Arte-educação

Espaço de artistas engajados e manifestações políticas, nos anos 80 e 90, Circo Voador (RJ) reabre e se firma como usina de projetos educativos.

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Faoze Chibli



“A arte cicatriza as feridas deixadas pela educação”, define Foca, 41 anos, nascido Maurício Fagundes. Ele é um exemplo da perspectiva que o Circo Voador representa para a comunidade carioca. Fagundes nasceu na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro (RJ) e levou para o circo sua experiência da Casa de Cultura da Rocinha, núcleo dirigido pela associação de moradores da favela.

Hoje, ministra o curso Hiphop Voador, que se propõe a levar aos participantes a vivência do hip-hop como manifestação cultural. A tenda reaberta do Circo Voador, celeiro artístico que ganhou fama nos anos 80, recobre outras histórias subversivas de arte-educação.

O circo teve início em 1982, em meio ao clima de fim da ditadura militar. Os ares de censura ainda não haviam sido expurgados da sociedade. Aquelas tendas eram um espaço transgressor, com rock, teatro e contracultura. Em 1996, um controverso episódio marcou o início de um período de interrupção nas atividades do Circo Voador que só acabou na metade de 2004. Atualmente, o lugar continua sendo “o principal espaço de experimentação carioca”, nas palavras de Maria Juçá. A jornalista e agitadora cultural possui uma trajetória de vida que se entrelaça com a própria história do circo. Desde o início, ela lutou para que o projeto se tornasse auto-suficiente. Hoje, comemora os resultados.

Um processo está em curso para o reconhecimento do Circo Voador como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Recentemente, uma casa em ruínas passou a ser anexo do projeto social do circo.

A Lei de Incentivo à Cultura e patrocínios como o da Companhia Brasileira de Bebidas (Ambev) trazem novo alento à empreitada. Prova dessa vocação social é o fato de o Circo Voador possuir, desde seu surgimento, uma creche. Mais de 40 crianças são atendidas e recebem uma formação atípica para esse tipo de serviço.

Na Creche e Apareche, como foi batizada, os pequenos têm aulas de pintura e música. E eles plantam e aprendem a preparar seus próprios alimentos. Desde que perdeu o patrocínio da Petrobrás e da prefeitura do Rio de Janeiro (RJ), a creche teve as mensalidades, que eram simbólicas, aumentadas. Mas a gama de opções para a comunidade é bastante vasta, com uma série de atividades e cursos.

O chamado Comitê Circo Voador, formado essencialmente por jornalistas e produtores, é responsável pela elaboração e condução dos projetos educativos. Mas, na prática, quem estabelece a demanda e os cursos são a própria comunidade e seus artistas. O circo abriga essas iniciativas, oferecendo espaço e equipamentos, como explica Maria Juçá.

Foca, ou Maurício Fagundes, é um dos parceiros que utilizam essa estrutura. E ele funciona como uma espécie de ponte entre grupos, artistas e o Circo Voador. Com isso, as oficinas orientadas por ele trazem figuras conhecidas no meio artístico. Segundo o coordenador, estar em contato com famosos, que muitas vezes vêm de origem pobre, fornece um acréscimo de estímulo e esperança para os garotos. A música é trabalhada em cursos de DJ e MC. Elementos inerentes ao hip-hop, como grafite e break, também fazem parte do aprendizado. Como objetivo maior, Foca enxerga na arte a função de “humanizar humanos”.

Fagundes conta já ter levado muitos artistas famosos para tocar na Rocinha. Entre eles, Gilberto Gil, Cássia Eller, Moraes Moreira e Zeca Pagodinho. “Antigamente, conseguíamos levar pessoas do Leblon para a favela para ver shows.” Hoje, ele considera esse processo bem mais difícil. Tanto pela evolução da criminalidade, que impede a ida para o morro, quanto pela falta de amparo oficial.

“Favela e asfalto precisam se freqüentar”, profere. Daí a importância do Circo Voador, como promessa de expressão, suprimida pela adversidade e pela educação tradicional. Na opinião de Fagundes, o sistema educacional vigente ensina “a ser mandado” e, com isso, o aluno “não passa do segundo grau”.

Já uma escola que literalmente se mexe para dar certo é a Escolona de Teatro Circo Voador. Quem desenvolve esse curso é Breno Moroni, 50 anos, que se diz “ator desde os 5 anos”. Segundo Moroni, todos os segmentos de teatro-circo são contemplados nas aulas, entre eles: interpretação, equilibrismo, malabarismo, faquirismo, pirotecnia, além de história do circo, cidadania e segurança.

O ator coordena um grupo de professores, voluntários e estagiários. Ele informa não haver limite de idade, apenas um número determinado de vagas.

São 21 lugares ao todo na escola de teatro, distribuídos em um terço para deficientes, um terço para moradores da Lapa, bairro onde está o Circo Voador, e um terço para pagantes.

Existe, como complemento desse programa, uma escolinha de palhaços para crianças. Moroni é formado em teatro, já viveu na Europa e também trabalhou com portadores de deficiência auditiva. Um dos desafios enfrentados por ele, hoje, é oferecer alternativas de geração de renda para os que procuram o Circo Voador. As soluções são hilárias.

