Alerta vermelho

Empresários da América Latina articulam melhoras do ensino

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"Aflição" foi a sensação descrita com mais freqüência, e com mais veracidade, em um resort na Praia do Forte (BA), na última semana de junho, quando toda a discussão girava em torno da qualidade da educação latino-americana. Lá, um encontro inédito, pela capacidade de sincronizar agendas e interesses, colocou sob o mesmo teto articuladores políticos como o ex-presidente uruguaio Júlio Maria Sanguinetti (1985-1990), ministros e ex-ministros da educação de mais de dez países, como Paulo Renato Souza (1995 a 2003), influentes empresários como Jorge Gerdau (Grupo Gerdau) e José Roberto Marinho (Organizações Globo), além de economistas e representantes de órgãos multilaterais, como Enrique Iglesias, da Cúpula Ibero Americana.


Mauro Aguiar, do Bandeirantes: empresariado latino-americano está perdendo em ação educativa para os asiáticos"

A água produzida pelos anos de atraso na educação dos países da América Latina parece ter batido na canela do empresariado e agora estar subindo rapidamente para cima da cintura. O evento Melhores Práticas Educativas na América Latina aconteceu em clima de emergência, e muita ansiedade.

"Temos uma janela de oportunidade e não podemos perdê-la. Basicamente o empresariado latino-americano se deu conta de que está perdendo feio em ação educativa para os asiáticos – sente isso no seu dia-a-dia, na sua produtividade.

Não precisamos ir longe, vejamos as avaliações internacionais como o Programa Internacional de Avaliação (Pisa) e comparemos o desempenho dos estudantes de Brasil e Coréia, por exemplo", definiu Mauro Aguiar, diretor do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, e membro do Conselho de Empresários da América Latina (Ceal).

O objetivo principal do encontro era traçar metas concretas para uma melhora educacional nos vários países representados e incentivar articulação entre os poderes público e privado.

"Segundo nossas estimativas, um jovem abandona a escola a cada 28 segundos na América Latina.

Estamos estagnados, mal conseguimos segurar um estudante na escola", proferiu em tom de indignação o empresário Jorge Paulo Lemann, presidente da Fundação Lemann, principal organizadora do evento, durante a abertura.

O grupo brasileiro de discussão de metas se autonomeou Movimento Todos pela Educação e é encabeçado por Ana Maria Diniz (Grupo Pão de Açúcar), Milú Vilela (Faça Parte), José Roberto Marinho (Globo), Denise Aguiar (Bradesco), Claudio de Moura Castro (Pitágoras), Luiz Norberto Paschoal (DPaschoal), Viviane Senna (Instituto Ayrton Senna) e Maria do Pilar Silva (secretária municipal de Belo Horizonte e dirigente da Undime).


Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educação: "A má qualidade do ensino também é constatada entre os grupos da elite"

Metas ambiciosas – Reunido desde 2005, em São Paulo, o Movimento apresentou durante o encontro cinco objetivos para 2022, ano do bicentenário da independência do Brasil, entre eles: 98% das crianças e jovens devem estar na escola; por volta de 90% deles devem ter concluído os ciclos na educação sem repetência (na idade correta) e o investimento mínimo anual para cada aluno da rede pública deverá ser equivalente a 25% da renda média per capita do brasileiro.

As estratégias para atingir a melhora nos indicadores, bem como metas intermediárias, serão traçadas por Ruth Cardoso, coordenadora da ONG Comunitas. "Minhas preocupações maiores são a relação com o poder público e a atenção aos professores; não se melhora a educação sem conversar com os milhares de municípios do país, além do MEC", explicou Ruth. O ministro da Educação brasileiro, Fernando Haddad, embora confirmado, não compareceu ao evento, causando certo desconforto aos participantes.

Os outros cinco grupos, que reuniram os outros países latino-americanos com cenários educativos semelhantes, se mantiveram mais generalistas em suas metas e estratégias, embora muitos deles tivessem seus ministros da Educação participando diretamente da elaboração.

O grupo do Chile, por exemplo, discutiu avaliação. "Não vejo solidez, mas sim muitas dúvidas quando avaliamos a qualidade da educação", explicou o ex-ministro da Educação Sérgio Bittar. O exemplo de avaliação do Chile é um dos mais bem-sucedidos na América Latina porque o país detém a maior rede privada de educação da região – e que funciona com financiamento público. A avaliação, no caso, surgiu como uma obrigatoriedade para controle da qualidade.

