Apelido é palavrão?

Nomes pejorativos podem se tornar agressão psicológica

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Começa mais ou menos assim: “Estavam lá o Testa, o Zão, o Zinha, o Pesca, o Caquinha, o Mobral, o Trolha, o Pavão…” Seja qual for o enredo, as histórias dessa turma sempre trazem na introdução essa lista de nomes um tanto bizarra, ao menos para quem não está acostumado a eles. São os apelidos de um grupo de amigos que, hoje na faixa dos 20 e poucos anos, carrega apelidos desde a pré-adolescência, quando todos estudavam na mesma escola e moravam, a maioria, na mesma rua, na Vila Mascote, zona sul de São Paulo (SP).



“Acho que os apelidos começaram quando a gente tinha uns 12, 13 anos”, lembra Rodrigo Niro, o Zão. Os apelidos foram dados conforme o nome, sobrenome ou fatos que aconteciam no cotidiano. Zão, por exemplo, vem de Babozão, que por sua vez vem de babosa, a planta. “Um dia cheguei com gel no cabelo, falaram que eu tinha passado babosa, aí virei o Babozão, que diminuiu para Zão.” Bruno Viécili, que tem um apelido mais ortodoxo, Testa, conta que desde pequeno é chamado assim. “Foram meus primos que colocaram o apelido, quando eu tinha uns seis, sete anos”. O apelido pegou. “Precisava uma pessoa só ouvir, e já bastava para todo mundo me chamar assim.”



Se eles gostavam do apelido? No início, não. Mas não gostar do apelido, segundo eles, é a condição para que eles peguem. “Colocar apelidos tem a ver com uma relação de amizade”, explica Bruno. “E, entre amigos, é legal provocar, atormentar, sacanear mesmo”, completa Niro.





A psicóloga Magda Sant’Anna Pearson concorda com a turma. “Os apelidos não dependem das pessoas gostarem ou não deles”, explica. “Aliás, quanto menos gostam, maior é a probabilidade de eles ficarem.” Autora de
Pau, Pau, Pedra, Pedra – As Palavras Não me Ferirão… e Como Ferem!

(Ed. Livro Pleno, 72 págs., R$ 22), ela diz que na infância e na adolescência é muito importante pertencer a determinado grupo. Com o apelido, as pessoas se reconhecem sem a interferência de pais ou professores, criando uma identidade perante o grupo.





Essa identificação torna-se às vezes tão importante que as pessoas acabam se sujeitando a ser chamadas por termos de que não gostam, apenas para não serem excluídas. Em casos mais graves, esses apelidos evoluem para o
bullying

– termo em inglês utilizado para identificar comportamentos caracterizados por apelidos maldosos, perseguições e agressões
.





Na maioria das vezes, porém, não há
bullying

, mas apenas incômodo. É o caso de Leandro Viécili, o Trolha, que antes de ter o próprio apelido era chamado pelo grupo de Testinha, por ser irmão mais novo do Testa. “A gente falava que ele era tão sem importância que nem um apelido era capaz de ter”, lembra o irmão. Leandro, que ganhou o atual apelido na faculdade, conta que não gostava de Testinha por causa do diminutivo. “Eu já era o irmão mais novo; ter um apelido baseado no do meu irmão, e no diminutivo ainda, não era muito legal.”





Na escola —
Mas o que a escola tem a ver com os apelidos? “É que a maioria deles começa ali”, explica Magda. “E muitos deles pegam nos pontos fracos das crianças e adolescentes.” É a partir de caricaturas de características físicas (como obesidade) ou comportamentais que surgem denominações pejorativas comuns na sala de aula, como “rolha-de-poço”, “Faustinho”, “Olívia-palito”, “nerd”, “quatro-olhos” e “cabeção”.





Existem também os apelidos que não são pejorativos, lembra Magda. “Guga e Xuxa não são apelidos ofensivos, porque comparam as pessoas a exemplos considerados bons”, diz. A maioria das crianças e adolescentes, entretanto, prefere utilizar os que remetem a coisas ruins.




“É uma forma lúdica que as crianças encontram para identificarem as outras”, afirma Cleide Fernandes Rey, coordenadora pedagógica do Colégio Magno, em São Paulo. “As crianças são muito perspicazes quanto a isso.”. Para Maura Pacheco, orientadora educacional do Colégio Leonardo da Vinci, de Porto Alegre (RS), há até uma faixa etária em que os casos são mais freqüentes. “Isso ocorre muito nas 7ª e 8ª séries, mas depois passa, e os casos que dão problema diminuem.”





Reportagem: Jéssika Torrezan, da Agência Repórter Social





Leia mais na versão impressa: como lidar na escola com atritos provocados pelo emprego de apelidos, como abordar o assunto na sala de aula, e um pouco mais sobre o que é 
bullying

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