Durante os intervalos, há um astronauta baiano que vende água de coco e um português que conta piadas de brasileiros para a platéia. E existe o grupo Bonito lhe Parece, outro que não abre mão do humor. Trata-se de uma lista de indicação de profissionais, com o apoio do Circo Voador.

Por exemplo, onde arrumar um anão para uma peça publicitária? O Bonito lhe Parece tem opções a oferecer. E não é só isso. Nas palavras de Breno Moroni, a equipe relacionada inclui “gordos, feios e dublês”.

O ator narra casos de artistas que chegaram totalmente desprovidos, como Josué, O Equilibrista. Moroni diz que Josué é “um grande equilibrista”, detentor de uma técnica rara, difundida entre poucos. Quando apareceu no circo, não tinha nem onde dormir. Fez uma apresentação e, na hora, as pessoas se cotizaram para oferecer um cachê de R$ 30 ao artista. Josué ganhou também um sanduíche e alguém o levou para dormir em casa, recorda Moroni. Atualmente, Josué é professor do circo. Escorada em histórias dessa natureza, Maria Juçá faz crer que o Circo Voador é realmente, como ela afirma se divertindo, “um espasmo de alucinados que acreditam que a vida é boa”.





Circuito de cúmplices


Perfeito Fortuna, tido como fundador do Circo Voador, era um ator do lendário grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, do qual também faziam parte Hamilton Vaz Pereira, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos, Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Esse grupo e um “circuito de cúmplices”, como define Maria Juçá, foram a faísca inicial para o projeto do Circo Voador.

As reuniões dessa turma, da qual Maria fez parte, tiveram início em 1982, no Rio de Janeiro (RJ). A jornalista relata que as conversas englobavam a história do circo no Brasil e sua importância social. Imperava um clima de descontentamento com as possibilidades de liberdade de expressão. A cultura militar de subserviência ainda dominava as ruas. Com o amadurecimento das discussões, uma primeira experiência foi feita no bairro do Arpoador, reduto da elite militar carioca.

É de se imaginar que não deu certo. Em um mês e meio, a trupe foi expulsa e, no final do mesmo ano, acabou por desembarcar no bairro da Lapa, localização atual. Mas a passagem pelo Arpoador já esboçava uma trajetória ascendente, com a apresentação de Caetano Veloso. O cantor e compositor se tornaria um dos ilustres entusiastas do lugar, e voltaria a se apresentar lá na década seguinte.

Ainda no ano de 1982, Maria Juçá protagonizaria o Rock Voador. O projeto seria um dos maiores responsáveis pela fama nacional atingida pelo circo. Já de início, o Rock Voador apresentou Kid Abelha e Lobão. Muitas outras bandas seriam reveladas naquele palco, como Legião Urbana, Barão Vermelho e Os Paralamas do Sucesso.

As décadas de 80 e 90 consolidaram o Circo Voador como passagem obrigatória de artistas engajados e como espaço de manifestação política. Estiveram lá Raul Seixas, Ultraje a Rigor, Chico Buarque e muitos outros. O movimento das Diretas Já encontrou eco e espaço nas lonas voadoras. O circo engendrou, ainda, a Eco 92 (reunião que teve presença de entidades de todo o mundo, para discutir a preservação ambiental) ganhando com isso reconhecimento internacional.

Em 1996, porém, o prefeito eleito da cidade carioca, Luiz Paulo Conde, foi comemorar sua vitória no Circo Voador. Na mesma data, havia apresentações dos Ratos de Porão e dos Garotos Podres, duas das mais importantes bandas do movimento punk brasileiro. Houve vaias e confusão. O alvará do local foi cassado e, somente em 2004, após intenso movimento social, reabriu-se o Circo Voador.

Um dos supostos problemas das antigas instalações seria o isolamento acústico. Não mais. O novo projeto é rigoroso quanto a normas de segurança e ruídos. Tanto é que a capacidade de público diminuiu para abrigar melhor os espectadores. Há quem não reconheça o novo circo, com suas lonas superpostas, telão, área de alimentação e um desenho futurístico. A movimentação cultural, no entanto, é digna de sua história efervescente.






Todas as tribos


Além dos projetos citados, o Circo Voador está em constante renovação de cursos e oficinas. Algumas aulas são gratuitas, outras têm preços definidos de acordo com a carga horária. A maior parte dos cursos possui vagas reservadas para a comunidade local e pessoas carentes.






Capoeira Quilombo dos Arerê


Há cursos de capoeira angola, puxada de rede, samba de roda, maculelê, percussão, confecção de berimbaus, história da capoeira e canto.






Oficina de Danças e Folguedos Populares


O ponto de partida desse curso é a vivência de ritmos, danças e folguedos de fontes étnicas formadoras da cultura popular brasileira. Aspectos relacionados à arte da dança são contemplados, como soltura e estudo do espaço.






Escola de Guitarra Tonho Gebara


No curso, estuda-se princípios básicos e avançados de escalas, harmonia, percepção, técnicas e práticas da linguagem guitarrística. A escola foi criada com intuito de perpetuar o método de ensino do músico Tonho Gebara.






Serviço


Site:



www.circovoador.com.br



 

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