O encontro na Praia do Forte também serviu de fórum para discussão de práticas educativas, avaliação e formação de professores na América Latina. O boletim Quantidade sem Qualidade, divulgado pelo Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe (Preal), embora não trouxesse números e análises inéditas, serviu de pano de fundo do debate. O órgão, de caráter privado e que enfatiza impacto econômico, lança periodicamente boletins avaliativos.

O economista e diretor do grupo Pitágoras, Claudio de Moura Castro, chama a atenção de todos para os dados relativos ao Caribe inglês, à Argentina e ao Chile. "São países que se desenvolveram na área da educação no século XIX, mas depois dos anos 60 estagnaram um pouco. Hoje apresentam uma educação não excelente, mas muito melhor que a brasileira, por exemplo, que começou a se desenvolver apenas nos anos 60", explica.

Pior do que os resultados – No entanto, o dado que mais assusta o economista, que se especializou em educação em seus anos de trabalho no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), é o que indica que boa parte da população brasileira está satisfeita com a educação dada aos filhos. "Os empresários e parte da população parecem gostar de consumir o produto bichado produzido pela educação brasileira", disparou Moura Castro. Ele completa: "Já vivemos uma crise educacional violenta, ela só não está explícita.

Então, devemos provocar uma para o Brasil saber que a educação vai mal e a população se envolver com o tema como se envolve com futebol."

Numa análise mais minuciosa dos dados do Preal, também chama a atenção o fato de muitos países da América Latina sofrerem dos mesmos males, como a evasão escolar e o baixo desempenho em avaliações internacionais, e buscarem a qualidade de ensino, após um investimento mais pesado na questão quantitativa. "A situação passa pela desigualdade na qualidade da educação dada às elites e grupos minoritários, mas o pior é constatar que mesmo a educação das elites é ruim", avalia o ex-ministro Paulo Renato Souza.

A América Central tem, de longe, os piores índices em avaliações internas e comparativas, como o Pisa. Em El Salvador, por exemplo, mais de 60% dos jovens apresentaram péssimo resultado nas avaliações internas.

Para a ministra da Educação da Guatemala, Maria do Carmo Aceña Fuentes, a região tem dificuldades por não ter sequer um modelo claro do que é uma boa escola pública.

"A maioria dos países passou muito rápido por essa experiência, há muito tempo, num outro modelo de educação", explica.

Por conta dessa situação, o grupo de metas da região foi o mais organizado e planejou ações concretas no encontro. "Precisamos de um canal de televisão educativa e um conselho consultivo na área que possa integrar a América Central para que não fiquemos anos-luz de outros países irmãos", pontuou Leonardo Garnier, ministro da Educação da Costa Rica.

Mas há muito ouro escondido sob a lama da má educação latinoamericana.

No campo das boas práticas educativas, o Instituto Latino- Americano de Comunicação Educativa (Ilce) aproveitou o encontro para divulgar um estudo detalhado de 54 casos na América Latina, entre eles o portal Educarede no Brasil.

"Muitas delas são pequenas, sem visibilidade, mas com grande capacidade de multiplicação pelo poder público. Todas têm em comum o bom uso das tecnologias e da gestão", explicou David de la Garza, diretor da instituição.

Júlio Maria Sanguinetti, ex-presidente uruguaio, disse acreditar que a descontinuidade política é o fator mais deteriorante nos processos de educação pública e no mau aproveitamento dessas práticas educativas.

"A cada fim de mandato político é como se Cabral descobrisse o Brasil novamente ou Colombo chegasse à América; é sempre o fim de uma era terrível", brincou.

Ao fim do encontro, o Movimento Todos pela Educação e os outros grupos deixaram a Bahia com o imenso desafio de articular e destrinchar as metas e a discussão dos três dias de imersão. Empresários de mídia, como José Roberto Marinho, se dispuseram a articular suas empresas para a divulgação do compromisso. Outros, como Ana Helena Vincentin, da Votorantim, propuseram o financiamento de muitas ações.

O dia 7 de setembro será simbolicamente o lançamento oficial do Movimento brasileiro, em pleno Museu do Ipiranga (São Paulo). Os riscos para o fiasco não são pequenos: a falta de fôlego para articular com mais de uma gestão de governo federal ou a falta de apoio das diversas camadas sociais podem ser um tiro de canhão, na água – e talvez não exista tempo para outro alerta.

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