Aprendiz de mim

Educação antecipa trechos de livro inédito que o educador Rubem Alves escreveu em homenagem aos sete anos da ONG Cidade Escola Aprendiz

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Rubem Alves*

Transformar um bairro em uma escola a céu aberto – essa é a proposta da ONG Cidade Escola Aprendiz, criada pelo jornalista Gilberto Dimenstein. Este mês, a entidade completa sete anos de trabalho educativo na comunidade do bairro da Vila Madalena, em São Paulo (SP), com ações que envolvem artes, comunicação e cidadania. Também em agosto, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) decidiu sistematizar a experiência do bairro-escola, propondo a países da África, Ásia e América Latina que realizem ações semelhantes. Leia a seguir trechos inéditos do livro
Aprendiz de Mim,

da Editora Papirus, que Rubem Alves escreveu sobre a Cidade Escola Aprendiz e que estará disponível em livrarias a partir da segunda quinzena de agosto.





Que lindo e simples resumo da tarefa da educação: plantar jardins, construir cidades-jardins, mudar o mundo, torná-lo belo e manso. Aprender construindo. Aprender fazendo. Para que as crianças possam brincar. Para que os adultos possam voltar a ser crianças. E espalhar sonhos, porque jardins, cidades e povos se fazem com sonhos.




Essas coisas essenciais moram na ONG Cidade Escola Aprendiz, atualmente presidida pelo advogado Miguel Pereira Neto, que o Gilberto Dimenstein sonhou e que, com um punhado de conspiradores, está realizando. Conspiradores – aqueles que, juntos, respiram o mesmo ar.



Pois os conspiradores me convidaram para escrever um livro que falasse sobre o Bairro-Escola Aprendiz. Não pude dizer não. O convite era generoso demais. Era uma declaração de confiança, de gostar de mim. Já me consideravam um dos “conspiradores”. O convite equivalia a me convidar para ser padrinho do filho deles. Padrinho, segundo pai, alguém que ama e cuida. Como recusar?



Meu corpo



Escrever é construir mosaicos. Juntar uma infinidade de fatos, em si mesmos sem sentido, para com eles fazer uma coisa única, que seja bela. O sentido de um mosaico não está nos cacos. O sentido do mosaico está na beleza, muito maior que os cacos. Vou contá-lo à imagem do meu mosaico, porque eu também sou um mosaico.



Lembro-me de quando era menino, lá na cidadezinha de Minas onde eu morava. Ao entardecer os homens se reuniam debaixo de uma paineira para contar causos. A meninada se misturava. Ouvindo os causos maravilhosos que se contavam, eu não acreditava. Naquela época eu já tinha mania de não acreditar. E me dizia: “Mas isso que foi contado não pode ser verdade.” E não podia mesmo. Mas nunca ouvi ninguém contestar o mentiroso. A reação correta, educada, depois da mentira, era dizer: “Mas isso não é nada…” E com essas palavras o contador seguinte começava a sua história mais mentirosa ainda, mais maravilhosa ainda. É que eles contavam para encantar. Eles sabiam que a alma não se alimenta de fatos. Ela se alimenta de encantamentos. Agora eu entendo a verdade daqueles mentirosos; por mais que eu me esforce para relatar somente os fatos, eles vão aparecer sempre modelados pela minha fantasia. Terão sempre a minha cara. Este livro, assim, é feito com pedaços de mim mesmo. Isto é o meu corpo.




O passeio



Eu já tinha ouvido falar do Aprendiz. Mas não fazia idéia. Aí comecei a ouvir que o Aprendiz era uma escola sem salas de aula, mestres e aprendizes fazendo coisas nas ruas, nas praças e casas de um bairro, a Vila Madalena, na Rua Belmiro Braga [
em São Paulo, SP

]. Mas, por mais que eu me esforçasse, não conseguia imaginar esse objeto estranho, o Aprendiz.


Aí, eu e o Gilberto [
Dimenstein

] ficamos amigos. Acho que foi iniciativa dele. Leu umas coisas minhas e gostou. Muitas amizades começam com a escrita. Sei por experiência própria. O Gilberto me telefonou e me convidou para visitar o Aprendiz. Ele acreditou que eu entenderia, se visse.



Era uma manhã. Descíamos de carro da casa do Gilberto passando pelas ruas iguais a todas as demais, o tráfego, as buzinas, os muros mortos e mudos. Todos os muros dizem a mesma coisa: “separação”. Não entre. Mansos e indefesos. Não reagem. Sofridos, estuprados pela feiúra das pichações, usados como mictórios, abandonados. Também eles são vítimas da violência. O objeto da pichação não é o muro. A pichação é para ser vista, foi feita para fazer sofrer os olhos que a vêem – por detrás de cada pichação há uma intenção sádica. Não é possível ver uma pichação sem sentir uma pitada de raiva dos pichadores.




