Ao mestre com carinho

A gratidão de Albert Camus ao professor que marcou sua existência

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Logo após receber, em 1957, o Prêmio Nobel de Literatura, Albert Ca­­mus escreve uma breve carta a Monsieur Germain, seu professor numa escola pública de um bairro operário de Argel. Nela o já consagrado escritor e filósofo franco-argelino expõe sua gratidão àquele que havia sido responsável por uma profunda transformação em sua vida: Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei nem solicitei, escreve Camus a seu antigo mestre. Quando soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido.

A infância pobre de Camus, as vidas dos operários e das crianças do bairro de Belcourt povoam seus escritos literários e marcam seu pensamento político e filosófico. Mas é em uma obra inacabada – O primeiro homem – que Camus nos apresenta esse extraordinário personagem que marcou sua existência e que até o final de sua vida a ele se dirigia afetuosamente como meu querido menino ou simplesmente meu pequeno Camus. No romance, achado entre os escombros do acidente de automóvel que tirou sua vida, seu mestre Louis Germain se transforma em M. Bernard, um professor cujas aulas eram sempre interessantes pela simples razão de que ele era apaixonado pelo seu trabalho.

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Nelas o menino Camus descobre a literatura, as histórias da Grande Guerra na qual morreu seu pai, a existência da neve, de outros países e povos. Ele descobre, enfim, a alegria de ser transportado para mundos até então desconhecidos: Apenas a escola dava a Jacques e a Pierre essas alegrias. E, sem dúvida, aquilo que amavam tão apaixonadamente nela era o que não encontravam em suas casas, onde a pobreza e a ignorância tornavam a vida mais dura, mais morna, como que fechada em si mesma; a miséria é uma fortaleza sem ponte levadiça. E contra ela – a miséria que se fecha em si mesma – M. Bernard, como uma ponte, convidava aqueles meninos a uma travessia em direção a um universo de experiências simbólicas das quais eles até então se encontravam privados.

Por isso suas aulas foram tão marcantes, tão diferentes: Nas outras classes, ensinavam-lhes sem dúvidas muitas coisas, mas um pouco como se entopem os gansos. Apresentavam-lhes um alimento pronto pedindo que o comessem. Nas aulas de M. Germain, pela primeira vez sentiam que existiam e que eram objeto da mais alta consideração: julgavam que eram dignos de descobrir o mundo. E porque acreditava no princípio da igual dignidade de todos os seus alunos, M. Germain estendia sua mão afetuosa a cada um deles, fazia de seus gestos e palavras a encarnação de seus princípios.

O professor que emerge das imagens e lembranças de Camus nos comove menos pela eficácia de seus esforços do que pela dignidade de sua luta; menos pela riqueza de seus recursos pedagógicos do que pela clareza de seus compromissos educativos. Para M. Germain ser professor era mais do que uma maneira de ganhar a vida. Era uma forma de dar sentido à existência.

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