Além do termómetro

É preciso repensar o papel das avaliações

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Gilberto Mariotti

A pergunta era maliciosa: “na sua escola, não fazem avaliação?”. Respondi: “fazemos avaliação. O que não fazemos é prova, porque pouco ou nada prova. Provas são instrumentos precários, tão pretensamente científicos quanto inúteis, nada rigorosos e até mesmo prejudiciais” (e provei com exemplos aquilo que acabara de dizer).


Existe uma crença ingénua nas virtudes de tais instrumentos. Mas os sistemas de ensino que os privilegiam não melhoram, porque medições não são sinónimos de mais qualidade no ensino. Muitos alunos chegam ao ensino médio incapazes de fazer uma interpretação de texto. E apenas 15% dos titulares de diploma de direito conseguem aprovação no exame da Ordem dos Advogados. Dogmas velhos cercearam a responsabilidade cidadã e um Estado burocrático impõe um sistema de ensino centralizado, estruturas curriculares rígidas e modos de organização do trabalho escolar obsoletos. As escolas mantêm-se coniventes com o estímulo da competitividade e a exigir decorebas de “piroclásticas”, “dolomitas” e “crivos de Eratóstenes”. Para um ensino excludente, uma avaliação seletiva!


A repetência escolar pode assumir a forma de violência simbólica, dado que humilha e  exclui, envergonha o aluno, diminui a sua autoestima e deixa marcas para o resto da vida. A “avaliação” que ainda se faz nas salas de aula inspira-se na mesma matriz das avaliações externas. A propósito, transcrevo um breve resumo de uma longa lista de absurdos, que leio e escuto. Prescindo de comentário, porque os absurdos falam por si.


Sabemos de encobertos e ilegais vestibulinhos, reprodutores de darwinismo social. Vemos alunos a ingerir Lexotan antes da prova, temos notícias de perda de bolsas, porque há alunos que não conseguem obter boas notas. Alguém, que, por pudor, não identificarei, afimou que “sempre há-de haver quem reprove e que admite haver milhões de alunos que não vão conseguir aprovação”. Eis como a criminosa “naturalização” do insucesso se pereniza, no seio de uma atividade política que apela ao mais feroz individualismo, à competição desenfreada, alimentado por caricaturas de avaliação externa, conduzidas por funcionários ignorantes do que seja pedagogia.


Escutamos o político que, solenemente, afirma que, se não se aplicar cada vez mais provas, poderemos estar a formar analfabetos, como se a aplicação de mais provas fosse solução para 14 milhões de analfabetos funcionais que a Educação do Brasil produziu. Um secretário de educação obrigou as escolas a colocar na porta da unidade a nota que obtiveram no Índice da Educação Básica (Ideb) expondo os alunos a constrangimento e vexame vetados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pela Constituição Federal. Uma secretaria estadual propõe a elaboração de um banco de itens, para que os professores apliquem provas a cada dois meses. Identificada a necessidade de “recuperação”, sugere que essa “recuperação” seja feita no contraturno. Ou “que se paralisem as aulas uma semana para recuperação”. A mesma secretaria criou (mais) uma prova padronizada, para aplicar a meio do ano letivo, “com o intuito de melhorar o desempenho dos alunos”. Outra secretaria de educação confunde “aprovação automática” com progressão continuada e adota “períodos de recuperação trimestral”, insistindo na obsoleta lógica das classes de “reforço”, que são lamentáveis subprodutos de uma prática de ensino obsoleta.


Mais provas não é sinónimo de mais qualidade no ensino. Fazer prova é como medir a temperatura. O termómetro que registra a febre não dá o diagnóstico, nem prescreve a terapêutica, apenas sinaliza o estado febril. A solução não está no termómetro.

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