Os grafites



Mas de repente comecei a ver coisas que nunca tinha visto. Os muros ficaram diferentes. Não havia registro de coisa semelhante na minha memória. Aqueles muros estavam cobertos de signos. Eram portas que davam para um outro mundo. Veio a surpresa. O encantamento.


O fato é que as coisas que eu via não pertenciam ao meu mundo. Nunca as havia visto, daquele jeito. Os muros estavam cobertos de beleza, grafites coloridos. Algum artista tinha estado por ali e derramara neles a sua alegria. Comecei a sorrir. Aquela arte era um gesto dirigido aos passantes. Dizia que havia pessoas que amavam aquele espaço. Os grafiteiros plantaram rosas nos muros, que deixaram de dizer “separação” e passaram a dizer “jardins”.


Aqueles artistas eram mais que artistas que produziam a beleza e a davam de presente aos passantes. Eram profetas. O profeta não é uma pessoa que vê um futuro que vai acontecer, inevitavelmente. O profeta faz o futuro presente pelo seu gesto. Toda beleza é profecia. Os artistas são anjos que conseguem dar visibilidade às belezas invisíveis da alma. E quando as belezas invisíveis da alma se tornam visíveis na obra de arte, surge a comunhão.



Os mosaicos




Do outro lado da rua havia um tipo diferente de beleza: mosaicos coloridos. A alma é um vitral, é um mosaico. Cacos de vidro, cacos de cerâmica, cada um deles nada mais que um caco que não serve para nada, sem sentido, sem beleza, entulho, lixo. Mas o artista olha para o caco e não vê o caco. Vê uma outra coisa. Vê a totalidade bela à qual ele pertence.



Os mosaicos muito se parecem com os quebra-cabeças. Centenas, milhares de pequenas peças espalhadas pela mesa. Cada peça nada significa. Mas aquele que vai formá-lo sabe que, se encaixadas de uma certa forma, as peças se tornarão parte de um quadro que faz sentido. Para se montar um quebra-cabeça há de se saber a técnica. Começa-se por separar as peças que têm um lado reto. Elas formarão as bordas do quebra-cabeça. Depois, separam-se as peças por cores. As cores iguais pertencem a um mesmo objeto. A cor azul sugere o céu. O verde pode ser uma campina. Um amarelo forte pode ser a copa de um ipê florido. E há também peças com pequenos detalhes. Uma peça com um olho e outra com um nariz devem fazer parte de um rosto. Uma chaminé e uma porta devem ser parte de uma casa. Assim, aos poucos, o caos vai se transformando em beleza.



O personagem



subterrâneo



Cabelos ondulados amarrados, brinco e tatuagem, olhar profundo e desafiador, linguagem jovem, vestindo camiseta amarela, calça jeans desbotada, tênis, José Augusto Amaro Capela, conhecido como Zezão, já chegou aos 33 anos. É fácil imaginá-lo, à primeira vista, como um estudante universitário, prestes a se formar.




Mas Zezão não tem nada de acadêmico. Ele conta, sem cerimônias, que nunca simpatizou com os livros e, muito menos, com as salas de aula. Prova disso foi ele ter repetido uma vez a 3
a

série, cinco vezes a 6
a

e duas vezes a 7
a

. Abandonou a escola antes mesmo de iniciar a 8
a

série do ensino fundamental.




Em 1995, descobriu o grafite. Em pouco tempo, Zezão, que trabalhava como
 motoboy

, também entendeu que uma das marcas do grafite é a efemeridade. Certo dia, andava com seus amigos quando avistou uma galeria subterrânea. Curioso, desceu até o lugar para conferir. As paredes eram limpas e intermináveis. Havia alguns ratos, baratas e um fio de água correndo pelo chão. Mas, apesar de parecer sombrio, seus olhos brilharam. “Na hora pensei: se eu pintar aqui, nunca vão apagar”, revela.




Escolhia lugares fechados e de difícil acesso público. “Eu não grafitava para os outros. Grafitava para mim.” Com o passar dos meses, a pintura de Zezão ganhou destaque e seu talento visibilidade. Em 2003, tornou-se arte-educador do Aprendiz. Quando isso aconteceu, ele já estava recuperado e reestruturado emocionalmente. Deixou a vida de
motoboy

e, durante seis meses, ensinou tudo o que sabia a crianças e adolescentes.




