Ao buscar “novos horizontes”, feira focou as mudanças pelas quais a educação está passando e ainda deverá passar

Bett Educar aconteceu no mês de maio, em São Paulo

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Foto: Gustavo Morita

Crédito: Gustavo Morita

Na década passada, com a divulgação dos primeiros resultados do Pisa, o exame compartilhado por diversos países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e por outros que a ele aderiram, os olhos da educação se voltaram para a Finlândia e seu modelo educacional. Ali, entre outras coisas, descobriram um sistema que privilegiava fortemente a autonomia escolar e um projeto que havia sido desenhado décadas antes, no final dos anos 60, com o intuito de mudar a educação do país.

Mesmo com o país não ocupando mais a ponta do ranking internacional, a Finlândia continua sendo um ponto para onde se olhar quando, mais do que a obtenção de resultados nos testes de larga escala, se tem como objetivo a oferta de uma educação que veja o ser humano de forma mais integral. É o que, de certa forma, comprovou a edição 2017 da feira Bett Educar, realizada no Expo São Paulo entre os dias 10 e 13 de maio. No evento, que teve como um dos principais eixos a oferta de produtos e serviços inovadores para a educação, uma das principais atrações foi a presença da secretária de Educação de Helsinque, Marjo Kyllonen, que veio ao Brasil a convite do grupo SEB.

Marjo Kyllonen: secretária de Educação de Helsinque, Finlândia: valorização de uma educação colaborativa (Crédito: Gustavo Morita)

Marjo Kyllonen: secretária de Educação de Helsinque, Finlândia: valorização de uma educação colaborativa (Crédito: Gustavo Morita)

Em palestra durante o evento, Kyllonen defendeu as mudanças que estão sendo testadas atualmente em sua rede, privilegiando um ensino mais baseado em projetos e menos no conhecimento disciplinar, o que traduziria uma visão mais holística do processo educacional.

As mudanças são também fruto de uma avaliação de que, com o advento da era digital, os processos produtivos estão mudando em todo o mundo, e nem sempre bons resultados do ponto de vista estritamente acadêmico significam a geração das melhores ideias para esse novo desenho de sociedade.

Ou seja, ao contrário das nações asiáticas que passaram a ocupar os primeiros lugares do Pisa, com sistemas educacionais mais competitivos e as crianças sob grande pressão por desempenho desde pequenas, a Finlândia aposta em um modelo em que os aspectos lúdicos e colaborativos têm papel central no aprendizado. Essa abordagem é um esforço pela permanência do país no grupo daqueles que produzem e exportam tecnologia e bens de alto valor agregado. Tanto é que o sucesso da rede finlandesa fez surgir um novo negócio: a venda de expertise educacional para outros países, incluindo alguns do Oriente Médio e da América Latina. São nações que querem melhorar seu desempenho educacional e se interessam pela reforma implementada no país nórdico.

Os resultados no Pisa não são a única razão pela qual outras nações se interessam pelo modelo pedagógico finlandês. A lista, afinal, não guarda relação direta com o nível de desenvolvimento tecnológico de uma nação. Israel, por exemplo, cuja indústria de tecnologia de ponta está crescendo, não fica entre os dez primeiros na avaliação da OCDE.

O que mais tem despertado interesse dos países emergentes no modelo finlandês é que ele propõe inovações que casam bem com a sociedade tecnológica e a economia compartilhada. Como defende Marjo Kyllonen, a sociedade industrial necessitava de muita gente trabalhando em linhas de montagem. Hoje, muitas dessas funções estão – e estarão cada vez mais – nas “mãos” de robôs. Mesmo em áreas como o direito, muitos postos de trabalho serão deslocados de jovens advogados para computadores com um algoritmo que identificará, por exemplo, o que há de jurisprudência sobre determinado tema de forma muito mais veloz. Os seres humanos terão de ter aptidão em outras áreas, como aquelas que envolvem pensamento crítico, criatividade, jogo de cintura e negociação, entre outras.

Robótica e programação

Em sintonia com esse ponto de vista, a feira registrou significativa presença de produtos e serviços de robótica e programação (veja fotos na galeria ao fim da reportagem). Houve exposição de produtos educacionais para que os jovens possam aprender a criar e comandar soluções de inteligência artificial. Diversos fornecedores exibiram soluções para a engenharia de hard­ware e software em sala de aula. Havia aquelas que advogavam que a partir do 4º ano do fundamental os kits de robótica educacional já poderiam ser usados.

Também houve painéis e mesas de debates dedicadas ao ensino de robótica. Uma das palestras, “Ensino e aprendizagem de programação e robótica: princípios e conceitos”, expôs o case do Centro Educacional Paula Souza, a rede de ensino técnico do Estado de São Paulo. Os professores Tiago Jesus de Souza e Carlos Eduardo Ribeiro, ambos vinculados à instituição, explicaram como o tema é trabalhado no ensino médio e como organizam grupos e usam competições para estimular os jovens, além de destrinchar as linguagens e recursos didáticos que adotam. Apesar de a programação em blocos (Ardublock) ser uma tendência forte, já que pode ser adotada também por alunos do fundamental, o ensino de programação em Java e a programação em C ainda são populares.

Os tipos mais comuns de robôs utilizados nas aulas são carrinhos e braços robóticos. Souza e Ribeiro desenvolveram no Paula Souza um projeto que envolve tanques de guerra e batalhas virtuais. Entre os carrinhos, há projetos de sensores de linha, sensor de obstáculos e rally.

Os professores lembram que boa parte do trabalho que realizam envolve engajamento interdisciplinar. “Os alunos recorrem ao professor de física para saber sobre circuitos, que às vezes ainda não abordou esse conteúdo”, exemplifica Souza. Outro ponto importante é a possibilidade de ensinar os alunos a elaborarem seus projetos, contendo linha de pesquisa, materiais e tecnologia utilizada na elaboração dos robôs, bem como a função deles.

Aprendizado por projeto

O tema da feira deste ano foi “Novos horizontes para a educação”, sinalizando que as escolas brasileiras, públicas ou particulares, estão em busca de novas metodologias de ensino e abordagens de ensino e da aprendizagem, aulas renovadas e até mesmo uma nova arquitetura para as salas de aula. Provavelmente em função da Base Nacional Comum Curricular, professores, gestores e instituições de ensino demonstram especial interesse acerca da inovação do currículo. As palavras-chave são: aprendizado significativo, contextualizado, partindo de problemas reais; interdisciplinaridade e resolução de problemas.

Outro tema que chamou atenção foi o das didáticas específicas, voltadas às diversas áreas do conhecimento. Houve palestras para o ensino de temas voltados às ciências humanas, à educação física e a linguagens, entre outras. Cada vez mais, problemas específicos demandam estratégias próprias para seu entendimento e resolução. Como na pesquisa científica.

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