Aprendizagem ou perfumaria

Para o diretor do Instituto Paidéia de Pesquisa e Desenvolvimento Educacional, menos de 5% dos investimentos privados em educação contemplam melhorias no aprendizado do aluno

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A despeito do que dizem os levantamentos sobre a presença da iniciativa privada em ações educacionais, as empresas não investem verdadeiramente em educação, ou não sabem fazê-lo. A afirmação pareceria provocação barata, não fosse defendida por um líder empresarial que dirige o Instituto Paidéia de Pesquisa e Desenvolvimento Educacional. Ex-presidente da Câmara Americana de Comércio (AmCham), executivo de várias empresas norte-americanas e brasileiras, filho de norte-americanos nascido no Recife, John Edwin Mein diz, nesta entrevista a
Alceu Castilho

, da Agência Repórter Social, que seus colegas investem em “perfumaria”. “No Brasil, temos uma preocupação muito grande com escolaridade. Vivemos em uma sociedade voltada para produzir números de pessoas que freqüentam a escola”, afirma.




De acordo com o censo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), 87% das empresas associadas investem em educação e 19% do total dos investimentos do Terceiro Setor são feitos nessa área. Que papel, afinal, os empresários desempenham na busca pela melhoria da educação no Brasil?


Investir na área social é uma definição muito ampla. Seria preciso ir mais a fundo. Muitas investem. Sim. Quanto investem? Como investem? O que fazem em educação? Como definem educação? Nós, no Instituto Paidéia, definimos educação como aprendizado de aluno. Se você definir dessa forma, me arrisco a dizer que menos de 5% do que as empresas investem neste país é investido nisso. Elas estão investindo em outras coisas que podem ser chamadas de educação. São perfumarias.




Fala-se muito que as ações das empresas são pontuais e que muitas escolas, transformadas em cobaias, às vezes se vêem em situação ainda pior do que se não houvesse nada, por causa da frustração gerada pela expectativa.


Esse trabalho que fazemos hoje surgiu de um esforço de tentar entender exatamente isso. No começo da década de 90, eu era presidente da Câmara Americana de Comércio (AmCham). Tinha feito uma pesquisa com os associados para saber o que deveríamos priorizar em termos de investimento social, o que a AmCham deveria olhar em responsabilidade social empresarial, e a resposta foi educação. Ficamos mais de um ano tentando descobrir o que e como fazer, passando por todos os modelos que se possa imaginar, do tipo “adote uma escola”. A maioria das relações dos empresários com a escola é “deixa eu dar dinheiro que resolve o problema” ou “deixa eu dar técnica de gestão que resolve o problema”. Normalmente, fica na superficialidade, na externalidade: limpa os muros e os banheiros, investe na biblioteca, em sala de informática. Passamos por diversos formatos, até que conhecemos um grupo de diretores de escolas públicas que nos disse: “Estamos frustrados; a realidade é muito pior do que vocês imaginam, mas nós temos uma proposta para isso”.




Qual era?


A proposta era o desenho inicial do que a gente está tocando hoje: avaliar os alunos; formar os professores para que aprendam que é o aluno que tem de aprender, que eles têm de animar o aprendizado do aluno (dizer é fácil, mas o professor mudar de postura é muito difícil); trabalhar junto aos diretores, à comunidade, aos pais. Foi a partir disso que passamos a desenvolver a idéia de trabalhar o processo que gerencia o aprendizado, o que está ligado à aprendizagem. Vamos mexer no cerne do problema. Vamos tentar entender como o aluno que a gente quer atingir está. Vamos ajudar o professor, não criticá-lo. A avaliação do aluno não é para passá-lo ou não passá-lo, mas para saber onde é que ele está precisando de ajuda. A avaliação do conjunto de alunos nos dá uma avaliação de que tipo de ajuda o professor está precisando. Vamos mexer nos processos.




Quais processos precisam ser mexidos?


Hoje, no Brasil, temos uma preocupação muito grande com escolaridade e pouca preocupação com o aprendizado. Vivemos em uma sociedade voltada para produzir números de pessoas que freqüentam a escola. Administramos uma instituição, a escola, como se fosse uma outra instituição qualquer. Não estruturamos o processo de gestão dessas instituições para que elas possam se programar, executar, implementar e avaliar aquilo que deveria ser a sua missão, que é o aprendizado de seus alunos. Você vê, como resultado disso, diretores de escola cuja preocupação é administrativa, o patrimônio físico da escola. Isso estabelece toda uma lógica sobre sua forma de atuar. Nossa proposta é que o foco esteja na questão do aprendizado do aluno. Queremos que o aluno aprenda mais do que ele aprende hoje.




Muitos empresários dizem que é preciso levar a lógica da iniciativa privada à educação. Essa visão empresarial não esquece exatamente o ponto de vista do aprendizado? Qual a diferença entre a ação do Instituto Paidéia e outras iniciativas do Terceiro Setor?


Não vou falar das outras entidades. Todas têm mérito. Mas não adianta só implementar uma visão empresarial. Você pode ter uma excelente visão empresarial em uma empresa que fabrica charretes, quando o mundo hoje precisa de uma que fabrique aviões. Ambas estão no mercado de transportes, ambas estão cumprindo brilhantemente sua função. Só que é preciso saber o que é necessário. E hoje não precisamos de operário que não pensa. Precisamos de pessoas pensantes, que criem, empreendam, façam as coisas acontecerem. Isso requer aprendizado, desenvolvimento individual, e não automaticamente produzir pessoas que pensem igual. Não adianta simplesmente levar técnicas empresariais se não pensarmos qual a missão daquilo que vai ser feito. A partir disso, vamos treinar os diretores. A questão é a seguinte: o que viabiliza a melhor forma de aprendizado para o aluno e como a gente se estrutura para que isso aconteça? Como é que a gente organiza e desafia o aluno para aprender? Como é que a gente ajuda o aluno a aprender um com o outro? Opa! Um com o outro? Como é que fica o professor nessa história?