Zezão conta que a oficina de grafite foi mais escola para ele do que para os meninos: “Lá, aprendi a lidar com o ser humano, a buscar cada um dentro de si, aceitá-lo como é e ajudá-lo da melhor maneira possível.”



As bolas de gude



O Gilberto chamou a minha atenção para um detalhe que eu não havia percebido. Havia, nos muros, mosaicos circundados por bolas de gude coloridas, dezenas, acho que centenas de bolas de gude. Aí ele me disse algo enigmático: “Essas bolas de gude se transformaram em nossa bússola.”




Quem teve a idéia de colocar as bolas de gude na parede, circundando o mosaico, conhecia psicanálise e também as artimanhas do Demo. As bolas de gude não foram colocadas lá por motivos estéticos apenas. Foram lá colocadas para tentar quem as visse. Tentação, testação. Tentação é teste. O Demônio é o “testador”. Põe os nossos desejos na bigorna. Basta ver a coisa redondinha, colorida, vítrea, jóia, para se ter vontade de a roubar. Não é por acaso que o objeto da tentação no mito bíblico tenha sido um fruto. Que fruto? Ninguém sabe. Mas os artistas imaginaram e concluíram que deveria ser redondo, vermelho, brilhante: uma bola de gude grande e comestível. Disseram que era uma maçã. Eu prefiro acreditar que foi um caqui. É mais diáfano, transparente, sedutor.




O milagre das bolas de gude ficou mais incompreensível quando fiquei sabendo que, meses antes, uma intervenção semelhante acontecera. Uma artista plástica, sozinha, cobrira os muros de uma praça com centenas de bolas de gude. “O resultado ficou esteticamente estupendo”, comentou o Gilberto. “Mas politicamente foi um horror. Naquela mesma noite arrancaram bola por bola, deixando apenas lições nas marcas vazias do cimento.”




Lição fundamental de cidadania: somente cuidamos do espaço público quando o sentimos como sendo uma extensão do nosso próprio espaço. A cidade, extensão do meu corpo. Somente assim eu cuido dela. Quem quebra o galho de uma árvore numa rua quebra o meu próprio braço; quem arranca uma bola de gude do muro arranca o meu próprio olho.




Houve apostas. Alguns apostaram que o destino dessas bolas de gude seria o mesmo: ficariam os buracos na parede, a tentação era demais. Vem o menino. Vê as bolas de gude. Olha para um lado, olha para o outro. Ninguém está vendo. É tão fácil roubar uma bolinha usando a ponta de um canivete. Mas houve os sonhadores que resolveram pagar para ver. E ganharam. Em três anos, apenas quatro, das centenas de bolas de gude fixadas nas paredes, foram arrancadas.




A mulher coragem




Quem se assentar no café provavelmente vai se encontrar com uma jovem negra, com um sorriso altivo e fala franca. Ela está sempre por lá porque o Aprendiz é parte da sua vida.



Ela fugiu de casa aos 8 anos, na esperança de encontrar nas ruas um lugar melhor para viver. Não encontrou. Por dez anos, Esmeralda do Carmo Ortiz conviveu com a miséria, a violência e as drogas. Aos 18 anos, com o apoio da ONG Projeto Travessia [
de São Paulo, SP

], fez um tratamento e se livrou do crack. Arrumou emprego, alugou uma casa, fez novos amigos. Conheceu o jornalista Gilberto Dimenstein por intermédio da Fundação BankBoston e começou a trabalhar no Projeto Aprendiz como assistente de oficina. Com o apoio do jornalista, em 2001, lançou seu primeiro livro,
Esmeralda – Porque não Dancei,

da Editora Senac, no qual conta sua história. O livro já está na sua quarta edição. Em 2003, lançou
O Diário da Rua

, de poesias.


Esmeralda Ortiz, hoje, com 24 anos, trabalha como assistente administrativa e auxilia os educadores da Cidade Escola Aprendiz. É estudante de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi [
de São Paulo, SP

], está escrevendo seu terceiro livro e está grávida de três meses.


“Eu cheguei ao Aprendiz livre do vício das drogas e com uma casa, mas sem perspectiva; não sabia o que seria de mim. Aqui, conheci pessoas mais velhas, mais expe­rientes, cheias de energia de vida. Pude acreditar nos meus sonhos e na minha capacidade como ser humano e profissional. Meu contato com drogas sempre foi muito próximo. Em casa tinha álcool, na rua tinha droga. Você acaba tendo que escolher, porque a dor é imensa, assim como o medo, o vazio, a carência. Eu aprendi a perdoar e as coisas vão acontecendo. Se vivesse com ressentimento, visualizando o meu passado, nunca conseguiria crescer.”


