Ano zero

É fácil conceber e começar projectos. Difícil é mantê-los sem que se degradem

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Separado da Ponte pelas águas de um grande mar, longe, desimplicado do quotidiano da Ponte, sou espectador atento da crise que, espero, seja de transição para algo bem melhor do que aquilo que fizemos ao longo de mais de trinta anos. Entretanto, vou ao fundo do baú, em busca de antiguidades. Encontrei registos de estágios. Numa carta dirigida aos professores da Ponte, uma estagiária de sociologia escreveu:
"Nunca consegui entender algo que ainda agora, quando penso, me intriga. Nas reuniões de que participei, os professores diziam, cara a cara, tudo o que pensavam dos seus pares, de modo enérgico, por vezes mesmo rude. E, quando me parecia que a reunião iria terminar numa zanga e confusão total, os professores davam a reunião por finda e iam tomar chá, comer bolachas e contar anedotas."

Essa jovem socióloga talvez não tivesse compreen­dido algo fundamental naquela escola. Partilhar um bolinho e dois dedos de conversa com os mesmos parceiros que, há minutos atrás, nos tinham criticado é sinal de frontalidade, autenticidade.

Ainda que se reconheça que nem tudo foi transparência, ainda que (em algumas situações) tivéssemos afivelado a máscara, fomos capazes da transcendência de que cada um foi capaz. Para o melhor e para o pior, estávamos juntos. Na Ponte, ninguém estava sozinho. E talvez a maior ruptura com o modelo tradicional concretizado na Ponte tivesse sido o acabar com a solidão do professor.

A Ponte é uma, entre muitas escolas, que, durante o último século, ousaram defrontar o pensamento único e toda a espécie de fundamentalismos pedagógicos. Foi (e continuará sendo) uma luta incessante contra culturas de solidão, contra a burocracia dos ministérios, a mediocridade dos políticos e de professores sem escrúpulos. Sabemos que, se o maior aliado do professor é outro professor, o maior inimigo do professor que ousa ser diferente é, também, outro professor. Porque assim é, a Ponte foi alvo de calúnias e agressões vindas de professores de escolas (geograficamente) próximas. E, porque a reelaboração da cultura pessoal e profissional é um processo lento, também foi necessário defrontar a erosão interna – os "invasores" causaram danos, por vezes, irreversíveis.

A crise por que passa a Ponte é de natureza diferente da crise geral da escola. Na Ponte, são procurados caminhos para os descaminhos da educação. Busca-se concretizar a escola pública, aquela que – quer de iniciativa estatal, quer de iniciativa particular – a todos os alunos confere garantias de acesso e a todos dá condições de sucesso.

Quando perfaz trinta e dois anos de existência, o projecto da Escola da Ponte está no princípio. Aliás, todos os projectos estão sempre no seu início, sempre no seu "ano zero", no tempo de recomeçar.

É fácil conceber e começar projectos. Difícil é mantê-los sem que se degradem. Porque um projecto humano é um acto colectivo. É feito de pessoas. É feito por pessoas em contínua aprendizagem. E é da humana natureza complicar o que é simples. Subitamente, sem que se perceba por quê, os professores ligam uns "complicadores" (uns dispositivos que deverão estar alojados num qualquer recanto do cérebro.) e tudo se complica. Tal como no Mito de Sísifo, a continuidade de um projecto dependerá da capacidade de cada um e de todos os participantes serem capazes de recomeçar. Numa efectiva cooperação, na recíproca aceitação das diferenças – omnia in unum – e sem deixar de interrogar as evidências…


José Pacheco


Educador e escritor, ex-diretor da Escola de Ponte, em Vila das Aves (Portugal)

josepacheco@editorasegmento.com.br

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