Alfredo Veiga-Neto

professor da Universidade Luterana do Brasil e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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Qual o diagnóstico que você faz da educação básica no Brasil? Quais os principais problemas, avanços e retrocessos que a educação vive?


Se falamos em problemas, avanços e retrocessos na educação, é porque já temos subentendido um conjunto de ideais, princípios e representações sobre a educação, que, por sua vez, está em íntima conexão com o que pensamos ser melhor para a sociedade. Nesse sentido, tenho argumentado que, entre nós, os problemas da educação não são propriamente
da

educação, se entendermos esse
da

no sentido causal. Tais problemas derivam tanto daquilo que a nossa sociedade pensou e pensa sobre a educação quanto daquilo que ela fez e faz com ela. Com isso, quero tirar das costas dos professores e professoras parte do fardo que em geral a sociedade aí coloca.

Feitos esses esclarecimentos iniciais, vamos bem resumidamente ao que eu penso sobre a educação básica no Brasil.

Problemas e retrocessos? Falta de políticas continuadas e competentes. De um lado, políticas que se mantivessem estáveis por um tempo bem maior do que as (cada vez mais curtas) passagens dos gestores nos ministérios, nas secretarias, nos órgão públicos. De outro lado, gestores que, em vez de distribuir cargos e favores, fossem competentes nos assuntos educacionais e se valessem dos saberes já produzidos e acumulados (seja pela pesquisa, seja pelos profissionais, que há muito tempo estão clamando para serem ouvidos). Cada novo gestor quer deixar a sua marca e faz pouco mais do que reinventar a roda… Em geral, se fala na falta de recursos (materiais, humanos, financeiros). Eles são muito importantes, mas são desperdiçados pela descontinuidade, incompetência e corrupção.

Avanços? Tirando alguns esforços pontuais – em muitos cursos de formação, em algumas experiências dispersas pelo país afora -, jogamos fora as últimas décadas. Em termos nacionais, a minha avaliação para os próximos anos é também pessimista. Uso aqui uma metáfora para explicar o que venho sentindo em relação às políticas educacionais: “cada vez mais chantili e menos morango”.




Na sua opinião, qual é o principal desafio para alavancar o desenvolvimento e a qualidade da educação em nosso país?


A vinculação entre ideais educativos e ideais sociais que estabeleci acima – aquilo que de melhor se quer em cada uma dessas instâncias – permite que se compreenda que o
desenvolvimento

e a
qualidade

da educação não são valores em si. Portanto, o que entendo por
qualidade em educação

praticamente nada tem a ver com o que em geral se entende por
qualidade total em educação

. Com isso, amplio o âmbito da minha resposta: o grande desafio que se tem vai bem além daquilo que se costuma chamar de “ensino de boa qualidade”. Mais do que isso, é preciso implantar ou apoiar políticas e práticas educacionais que promovam maior
justiça social

– pela
inclusão

e
fixação/permanência

de todos nas escolas – maior
aceitação da diferença

e maior
competência

naquilo que se faz.

O desafio que se tem pela frente aumenta na medida em que é preciso examinar com mais cuidado e competência o que hoje está sendo entendido, proposto ou feito sob a designação de
inclusão

– social, digital, dos alunos com necessidades especiais etc. – e de
fixação/permanência

na escola. Tais expressões acabam virando moeda forte, de modo que sempre aparece algum “especialista de plantão” ou “cartola da vez” para pontificar e propor soluções mágicas – muitas vezes apoiadas na alta tecnologia ou em teorias indigentes -, cristalizando equívocos e, não raro, cometendo ainda mais injustiça.




Na sua avaliação, os cursos de formação de educadores no Brasil conseguem preparar o professor para a sala de aula? Se sim ou não, por quê?


Minha longa experiência com a formação de educadores me permite responder afirmativamente a essa pergunta. É claro que há cursos e cursos… A heterogeneidade é muito grande: a par de inúmeras experiências sérias, criativas, competentes, há muitas que são desonestas sofríveis, pobres. O aligeiramento parece não ser raro nesse campo. São mais do que conhecidos casos e mais casos de licenciaturas que são (para dizer pouco…) um escândalo. Por outro lado, há bastante tempo observam-se esforços imensos no sentido de melhorar os cursos de formação docente – seja em termos curriculares, seja em termos de exigências impostas ao alunado, seja em termos do desenvolvimento de um
ethos

altamente positivo em relação à docência.

Em suma, quanto a isso acho que sou um otimista…



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