Além do obrigatório

Atividades e disciplinas extracurriculares ampliam os horizontes das relações educativas, especialmente para os adolescentes

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Responda rapidamente: parâmetros curriculares estabelecem o ideal ou o mínimo? A pergunta é uma emboscada conceitual. Talvez "o ideal mínimo" seja a resposta mais apropriada. Segundo os Padrões Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Pcnem), "o currículo está sempre em construção e deve ser compreendido como um processo contínuo". As transformações econômicas e socioculturais dos tempos correntes exigem que a educação, em especial a de adolescentes, seja reformulada periodicamente. Em escolas públicas e privadas, atividades e disciplinas extracurriculares acrescentam, combinam e transformam os conteúdos escolares, criando uma idéia de complementaridade que ultrapassa em muito a exercida pela tradicional feira de ciências, um dos símbolos maiores de um tempo que ficou para trás. Não que a feira de ciências tenha deixado de ter um papel a cumprir. Simplesmente, o tamanho desse papel foi reduzido. Bastante reduzido.

Tania Zagury, professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), classifica as iniciativas extracurriculares em duas vertentes principais. Num viés já tradicional, seriam os conteúdos artísticos e esportivos, que tornam a escola um universo mais lúdico e atraente, ao mesmo tempo que garantem ao aluno a oportunidade de escolher temas e práticas com os quais se identifica. Nessa visão, o jovem deixa de ser um simples receptor de conteúdos – o processo de aprendizado é personalizado, ainda que parcialmente. Uma segunda vertente trabalha com conteúdos transdisciplinares, que funcionam como meios de convergência entre as diferentes disciplinas, além de se configurarem como espaços privilegiados para o desenvolvimento de valores éticos. São os chamados temas transversais, estabelecidos nos parâmetros curriculares.

Tania ouviu 2 mil professores de ensino médio em 42 cidades brasileiras. O resultado da pesquisa foi publicado no livro O professor refém (Editora Record, 2006). Os docentes ouvidos elegeram a falta de motivação (22%) e a indisciplina (21%) dos adolescentes como os maiores obstáculos ao ensino. "Veja que as duas maiores dificuldades enfrentadas por 43% dos professores, ao todo, partem de um ponto comum – o fato de o adolescente estar alienado do que ocorre na sala de aula", analisa a acadêmica.

"Uma atividade extracurricular pode despertar o interesse do aluno pela escola ou tornar viável a concretização dos conteúdos abstratos que ele estuda", diz Tania. "Muitas vezes, o jovem perde o interesse pela escola porque o professor e o currículo falham em tornar os conteúdos interessantes." Para se sentir motivado, o adolescente precisa compreender "para que servem" ou "como se usam" na vida aqueles conteúdos que são objeto das avaliações formais promovidas pela escola.

Em livro anterior, O adolescente por ele mesmo (Record, 1996), Tania apresenta uma pesquisa que realizou com mil alunos de escolas públicas e privadas das cinco regiões brasileiras no ano de publicação da obra. "Havia muitos trabalhos sobre as supostas necessidades dos jovens, na perspectiva dos adultos, mas quase nada sobre o que eles, adolescentes, realmente queriam", diz. A pesquisa revelou que as atividades preferidas de estudantes entre 15 e 17 anos eram ouvir música (72,9%), assistir a televisão (61%), conversar com amigos (58%) e praticar esportes (52%).

"Os adolescentes foram francos e espontâneos. Alguns citaram como atividades favoritas bater no irmão ou mesmo se masturbar", diz a pesquisadora. Talvez hoje, 12 anos depois, a internet e os games entrassem em algum ponto no topo da lista. De toda forma, das cinco atividades mais citadas, apenas a prática esportiva é contemplada pela grade curricular básica, na aula de educação física – ainda assim, muitas vezes de forma coletiva e restrita a uma ou poucas modalidades generalizantes, como o futebol e a queimada.


