discutir loucamente um tema, impulsionados por algo que você falou (ou não), mas que “não cai na prova”? Você deixa seus alunos trabalhando em grupo de vez em quando? Você leva assuntos polêmicos para a classe debater, mesmo sabendo que não deverão chegar a nenhuma “conclusão correta e definitiva”?

E quando um aluno diz uma bobagem na aula? Claro, você deve corrigi-lo ou ao menos colocá-lo em dúvida. Mas se não tomar cuidado com a forma de fazer isso, pode estar ensinando ao aluno uma outra coisa: que, por via das dúvidas, é melhor ficar quieto. Isso é o que se chama de “currículo oculto”, aquilo que ensinamos meio sem querer, uma espécie de efeito colateral do nosso modo de agir, que pode ser inclusive mais influente do que o currículo explícito.

E o que fazer quando um aluno se posiciona politicamente contra sua ideo­logia? Massacrá-lo com a retórica e informações que você adquiriu durante anos de vida e profissão? Ficar quieto e aceitar aquele “absurdo”? Ou seria melhor simplesmente perguntar a ele sobre os fundamentos da afirmação, colocar a questão para a classe, ou mesmo aceitar e elogiar seu ponto de vista, localizando-o dentro do debate atual? É difícil, eu sei, os hormônios às vezes ofuscam os neurônios, mas acho que, se tivermos clareza filosófica e equilíbrio emocional, podemos caminhar nesse sentido.

Enfim, acredito que há muito o que melhorar na prática escolar se tivermos como prioridade o ensino para a democracia. No currículo explícito e no oculto. E essas eleições são um bom exemplo de como precisamos disso.

*Rodrigo Travitzki é professor do ensino médio e doutor em Educação pela Universidade de São Paulo

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