Aprendizado em movimento

Educadora francesa recorre a novos artefatos tecnológicos para quebrar barreiras que separam crianças nômades, voltadas à
cultura oral, do aprendizado formal

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Crianças em acampamento de famílias nômades, no suil da França

Ensinar passeando. A idéia não é nova. O grego Aristóteles já dava aulas andando. Na modernidade, a instituição escolar ganhou força e configurou um novo modelo de ensino e de relação espacial. A lousa e a sala de aula tornaram o aprendizado sedentário. Pela legislação francesa, os alunos de 6 a 16 anos têm obrigação de ir à escola. Porém, por ação da diretora escolar, uma minúscula cidade do sudeste da França, na região da Aquitânia, resiste à idéia de sacramentar a sala de aula.  Trata-se da comuna de Orthevielle, com 13,98 km2 e 758 habitantes. Seis meses por ano, a pequena localidade acolhe algumas famílias nômades de passagem, entre as quais há quatro crianças em idade de escolarização. Esses jovens alunos têm, mais de 23 séculos depois de Aristóteles, a possibilidade de receber ensinamentos diversos em suas andanças.


Alunos singulares


As famílias de ciganos que escolheram Orthevielle como lugar de parada entre os meses de outubro e março já são conhecidas dos habitantes da cidade há duas gerações. Elas optaram por não ter morada fixa durante o ano todo, mas os pais de hoje são aqueles que, há 20 anos, estavam nas carteiras da escola ao lado das crianças da cidade. Annie Girard trabalha em uma escola da pequena cidade há 29 anos, dos quais 14 como professora. Ela sabe que a escolarização dos nômades é delicada: "Eles estão imersos numa cultura oral. Sua maior dificuldade reside na harmonização entre o oral e o escrito". Os professores de Orthevielle que tentaram ajudar tais crianças depararam muitas vezes com dificuldades de lidar com os hábitos e horários extra-escolares dos estudantes e de suas famílias, pois os alunos nunca fazem tarefa em decorrência de comuns andanças noturnas. Uma vez identificados os problemas, restou encontrar soluções alternativas que respeitassem algumas características culturais. 

Annie Girard começou a ensinar em 1994, depois de ter trabalhado "do outro lado da fronteira, na parte administrativa". Sensibilizada, esforçou-se para ter boas idéias que permitiram financiar a compra de equipamento de informática para sua escola. Há um ano, a professora acolhia em sua sala as primeiras crianças nômades. "Foi preciso achar rapidamente soluções para os problemas delas. A idéia era encontrar um método que lhes permitisse se apegar à leitura pela oralidade."

A professora descobriu o método de aprendizagem da leitura de inspeção acadêmica: um conjunto de documentos em papel destinados a acompanhar a criança durante seus períodos de andança. Ferramentas indispensáveis que Annie Girad, movida por sua atração pelas novas tecnologias, achará como enriquecer. Pouco a pouco, germinaria nela a idéia que a levou a vencer o Grande Prêmio no I Fórum dos Professores Inovadores, realizado em Rennes, em março de 2008.


Inventividade


A idéia pode parecer simples. Mas era preciso que alguém a tivesse e pusesse em prática. Consiste em fazer com que as famílias nômades "levem" a escola com elas. Aparelhos digitais audiovisuais permitem às crianças nômades gravar sua leitura à noite na caravana. Podem assim, no dia seguinte, na escola, mostrar sua produção aos colegas "sem envergonhar-se de tropeçar em cada palavra". Além de contribuir para a redução da fratura digital, o manejo por todos os alunos dessas gravações traz às vezes belas surpresas. Annie Girard se lembra de uma manhã em que a classe descobriu maravilhada os talentos do violonista pai de um pequeno cigano. "As famílias nômades ficam felizes e orgulhosas. Elas podem ver que confiamos nelas, e lhes confiamos um material relativamente oneroso e, principalmente, podem enfim se envolver na educação de seus filhos."

O método de Annie Girard permite também aos membros das caravanas ter acesso, via pequenas telas, às aulas previamente gravadas em formato digital no sítio de internet da escola. Essas famílias podem, assim, como os outros pais, acompanhar a evolução do aprendizado de seus filhos. "O projeto de Annie Girard foi aprovado por unanimidade", confia Caroline d’Atabekn, uma das organizadoras do Fórum de Rennes. "Annie não é uma desconhecida, ela faz parte desses professores que não desistem depois de investirem num projeto. Busca inovar continuamente." Entre as centenas de idéias, o projeto dos nômades digitais enquadrava-se nas exigências que as duas jornadas de trabalho do fórum faziam quanto à definição da inovação pedagógica. Caroline Atebekn as resume em algumas palavras: "transversalidade, criatividade, interdisciplinaridade, abertura, imaginação", acrescentando que é oportuno verificar "o grau de confiança que um professor pode ter diante de seus alunos".

Annie Girard espera desenvolver esse método. Por enquanto, lhe parece difícil acompanhar a evolução desses alunos que partem com suas famílias para as estradas já em março. Se as caravanas não vão muito além da região, as crianças podem às vezes estar perto de mais sete escolas da região durante esse lapso de tempo. Interrogada sobre suas ligações com o Centro Acadêmico para a Escolarização dos Recém-chegados e das Crianças Nômades (Casnav), Annie Girard responde: "Temos um coordenador no departamento. Ele veio nos encontrar. Espero que possamos assegurar um acompanhamento melhor dessas crianças. Elas partiram levando na bagagem um caderno de leitura e um caderno de acompanhamento que adotei a fim de tentar uma aproximação com as diversas escolas por onde vão passar".

A inovação pedagógica suscitada pela chegada das crianças nômades na escola de Annie Girard teve prolongamentos interessantes. O método se revelou muito útil aos outros alunos em dificuldade. "Alguns escolheram gravar as apresentações de livros", entusiasma-se ela, desvelando o embrião de uma outra iniciativa: por que não uma biblioteca sonora? O projeto está, por enquanto, na gaveta da inspetora acadêmica.

(Tradução: Mônica Cristina Corrêa)

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