Alfabetizadora social

Professora cria método de alfabetização de crianças que, ao enfatizar a oralidade, o diálogo e a linguística, conseguiu elevar as taxas das escolas municipais de Presidente Prudente

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Márcio Oliveira
Problemas nos materiais de alfabetização levaram Onaide a pensar em um método novo

A combinação de princípios teóricos da linguística e da psicolinguística, tomando como ponto de partida as ideias e propostas de Paulo Freire, é o fundamento de um método de alfabetização desenvolvido na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente. Desenvolvido pela professora e pesquisadora Onaide Schwartz Mendonça, a proposta denominada de Método Sociolínguistico foi adotada em escolas municipais de Presidente Prudente, com bons resultados: pesquisa realizada com 3,4 mil crianças do 1º e do 2º ano em 2011 e 2012 mostrou que, ao final de um ano letivo, 72,6% dos alunos estavam alfabetizados, proporção que sobe para 87,8% no 2º ano.

“Dei este nome ao método porque ele contempla a dimensão social ao enfatizar a oralidade, o diálogo em sala de aula, e a linguística, ao ensinar os conteúdos necessários para qualquer indivíduo aprender a ler e escrever com competência”, detalha Onaide, que é coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Unesp em Prudente.

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A sala de aula como base
A metodologia começou a ser formatada em sala de aula quando Onaide atuava como professora alfabetizadora na rede estadual paulista, na região de Assis. “Quando ingressei no magistério, ainda eram usadas as cartilhas tradicionais, mas logo surgiu a primeira edição dos materiais do projeto Ipê”, conta a pesquisadora, referindo-se ao projeto implantado pelo governo do Estado de São Paulo nos anos 1980, que envolveu atualização e aperfeiçoamento de professores, debates sobre reforma curricular e sobre o ciclo básico. “O curso divulgava as novas ideias construtivistas, propondo uma forma de alfabetizar com ênfase nas funções sociais da leitura e da escrita”, relembra ela.

Na época, além de trabalhar como alfabetizadora, Onaide cursava letras na Unesp de Assis. “O curso era extremamente crítico e comecei a viver uma contradição, porque, de um lado, as cartilhas eram muito fracas do ponto de vista metodológico, continham erros de fonética e textos artificiais. Por outro lado, os materiais indicados pelo estado não eram eficientes, sugeriam atividades descontextualizadas e fragmentadas, além de proporem um salto do trabalho com as letras isoladas para a produção de textos”, diz. Desse modo, as crianças ficavam sem informações sobre conteúdos linguísticos fundamentais para elas se apropriarem dos mecanismos necessários para escrever e ler.

Nesse contexto, ela começou a montar seus materiais, incorporando o método Paulo Freire, que conheceu na Unesp. “Imediatamente incorporei o trabalho com a palavra geradora na minha rotina de sala de aula, sempre partindo da realidade das crianças e trazendo o diálogo preconizado por Paulo Freire e a ficha de descobertas, que permite explicitar as famílias silábicas que compõem a palavra geradora.”

Seus estudos no mestrado e no doutorado em Linguística possibilitaram que ela agregasse as ideias e propostas de Luiz Carlos Cagliari, Magda Soares, Eglê Franchi, além de Paulo Freire e Emilia Ferreiro, às pesquisas que resultaram no método.

Teoria + prática
Desse modo, combinando sua prática como professora alfabetizadora e de sua trajetória como pesquisadora na área de linguística e pedagogia, Onaide sistematizou um conjunto de etapas que possibilitam que crianças, em várias fases da alfabetização, avancem e consolidem a aprendizagem da fala, da escrita e da leitura.

Partindo da releitura das ideias e propostas de Paulo Freire, adaptadas para crianças, o método sociolinguístico coloca-se, então, como contraponto aos métodos de alfabetização silábicos tradicionais, ao mesmo tempo que propõe uma alternativa a posturas adotadas por educadores que seguem as teorias construtivistas.

