Armando C. de Siqueira Neto

O medo de crescer leva adultos a mentir como crianças

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São muitas as façanhas realizadas pelo adulto infantilizado, tal e qual as empregadas pelas






crianças, na intenção de afastar qualquer ação punitiva







 


Alguns especialistas preocupados com o desenvolvimento infantil, especialmente a formação moral e as suas implicações sociais, descrevem um ponto interessante a respeito da mentira. Após alguns estudos já desenvolvidos há anos, constatou-se, por meio da observação sistemática em laboratórios de psicologia, que, via de regra, a criança mente por medo.

Ao perceber que uma punição se aproxima, em resposta a algo condenável que tenha feito, ela se defende mentindo, procurando se esquivar do castigo que lhe assusta. É claro que a educação deve contribuir para o aperfeiçoamento do ser humano através da compreensão que vai construindo sobre se romper com a fuga e assumir as responsabilidades, proporcionando, oportunamente, uma vida adulta madura.





Durante o período da infância, basicamente, os comportamentos se repetem. A mentira é afirmada com rapidez e, conforme cada criança, varia a maneira de apresentá-la, sendo menos ou mais convincente conforme a sua apresentação. Ou seja, cada um se encontra num estado emocional no momento em que é submetido a um interrogatório que visa uma resposta acerca da verdade.

Desta forma, alguns podem vacilar e outros não, revelando, assim, uma suspeita ou não na investigação. Durante anos, o ser humano age utilizando este artifício para fugir da dor causada pelo crescimento. Todavia, o sofrimento gerado pela necessidade de se crescer é fundamental.

Não obstante, o atraso nesse processo ganha tempo e avança a idades despropositais, levando muitos adultos a se comportar de forma infantilizada em várias circunstâncias nas quais deveriam encarar, de frente, os próprios atos. E, ao contrário do que se espera, agem como crianças.





Um exemplo comum deste fenômeno é o roubo, seja ele praticado diretamente à vítima, seja por algum tipo de sistema como os mecanismos organizacionais da vida pública e privada. A resposta comportamental quando o autor do crime é pego é a de negar imediatamente – respeita-se aqui o direito de defesa e o fato de ser inocente em alguns casos.

Contudo, nas circunstâncias em que as provas denunciam o acusado, ele foge na tentativa de escapar da punição e, conseqüentemente, perde a chance de crescer. O adulto infantilizado rouba de si próprio a oportunidade de amadurecer e desfrutar dos benefícios proporcionados pela maior plenitude que o aguarda. Ressalta-se o fato de que muitos pretendem se esconder atrás do comportamento coletivo, buscando com isso o reforço na maioria. Neste caso, a pessoa se despersonaliza e some em meio ao seu faz-de-conta.





Outra situação corriqueira diz respeito às pessoas que se vingam daquelas que discordam das suas opiniões ou que afrontam por se manter firmes em seus propósitos, que não atendem a algum pedido tão prontamente, que não se curvam aos desmandos do poder usado indiscriminadamente.

Primariamente, a criança age desta maneira e se expõe ao revelar os seus sentimentos, tornando claro o motivo que a leva a responder vingativamente. Entretanto, o adulto, por sua capacidade de articulação intelectual, torna-se traiçoeiro, haja vista ele esperar um momento oportuno para causar surpresa em sua vítima e lhe aplicar o golpe planejado. Como se não bastasse, ainda se engrandece prazerosamente com a pequeneza praticada. É um ato infantil misturado à astúcia e a maldade, visto a inteligência oferecer a escolha por uma decisão madura ou não.





São muitas as façanhas realizadas pelo adulto infantilizado, tal e qual as empregadas pelas crianças, na intenção de afastar qualquer ação punitiva. Os pequenos, mal sabem o significado que tem a aprendizagem moral e tampouco a repercussão nos anos vindouros. Mas tal fato é parte da educação infantil e, nos parece, também o diz respeito à reeducação adulta para os casos específicos. Resta saber, porém, se a vaidade e o orgulho permitem qualquer tipo de consciência acerca desta questão e a necessária mudança para o progresso e proveito da vítima de si mesma, cujo impedimento ocorre quase que por conta de sua cegueira e infantilidade.





A aprendizagem é um direito irrevogável do ser humano. O direito à mudança merece especial atenção e aproveitamento em qualquer época da vida. Valer-se dos recursos de crescimento é sinal de boa vontade e avanço na maturidade. Ser maduro, por sua vez, é ter uma personalidade singular com boa capacidade crítica para separar o que é bom para si e o que é apenas desnecessário.




 


 






*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, consultor, conferencista e professor universitário






 




 


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