Explique como ele fica.


Eu atribuo o principal defeito na formação de professores a essa visão defeituosa de para quê serve nosso sistema educacional. À medida que todo o processo foi montado para administrar não o aprendizado, mas a escola, em que momento se relaciona a interação do professor com o aluno? Como é que ficam as instituições que preparam professores? Numa estrutura em que a visão é a de que o professor ensina e não de que o aluno aprende, tudo se volta para essa questão, desde a estrutura física da sala de aula até o material usado, o número de alunos numa sala, a forma como o professor é cobrado pelo seu resultado. Para nós, o professor é o animador do processo. E é preciso medir o quanto o aluno está aprendendo, ou seja, quão efetivo está esse processo. Hoje, a escola pública não tem nenhum instrumento para avaliar o que os seus alunos sabem, o que eles aprenderam. Nenhum. Ah, mas tem o Saeb (Sistema
de Avaliação da Educação Básica

) ou o Saresp (
Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar de São Paulo

)… Mas o diretor não tem isso. Pelo menos não tem isso para gerenciar a equipe de professores, animadores do aprendizado de seus alunos.




Os projetos do Instituto Paidéia falam em preparação para o trabalho, primeiro emprego. Como motivar o aluno nesse contexto social em que um diploma não garante colocação no mercado?


Veja bem: a preocupação é em ter o diploma, não em quanto o aluno aprendeu. Na escola básica ou na universidade. E não só no setor público. A maior preocupação de pais que têm filho em escolas privadas é que ele passe no vestibular. Não é saber o que o filho aprendeu na escola, ou se o filho aprendeu a aprender para o resto da vida. Estou falando isso porque tenho a oportunidade de trabalhar junto a alguns dirigentes de escola privada, em conselhos onde também há a participação de pais. Isso é reflexo de uma sociedade cujo objetivo é escolaridade e não aprendizado.




Então, o que o aluno precisa para ter o aprendizado que dê a ele chance de se desenvolver?


É evidente que o que acontece dentro da sala de aula não é suficiente. A garotada que freqüenta a escola pública – óbvio que nós estamos generalizando e que sempre existem exceções – não tem o mesmo tipo de aprendizado em outras dimensões da vida que não só a da sala de aula. Dimensões que envolvem desenvolver redes de amigos, habilidades com a língua, aprender certas técnicas. Normalmente, aqueles que não freqüentam a escola pública são colocados em clubes, em aulas de língua estrangeira. Os pais criam mecanismos para que essa garotada tenha treinos sobre aquilo que os ajuda, depois que eles já têm sua bagagem acadêmica, a vencer na vida. Quando fui presidente da AmCham, fizemos um perfil dos jovens
trainees

que tinham melhor desempenho. Eram justamente aqueles que tinham participado de atividades na comunidade e/ou esportivas, e/ou artísticas. A partir disso, desenvolvemos um programa voltado para a garotada que, em escolas públicas, normalmente assiste a três, quatro horas de aula (quando o professor vai), volta para casa e não pertence a nada. Quando ele vai “pertencer” – e claro que isso é uma caricatura -, ele vai “pertencer” a uma gangue. É uma forma não-positiva de aproveitar o empreendedorismo do jovem, mas é uma forma.




Como estimular o empreededorismo?


O jovem é mais afoito, mais criativo. Quando ele não tem espaço para usar isso, pode ser atraído por coisas negativas. É importante criar mecanismos, formas, redes para que esse indivíduo desenvolva habilidades que vão permitir, depois, que ele siga melhor. Baseado em ver o que acontece com os jovens quando chegam a uma empresa, o processo intenso de treinamento para poder se dar bem dentro de uma organização, cremos que a razão básica para que isso aconteça é que eles não tiveram a oportunidade de aprender a pertencer, a trabalhar em equipe, a competir.




Quais instâncias e programas estimulam esse aprendizado?


Que eu conheça, não existe. Mas a nossa proposta é de estimular. Sabemos que de São José dos Campos (SP) implementou um programa de empreendedorismo. Não conheço em detalhes, mas o fez no sistema de escolas públicas da cidade. Então, acho que depende de quem está liderando o processo educacional do município, qual a sua política, e acho que isso varia bastante. É irônico porque o empreendedorismo ensinaria o indivíduo a ser realizador em qualquer ambiente! Empreendedorismo não significa capitalismo. Você pode ser um empreendedor social.




Sabe-se que em inúmeras prefeituras há corrupção, desvio ou uso impróprio de verbas destinadas à educação. Isso diminui a confiança no setor público?


A corrupção muda prioridades. Para começar, a prioridade – como vínhamos falando – não é aprendizagem, mas gestão de instituição. Quando você adiciona mais um vetor nesse processo, a corrupção, cria-se uma nova dimensão de prioridade. E a prioridade visa atender a quem está aceitando a corrupção para atender a algum interesse partidário, individual ou seja o que for, mas não a aprendizagem do aluno. Isso tem sido o empecilho do nosso crescimento. Infelizmente, no nosso país, a corrupção está em um nível de disseminação muito acima do que as pessoas estão dispostas a admitir. Não estamos dispostos a participar desse jogo, mas sabemos que, para muita gente que está no ramo de prover serviços para o mercado educacional, essa é a única forma de se colocar no mercado.



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