Programação olímpica


Em algumas escolas particulares, a oferta de esportes supera o catálogo de muitos clubes especializados. É o caso, por exemplo, do Colégio Santa Maria, de São Paulo. Lá, o aluno pode escolher entre handebol, basquete, vôlei, natação, capoeira, judô, tênis e ginástica rítmica, além, é claro, do futebol – de campo ou de salão -, entre outros. Ao todo, a escola oferece 20 possibilidades de cursos extracurriculares. Dos 3 mil alunos matriculados, pelo menos metade usufrui de um esporte ou atividade artística optativa. Entre estas, destacam-se teatro musicado, teatro em inglês, circo, balé, violão e o street dance.

Para a coordenadora da grade extracurricular do Santa Maria, Adriana Tiziani, as optativas de artes e esportes são um meio favorável ao fomento da auto-estima dos adolescentes. "Muitas vezes, o aluno que não consegue se destacar na sala de aula se descobre um herói na quadra", diz. "Essa mudança de autopercepção vai ajudá-lo a progredir nos estudos."

A escola também trabalha com outro tipo de optativas: as "viagens de inserção social", principais atividades do Projeto Parceria Solidária, criado pelo colégio em 1996. Em julho e agosto, por exemplo, alunos do 9º ano e do ensino médio devem visitar escolas públicas, comunidades de baixa renda, um acampamento de agricultores sem-terra, uma estação de coleta seletiva de lixo e um quilombo nas cidades de Eldorado (SP) e Telêmaco Borba (PR). Ainda há uma disciplina extra obrigatória para os alunos, chamada "currículo diversificado". Na verdade, são quatro opções de cursos – fotografia, webdesign, filosofia (que, com a mudança na legislação, fará parte da grade regular) e geopolítica, entre as quais cada aluno precisa escolher duas. "Elas fazem diferença", afirma a professora de história Adriana Freitas. "Os alunos que optam pela oficina de geopolítica tendem a se tornar mais participativos nas aulas de história e geografia e contribuem muito com os debates em sala de aula", diz. "Como iguais, eles acabam também despertando um interesse maior dos colegas pelo conteúdo em questão."


Alunos do Colégio Santa Maria em oficina de geopolítica: segundo a professora Adriana Freitas (destaque), eles se tornaram mais participativos nas aulas de história

Acesso à pesquisa

No Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) há diversas iniciativas extracurriculares, que incluem estágios em universidades e na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). "Em geral, todos os alunos interessados conseguem se inserir nessas instituições, por intermédio do colégio", afirma a diretora Celina de Souza Costa. É uma chance de experimentação prévia de um possível futuro profissional.
Com orientação de professores da UFRJ, os alunos são estimulados a participar de grupos de estudo temáticos. Atualmente, cinema, animação, montagem teatral e prevenção ao trabalho infantil são os mais procurados. O Colégio de Aplicação promove ainda visitas a laboratórios universitários e museus. "Vamos a quase todas as exposições de arte no circuito do Rio", diz a coordenadora.

Mas Celina ressalta que os adolescentes aderem menos a passeios do que as crianças. "Quanto mais velhos, mais difícil agradar o grupo. Cada um prefere escolher o que fazer", diz. "Como a oferta de disciplinas obrigatórias é muito maior no ensino médio, as inclinações individuais para determinadas áreas começam a ficar mais claras." Por isso, os alunos também são estimulados a participar de congressos e olimpíadas dentro de suas áreas de interesse. Os custos de hospedagem e transporte são arcados pela UFRJ.

No colégio particular presbiteriano Mackenzie, de Brasília, o destaque das atividades extras do ensino médio são os "aulões", realizados semana sim, semana não, no contraturno. São grandes eventos transdisciplinares, com três horas de duração.  "O objetivo é combinar conteúdos para uma visão global de um tema", explica a coordenadora pedagógica do fundamental 2 e ensino médio, Rosimeiry Castro Nascimento.

