Apartheid escolar

Escolas muitas vezes propagam horrores sociais

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Julio Groppa Aquino



Uma cerca divide ao meio o território australiano. Projetada para conter o avanço dos coelhos, cuja proliferação desenfreada desequilibrava o ecossistema local, ela tornou-se símbolo de um fato histórico odioso. Explico-me. Por ocasião de sua construção, muitos trabalhadores brancos engravidaram as aborígenes locais, cujos filhos bastardos eram separados à força das mães e transferidos para campos governamentais distantes. O propósito era educar as crianças mestiças segundo os costumes “civilizados”, para que se tornassem, mais tarde, serviçais domésticos qualificados dos brancos.

Eis mais uma mostra daquilo que se convencionou nomear apartheid. Vocábulo anglo-saxão já solidificado entre nós, designa os processos de segregação de parcelas da população, os quais culminam em algum tipo de privação civil – seja ela explícita, ou não.

Imagem-síntese da paisagem nacional, o apartheid é encontrado em todo canto e ponto do nosso país. Ele é integrante da geografia das cidades, das instituições sociais, até mesmo de nossas casas. E as escolas não são exceção. Pretendidas como espaços neutros, elas apresentam-se repetidas vezes como caixas de ressonância de alguns horrores sociais. Enfrentemos um deles.

Vários colegas do ensino fundamental privado confirmam: há um apartheid ocorrendo entre os alunos pagantes e os filhos de funcionários, particularmente os dos auxiliares (não professores). Comumente aceitos a contragosto, eles são beneficiários de um dispositivo legal previsto nas convenções coletivas de trabalho, o qual obriga as escolas a conceder bolsas de estudo integrais aos dependentes de seus empregados. Uma vantagem que se converte amiúde em transtorno para os donos do negócio.

Não apenas em razão dos constrangimentos que sua presença “mestiça” acarreta, a segregação é ratificada, por vezes, em termos de seu desenvolvimento pedagógico e/ou disciplinar “aquém do esperado”. Esse fato, quando não tomado como justificativa para o assistencialismo local, torna-se a brecha para que as escolas possam rejeitar sua permanência, contentando assim a maioria dos pais pagantes, incomodados com a contigüidade de sua prole com a pobreza. Mas há outras maneiras mais sutis de “administrá-los” – todos sabemos. A mais insidiosa delas é a do seu apagamento civil.

Uma professora aflita conta que uma aluna pequena, em uma redação cujo tema era a família, perde a memória e adota uma das professoras estrangeiras como avó. Outra, no refeitório, recusa-se a apanhar o lixo que sua mãe, faxineira, terá de fazê-lo em seguida.

O que não ensinamos para tais crianças é que seu destino já está traçado: continuarão sendo serviçais daqueles com quem hoje dividem os assentos escolares.

Em tempo: de que lado da cerca brasileira (sim, aquela contra os pobres) você e seus filhos julgam estar?



Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br




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