Na visão da pesquisadora, os métodos tradicionais pecam por realizar um trabalho descontextualizado e artificial, do qual as crianças participam como espectadores, já que têm como objetivo ensinar a codificação (escrita) e a decodificação (leitura/decifração) de sinais gráficos. Em contrapartida, as práticas de alfabetização baseadas no construtivismo incorrem num problema, no entendimento de Onaide: muitos professores acreditam que o grande mérito do construtivismo é deixar o sujeito aprender sozinho, rejeitando toda forma de sistematização do ensino, o que ela considera uma leitura equivocada do construtivismo.

“A teoria construtivista tem por objetivo mostrar as hipóteses elaboradas pelas crianças quando estão aprendendo a escrever. A descrição desse percurso dá subsídios para que o professor elabore estratégias de intervenção para facilitar a aprendizagem por parte do aluno. Mas muitos profissionais ainda não compreenderam isso e deixam a criança caminhar sozinha”, analisa a pesquisadora da Unesp. Isso ocorre, segundo Onaide, porque no Brasil a teoria construtivista foi, equivocadamente, aplicada como um método.

Por isso, ela defende que a ênfase da alfabetização não pode recair exclusivamente sobre o processo, como se tornou recorrente entre os defensores do construtivismo – é preciso enfocar o resultado, ou seja, a alfabetização. E o professor tem um papel fundamental para ajudar o aluno a decifrar as letras e os códigos adotados numa determinada língua – no nosso caso, a língua portuguesa – para formar palavras. “Ao deixar o aluno, angustiado e inseguro, tentando compreender sozinho a escrita, que já está estabelecida pela humanidade há milhares de anos, corre-se o risco de produzir analfabetos jovens e adultos”, afirma.

Em contrapartida, quem aprende a decifrar as letras e a combiná-las para formar palavras e a buscar o significado por detrás da escrita torna-se capaz de ler qualquer coisa em qualquer lugar, além de ser capaz de interpretar. “Para a linguística, a chave da leitura é a decifração dos sinais gráficos.” Por isso, defende Onaide: “A ênfase da alfabetização precisa ser a leitura, pois a escrita é decorrência desse conhecimento, primeiro se aprende a ler, depois a escrever”.

Percursos definidos
É justamente nesse campo que se situa o método sociolinguístico, na medida em que oferece a professores e alunos um percurso definido por meio de sequências de atividades adaptadas a cada fase do processo de alfabetização. Seu objetivo, em outras palavras, é ajudar a sistematizar o trabalho do professor para exploração do universo da escrita com a – necessária, segundo Onaide – contextualização da letra, da sílaba, da palavra, das frases e dos textos.

Para tanto, se vale de algumas práticas realizadas na sala de aula. Duas delas, fundamentais dentro da dinâmica do método, são a leitura do alfabeto e as atividades com a ficha de descoberta da palavra geradora que estiver sendo trabalhada. As palavras geradoras são o ponto de partida para o trabalho com as famílias silábicas, de modo que os alunos possam montar e desmontar palavras usando as sílabas.

“Em nossa metodologia, os conhecimentos advindos da psicogênese da língua escrita ganham espaço privilegiado ao se transformarem em estratégias de ensino/aprendizagem para fixação dos conteúdos”, explica. A partir de uma única palavra são propostas atividades para alunos em diferentes etapas da alfabetização – do pré-silábico ao ortográfico. O papel do docente é colocar em prática estratégias que ajudem, efetivamente, o aluno a atravessá-las.

Se uma criança não domina as letras, o professor deve ajudá-la a aprender qual letra representa qual som numa língua. Para tanto, o método sociolinguístico adota como atividade a leitura do alfabeto de diferentes formas – na ordem, de trás para frente, do meio para o final, do meio para o início alternadamente. Mas também podem ser realizadas atividades de pesquisa de letras a partir das palavras que estão sendo estudadas, identificação de palavras dentro de pequenos textos, pesquisas de letras iniciais ou finais de palavras, dominós de letras associadas a imagens.