Hoje, Esmeralda vive com o marido no paulistano bairro da Lapa. “A droga”, ela diz, “ainda está nas ruas e os traficantes estão todos lá. Está tudo do mesmo jeito. Fui eu que mudei.”



As escolas



A Escola da Rua é um núcleo da Cidade Escola Aprendiz que comporta os programas
Escola na Praça

,
Beco-Escola

(grafite) e
Agentes da Cidade

. Em 2004, a Escola da Rua vai ganhar uma casa só para ela, com saída para a Praça Aprendiz das Letras.


Hoje, 286 crianças com idade entre 4 e 15 anos estão matriculadas na Escola da Rua. A metodologia da escola se propõe a estar sempre em construção: é um lugar para errar e para acertar. Um lugar livre, onde a figura de autoridade da escola é desconstruída.



O Beco




Depois foi o Beco. Beco com inicial maiúscula porque esse beco foi transformado de substantivo comum em substantivo próprio. Não se trata de um beco. Trata-se do Beco. Onde ninguém mora, ninguém cuida. Longos muros sinuosos, dos dois lados. Nenhuma casa. Vazio. O “vazio” é perigoso. Os filósofos naturais de antigamente diziam que a natureza tem horror ao vazio. Fez-se o vazio, uma outra coisa logo entra no seu lugar.




Antigamente as almas do outro mundo ficavam à espreita, nos becos. Foi o que aconteceu com o Beco. Tornou-se ponto de pichadores e traficantes, fezes e urina espalhadas por todos os lugares, combinação de horror nasal, horror visual, horror humano. Ninguém passava por ali. Assim era. Agora é um espaço luminoso e colorido. Os grafiteiros fizeram o seu trabalho: cobriram os muros do Beco com seus grafites coloridos, fazendo com que ele se pareça com uma galeria de arte.



As lições estão escritas nos muros, ao ar livre. Muros são lugares públicos, democráticos. Impossível não vê-los, ao caminhar. Um artista que coloca a sua arte no muro está fazendo uma declaração de confiança nos passantes: “Eles amarão a minha arte e a preservarão.” Como se fosse um convite à paz. O muro está dizendo: “Estou desarmado.”



Escola a céu aberto


A história da educação, eu imagino, poderia ser dividida entre tentativas para consertar, melhorar, modernizar esse modelo. E tentativas inspiradas na velha sabedoria de que “não é possível colocar remendos de pano novo em tecido podre”, e por isso tratam de procurar um modelo novo. Muitos têm sonhado esse sonho. Ivan Illitch [
educador, 1926-2002

], creio que na década de 70, chegou a sugerir que as escolas fossem totalmente abolidas e substituídas por algo semelhante a um supermercado de saberes, abertas a todos os que quisessem aprender.


Aí aparece o Bairro-Escola Aprendiz. Não se trata de costurar um remendo de pano novo em tecido podre. Sua proposta: que o espaço-tempo da aprendizagem seja o espaço-tempo das ruas do bairro – porque é ali que a vida acontece. Praças, ateliês, oficinas, danceterias, cinemas, livrarias, cafés – todos esses são espaços de aprendizagem. Ali se encontram os mestres, ali se encontram os aprendizes.



É comum dizer-se que a função das escolas é preparar as crianças e os adolescentes para a vida. Como se a vida fosse algo que irá acontecer em algum ponto do futuro, depois da formatura, depois de entrar no mercado do trabalho. Mas a vida não acontece no futuro. Ela só acontece no aqui e no agora. Viver é aprender. É nisso que está a excitação do viver. Caso contrário, a vida é um tédio insuportável. A aprendizagem só pode acontecer no espaço-tempo em que a vida está sendo vivida.



Um convite


Juntei cacos e peças e tentei formar um mosaico. Mas, como disse no início, é um mosaico com a minha cara. Segue meu convite para que você visite o Aprendiz. Vá com os olhos abertos, espantados, olhos de criança, esquecidos dos saberes da memória, para ver o que nunca tinham visto. E vá catando cacos, ajuntando peças. Depois, forme o seu próprio mosaico, segundo as linhas do seu rosto. É possível que, de repente, você se sinta ondulando ao sabor das ondas nas águas de um lago onde uma pedrinha foi lançada.




*O livro
Aprendiz de Mim

(Editora Papirus), escrito por Rubem Alves, deve chegar às bancas de todo o país na segunda quinzena de agosto



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