Ardis da ideologia

A construção de um falso discurso libertário

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Andreas Schleicher é diretor de programas de análise e indicadores em educação da OCDE e responsável pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que se tornou objeto de grande atenção em função da publicação de resultados que têm ensejado apressadas análises comparativas entre diversos países. Em entrevista recente a um importante jornal paulista, Schleicher apontou os caminhos da "escola do futuro", paradoxalmente todos nossos velhos conhecidos:


Num sistema educacional antigo e burocrático, professores eram deixados sozinhos nas classes com uma receita do que ensinar. O modelo moderno estabelecerá objetivos ambiciosos […].  A educação do passado se resumia a um conhecimento despejado, a do futuro um conhecimento gerado por professores e estudantes […] O objetivo do passado era a padronização. Agora é a criatividade, a personalização das experiências. O passado era centrado no currículo, o futuro é no aprendiz. 

Deixemos de lado o alerta de seu conterrâneo, Max Weber, contra as
profecias

realizadas do alto das cátedras e com pretensões de
racionalidade científica

. Deixemos de lado a caricatura generalista com que se descreve a
escola do passado

. Centremo-nos somente na contraposição entre um currículo padronizado, típico dos sistemas de ensino ultrapassados, e a nova e festejada ênfase no
aprendiz

, em sua
criatividade

e na
personalização de suas experiências

.

As críticas a um modelo escolar fundado no ideal da criação de uma identidade cultural a serviço dos Estados nacionais são bem conhecidas e merecem atenção. Entre outros fatores porque desvelam desigualdades ocultas nos discursos ideológicos que o justificaram. No caso do Brasil, por exemplo, até poucos anos atrás os currículos escolares ignoravam todo o legado cultural afro-brasileiro, como se fôssemos uma nação europeia. Tentava-se, assim, impor um ideal de brasilidade que ignorava a própria experiência cultural concreta sob a qual se forjou o país. Mas a análise crítica desse modelo instituído – em larga medida ainda vigente -, não deve nos levar à aceitação acrítica de um modelo quiçá ainda mais perverso.
 
No que implica essa ação educativa
centrada no aprendiz

? Que a padronização deixou os conteúdos para inscrever-se na alma, para se transformar em governabilidade dos indivíduos e de suas formas de ser, para ditar os traços de personalidade que têm "valor" numa sociedade de consumo e, portanto, devem ser massificados. Note-se bem: não se trata de criar um espaço na instituição para acolher e fomentar a
singularidade

do
sujeito

. Trata-se de formatar mundialmente indivíduos dotados de "capacidades" e "competências" comuns, tidas como necessárias na nova ordem global: criatividade, flexibilidade etc. Substitui-se, assim, o ideal de uma
cultura nacional comum

pelo da
individualidade massificada

, no qual a retórica das diferenças está a serviço da homogeneização.

Não à toa o organismo a emanar as boas novas da escola do futuro é uma organização supranacional ligada ao desenvolvimento econômico (leia-se
capital financeiro

). A globalização econômica torna obsoleta a cultura nacional; o que se passa a exigir é que as sociedades se pautem pelas mesmas referências de ordem econômica, a serviço da qual deve estar a educação. À formação do cidadão nacional opõe-se como novidade a formatação do consumidor globalizado. E o que é pior: tudo isso travestido numa retórica com pretensões libertárias!

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