É a escolha do tema que determina quais disciplinas serão aproveitadas. Num dos mais recentes, por exemplo, o Romantismo (escola artística e filosófica nascida no final do século 18 na Europa, mais especificamente na Alemanha, de onde se difundiu para todo o Ocidente) foi desdobrado por um professor de literatura, um de arte e outro de história. "Esse tipo de interligação é especialmente importante no ensino médio, fase em que as disciplinas são tão subdivididas no currículo tradicional", diz Rosimeiry. Assim, diz ela, o adolescente pode se aprofundar nos detalhes sem perder a tão necessária noção de contexto, que ajuda no entendimento global.


Padronização


Neste ano, a Secretaria de Educação de Pernambuco implantou um plano de padronização de atividades extracurriculares nas 1.108 escolas da rede estadual. Até 2007, havia 280 matrizes curriculares no estado, sem interligação formal entre si, como informa a secretária-executiva de Desenvolvimento da Educação Aída Monteiro, que também é professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Hoje, há uma grade curricular padrão no estado, com variações predeterminadas das extras.

O conceito que serviu de base para a concepção das quatro disciplinas extracurriculares oferecidas ao ensino médio estadual é o da "formação para cidadania". Cada escola teve de escolher duas disciplinas entre as opções: direitos humanos, educação ambiental, história de Pernambuco e ingresso ao mundo do trabalho. As aulas são ministradas em turno normal e são obrigatórias para os alunos. O curso de direitos humanos é o campeão de adesão das escolas, adotado hoje por 60% delas. A secretaria não tem dados consolidados sobre o segundo colocado e apenas informa que é o de educação ambiental. "Repare que as áreas de maior interesse retratam temas que estão em voga na atualidade", ressalta Aída. Os professores das disciplinas extras foram capacitados por meio de seminários realizados pela própria secretaria, que acaba de firmar convênio, via edital, com oito instituições de ensino superior do Estado, para capacitação continuada dos docentes.

Outra iniciativa da secretaria na padronização do ensino médio estadual foi a substituição das aulas de religião por seminários optativos sobre história das religiões. "Partimos do pressuposto de que o ensino público deve ser laico, sem nenhuma espécie de favoritismo religioso", afirma a secretária. Ao estudar os caminhos da percepção humana da espiritualidade em diferentes sociedades e épocas, o aluno, argumenta a professora, tende a se tornar menos suscetível aos efeitos da intolerância religiosa. "E mais apto ao respeito às diferenças", acrescenta.


Escola de possibilidades

Os seis principais formatos do ensino extracurricular:


Passeios


Visitas a museus, cinemas, teatros, universidades e parques, entre outros. Algumas escolas também oferecem
viagens temáticas, sobre, por exemplo, um ecossistema
específico ou uma determinada realidade sociocultural.


Disciplinas


Inclusas no turno normal, não pertencem à grade curricular básica, ainda que possam ser obrigatórias. Em geral, combinam conteúdos de duas ou mais áreas do conhecimento. Filosofia e sociologia se enquadravam nesta categoria antes de serem incluídas no currículo padrão.


Oficinas e debates


Eventos optativos realizados para o desenvolvimento de conteúdos escolares em formato mais dinâmico. Estimulam a capacidade de expressão dos adolescentes.


Esportes e artes

Aulas segmentadas estimulam o desenvolvimento de aptidões individuais e funcionam como meio de o aluno personalizar seu processo de aprendizado. Também podem ajudar alunos com desempenho insatisfatório em disciplinas do currículo formal.


Congressos e olimpíadas


Participação em eventos regionais, nacionais e internacionais garantida aos alunos que se destacam em suas áreas de interesse. Os custos relacionados, de viagem, hospedagem e alimentação, podem ficar a cargo da escola ou da família do estudante, de acordo com a realidade socioeconômica.


Eventos escolares


As tradicionais feiras e apresentações promovidas pela escola com trabalhos dos alunos, tendo pais, amigos e comunidade como público.

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