Amigos ou inimigos?

Só nos sentimos realizados ou a caminho da realização pessoal, quando nos humanizamos uns aos outros

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Ilustração de Carll Cneut para o livro Um milhão de borboletas, de Edward van de Vendel

A literatura contemporânea continua mostrando, em várias de suas obras, uma escola que nem sempre consegue ser a melhor amiga dos alunos. É o caso do livro Kill all enemies (publicado em 2011), do escritor inglês Melvin Burgess. Os personagens adolescentes que protagonizam três histórias inicialmente paralelas (mas no final convergentes) não estão felizes com a vida. Sentem-se deslocados, desorientados e solitários.

Os três – a moça chamada Billie e os rapazes Chris e Rob – enfrentam sérias dificuldades na família. O autor pesquisou as circunstâncias complicadas em que muitos jovens se encontram. E as transpôs para o romance. A mãe de Billie é alcoólatra, os pais de Chris não conseguem compreender um rapaz inteligente mas rebelde, e Rob sofre nas mãos de um padrasto truculento. Se no âmbito da família as coisas vão mal, no da escola podem ir de mal a pior. Rob sofre bullying por ser gordo. Chris chega atrasado em todas as aulas e jamais consegue fazer a lição de casa (a dislexia não diagnosticada explicaria mais tarde sua situação). Billie, para se defender, tornou-se agressiva, a um passo da marginalidade. Em meio a esse quadro, a escola quer ajudá-los, mas não sabe como.

São três adolescentes problemáticos, mas com personalidade própria, com vontade de mudar e de realizar algo importante para si mesmos e para o mundo. Em condições ideais, seriam alunos ideais. O grande problema está em não haver condições ideais.

As lições do tédio

Chris não será um bom aluno, pelo menos segundo os moldes pedagogicamente chancelados. Mas outros interesses o mobilizam. Gosta de vender, comercializar, talvez se torne um empresário.

Na aula de ciências, inventou o tediômetro, com o qual pode “medir” seu afundamento sob o efeito aniquilador de um professor que fica de costas para a sala, escrevendo na lousa:

De acordo com o tediômetro de Chris Trent, qualquer um que passe de cem pontos precisa ser demitido da escola e arrumar um trabalho do tipo contar quantos amendoins vêm em cada saquinho. Quando a escala chega aos duzentos pontos, o processo de aprendizagem se inverte, e você esquece tudo o que sabe. Aos trezentos, seu reflexo no espelho começa a envelhecer, e você perde a capacidade de digerir pizza. Aos quinhentos, seu cérebro passa a devorar a si mesmo.

Se tivesse encontrado outro panorama didático, inventaria o “fascinômetro”, com o qual poderia avaliar outros resultados, bem mais positivos, incluindo a contagem de amendoins dentro de cada saquinho, algo que pode ter inestimável valor para produtores e vendedores.

A fascinação pelo conhecimento salva o cérebro da autofagia. A fome de aprender existe, mas é preciso produzir alimentos adequados e estimulantes. Um rapaz como Chris se empolgaria com aulas em que entendesse como a ciência conversa, e muito, com o mundo dos negócios.

Seres de encontro

O pensador espanhol Alfonso López Quintás define o ser humano como o “ser de encontro”. Nós só nos sentimos realizados, ou a caminho da realização pessoal (sem reduzirmos a questão à realização profissional, mas incluindo-a), quando nos humanizamos uns aos outros. A família deve ser o primeiro e decisivo lugar para exercitarmos o encontro. Seguida pela escola.

Contudo, para que o encontro nos humanize, não basta a proximidade física, ou os laços de sangue, ou a pertença a um grupo social. Pessoas morando sob o mesmo teto podem se estranhar e se desconhecer todos os dias. Dezenas de alunos numa sala de aula não estão, necessariamente, numa realidade de encontro. Podem todos se sentir isolados, lutando cada um por si e (o que é lamentável) contra os outros.

Rob e Billie têm poucos amigos. Carregam o peso da orfandade e não se sentem capazes de amar e ser amados. A dor e o sofrimento que experimentam parecem uma fatalidade. Billie tem surtos de violência. Rob descarrega sua agressividade nos joguinhos virtuais: o objetivo é matar todos os inimigos.

No romance, os alunos desajustados são encaminhados para uma Unidade de Ressocialização Escolar. Mas haverá ali especialistas na arte do encontro? Pessoas que conheçam os pré-requisitos das relações humanizadoras? Quando Billie conversa com uma assistente social, percebe que um dos pré-requisitos mais importantes está ausente:

Jodie ligou o carro e arrancou, puxando conversa sobre coisas banais – tentando fazer parecer que estava tudo normal […].
– Desculpa – eu disse de repente.
– Por quê? – ela perguntou.
– Por incomodar. Você devia estar em casa, vendo tevê.
– Ora, não se preocupe, querida. Eu sou paga pra isso.

Por maior que seja a nossa boa vontade, e embora recebamos um salário para “isso”, uma boa resposta capaz de criar o encontro poderia ser esta: “Obrigada por se preocupar, querida. Eu sei que você está buscando o melhor”.

Saber dialogar promove o encontro, sem esconder o que há de estranho e indesejável na vida. Concentrar-se sobre coisas banais banaliza as urgências. Billie esperava mais daquela carona. Seu pedido de desculpas era um pedido de compreensão.

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