Se o aluno está na fase pré-silábica, ou seja, já conhece o valor sonoro das letras, mas acredita que basta uma letra para representar uma sílaba, a estratégia proposta se baseia na leitura da ficha de descoberta da palavra geradora que está sendo estudada e, em seguida, realizar sequências didáticas para fixar os conteúdos. “A própria Emilia Ferreiro observou na psicogênese que a noção de sílaba é uma das primeiras que a criança percebe, quando observa que a escrita tenta registrar os sons da fala. Ao dizer bala, pausadamente, pronunciamos BA-LA e não B-A-L-A. Portanto a escrita é alfabética, mas a oralidade é silábica.”

Por isso, defende Onaide, o ensino da sílaba é eficiente. “Embora a língua portuguesa tenha sua escrita alfabética, isto é, para registrar os sons da fala precisamos combinar letras de um alfabeto, quando falamos pronunciamos sílabas e não fonemas isolados.”

As palavras geradoras
As palavras geradoras são um dos eixos de trabalho no Método Sociolinguístico. Tomando como exemplo a palavra família, a primeira etapa é a codificação, a apresentação da palavra geradora através da oralidade (diálogos, gestos, música e outros códigos que a criança já conheça) e da escrita – representação através de desenho, cartaz, fotografia, jogos etc. “O diálogo é vital para o sucesso da alfabetização por garantir a motivação e o envolvimento com o processo.”

A descodificação é a segunda etapa: releitura e discussão, com os alunos, dos temas derivados da palavra geradora, além de atividades baseadas na apresentação de textos em vários tipos de suporte em que a palavra geradora possa ser detectada no contexto em que ela é gerada. Estas são atividades de nível pré-silábico.

A terceira etapa consiste na análise e síntese da palavra geradora, utilizando uma ficha de descobertas composta pelas famílias silábicas desenvolvidas a partir de cada sílaba extraída da palavra geradora. Para evitar que os alunos decorem a sequência, as famílias silábicas são apresentadas fora da ordem convencional. Esta etapa envolve atividades do nível silábico. “As próprias crianças em sala de aula me mostraram a necessidade de mudar a sequência das famílias silábicas na ficha de descobertas, pois se você apresenta na sequência tradicional (a,e,i,o,u), elas decoram e não leem, não decifram. O ideal é sempre mudar a ordem da ficha na lousa.”

Por exemplo, a palavra família é composta pelas famílias silábicas fa, fi, fo, fu, fe, fão; ma, mi, mo, um, me, mão, la, li, lo, lul, le, lão. As famílias são apresentadas em letras maiúsculas e minúsculas, a fim de que os alunos se familiarizem com os dois tipos de letra.

A síntese, outra etapa do terceiro passo, consiste na formação de novas palavras usando as famílias silábicas da palavra geradora (lua, mala, filé, melão etc.). O objetivo da ficha de descoberta é mostrar ao aluno como as palavras são formadas e como novas palavras podem ser compostas a partir de uma única palavra geradora. Para tanto, é importante que a ficha seja lida várias vezes (primeiro coletiva, depois individualmente) e de forma diversificada (na sequência, de cima para baixo, de baixo para cima, alternadamente).

A quarta e última etapa consiste na fixação da leitura e da escrita de nível alfabético, ou seja, a revisão da análise e da síntese, ditado de palavras, composição de frases e textos com leitura e escrita significativas.

Conheça a pesquisadora:
Onaide Schwartz Mendonça é mestre e doutora em Letras, nas áreas de Filologia e Linguística Portuguesa. É professora de Metodologia da Alfabetização e Conteúdos de Linguística da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Unesp de Presidente Prudente. Foi professora da rede pública de ensino durante dez anos.

Para saber mais:
Alfabetizar as crianças na idade certa com Paulo Freire e Emilia Ferreiro: práticas.
São Paulo: Paulus, 2013.

Alfabetização – Método sociolinguístico: consciência social, silábica e alfabética em Paulo Freire, Editora Cortez

Veja a videoaula Método sociolinguístico: práticas socioconstrutivistas 

Leia entrevista com a professora Onaide Schwartz Mendonça.

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