As dobras da língua

A arte de intuir a vida como uma complexidade mantém viva a partícula latina plica em palavras do português atual, como “complicar” e “explicar”

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Simplex (simples) era, para os antigos, um grande valor. Ser simples era importante qualidade, o núcleo da virtude cardeal da prudentia, classicamente a capacidade de tomar decisões acertadas, com base na límpida visão da realidade (simplicitas). Hoje, temos dificuldade de apreciar tais valores; para nós, “simples” tem acepções pejorativas: “aquele que só possui conhecimentos rudimentares”, “que é pobre, que não possui recursos materiais”, “crédulo” (Houaiss); “vulgar, comum, ordinário”, “papalvo, tolo, crédulo, simplório, simplacheirão”, “sem instrução; ignorante” (Aurélio).

Simplex era a visão límpida, não comprometida, do real. O original grego do versículo do Evangelho não fala em puro, bom, etc. mas em simples (haplous). Mt 6,22: “Se teu olho for simples, todo teu corpo será luz”. Na análise etimológica de Tomás de Aquino, sobre o versículo encontramos: “simplex, id est sine plica duplicitatis”: “simples, ou seja, sem a plica da duplicidade”.

Plica em latim é “dobra, face, prega” (como pregas de saia ou cortina). Quando algo está envolto em dobras é “com-plicado”. “Para fora” em latim é ex- (ex-portar, ex-pelir, ex-onerar, etc.): tirar para fora das plicas, das dobras, é “ex-plicar”. Quem está envolvido nas plicas é “cúm-plice”; já um filme cru (sem dobras que escondam) traz cenas “ex-plícitas”. “Su-plicar” é pedir de joelho dobrado.

A etimologia de “simples” (latim: simplus ou simplex) remete, na primeira parte da palavra (sem) a semel: um só; daí: uma só face (como em alemão: Einfach), sem dobras. Também parece razoável que o nosso “chegar” (pl = ch) seja simplesmente “plicar”. Tal como ocorre em outras línguas, o chegar é náutico, atingir margens (ar-river). Ora, quando o navio atinge o destino, a ordem é “plicar”, dobrar velas porque chegamos. Daí, “aplicar” uma prova (injeção, etc.) é fazê-la chegar ao aluno (ou ao braço), etc. “Implicado” é algo ou alguém que está nas dobras do caso. Já “replicar” é a volta, que mostra outra face da questão.

Após termos “multi-plicado” um pouco os casos em que aparecem as plicas, voltamos à simplicidade, como característica da visão intelectual do homem reto: visão límpida, “que não se acumplicia jamais” (como no discurso da presidenta Dilma) nem se deixa implicar nas distorções da duplicidade, inveja, dos ciúmes, egoísmos, etc.


Jean Lauand é professor titular da FEUSP (aposentado) e do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo. jeanlaua@usp.br

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