Aprendendo com as caravelas

Quando um objeto ensina totalidades

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Com duas frases curtas a menina me explicou o jeito de aprender na Escola da Ponte, em Portugal. Era minha primeira visita e tudo me espantava. As crianças estavam misturadas numa única sala, pequenas, grandes, com síndrome de Down. Numa parede, havia palavras com letras grandes referentes à descoberta do Brasil: era o ano 2000. Perguntei: "E aquelas frases?". Ela disse: "Os miúdos estão a aprender a ler. Aqui não aprendemos nem letras nem sílabas; só aprendemos totalidades".

Como as crianças aprendem a falar? Algum tolo pensará que a linguagem se aprende pelos sons das letras? Imagine ensinar uma criança a falar por meio dos sons: ffff, ssss, rrrr… As crianças não aprendem sons, aprendem "totalidades", palavras inteiras. Sons isolados não fazem sentido.

E como se aprende música? A cada nota e acorde? Não. Aprende-se a música inteira. O sentido e a beleza da música não se encontram nas notas e acordes isolados. É preciso ouvi-la inteira.

"Interdisciplinaridade" e "transdisciplinaridade" são palavras de respeitabilidade acadêmica. Não gosto delas. Pressupõem que o conhecimento começa com disciplinas isoladas – como as letras e as sílabas, os sons e os acordes – e depois, por meio de uma "costura", surge o sentido. É o contrário. A inteligência, vendo o objeto inteiro, se dirige às partes para decifrá-lo. Primeiro a mexerica inteira; depois os gomos.

Voltemos à Ponte. Como parte do programa sobre o descobrimento do Brasil, um grupo quis estudar as caravelas. Eis um objeto a ser compreendido. Que enigmas contém uma caravela! "Por que algo tão pesado não afunda?" Conta-se de um caipira que, havendo conhecido um navio num porto, voltou para casa e anunciou que ferro não afunda n’água. Para provar, jogou um machado num poço. Por que um machado que pesa pouco afunda e o navio que pesa muito não afunda? Arquimedes dá a resposta: todo corpo mergulhado num fluido etc.

O que flutua melhor? Um navio vazio ou cheio? Faz alguns anos, descobriram numa baía da Suécia um navio chamado Wasa. Ele emborcou depois de lançado ao mar porque estava leve demais. É preciso pôr "lastro" no navio para ele não virar.

E como um navio a vela, tocado pelo vento, navega de atravessado e contra a direção do vento? Aí entra a lei de combinação de forças – "do paralelogramo". Vento e leme combinados produzem a direção desejada.

"E como os navegantes, soltos no mar, sabem qual é a direção, sem um sinal de terra a orientá-los? Não há sinal na terra, mas os céus estão cheios de sinais, as estrelas. Para compreender como se navega é preciso entender a astronomia. Será que as nossas crianças e professores sabem o nome de estrelas e constelações? "Muitas velas, muitos remos, âncora é outro falar, tempo que navegaremos não se pode calcular. Vimos as Plêiades, vemos agora a estrela polar." A Cecília sabia que não bastam remo e vela, é preciso entender as estrelas.

As caravelas nos conduzem à história, às navegações, à poesia: "Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem de passar além da dor! Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele é que se espelhou o céu".


Rubem Alves Educador e escritor rubem_alves@uol.com.br

Partindo da caravela e ouvindo as suas perguntas nos tornamos navegadores nos mares da física, da astronomia, da geografia, da poesia…

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