Além da história oficial

Biografia atualizada de Graciliano Ramos busca desfazer mitos sobre o escritor

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O alcance da obra de Graciliano Ramos pode ser medido pela quantidade de reedições de seus livros, pela profusão de estudos acadêmicos e por constantes pedidos de leitura por escolas e vestibulares. Mestre das frases precisas e de uma sensibilidade maior que o sertão, o romancista continua a emocionar quem entra em contato com Vidas secas, Angústia, Memórias do cárcere, entre outros títulos, que levam qualquer um a se perguntar quem, afinal, é o homem por trás de cada palavra. A segunda edição de O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, escrita por Dênis de Moraes, chega ao leitor para satisfazer essa curiosidade natural. E faz isso indo muito além de uma “história oficial”, que resume sua personalidade à de alguém intratável.


O romancista alagoano desempenhou funções diversas em sua vida adulta. Foi comerciante, prefeito de Palmeira dos Índios (AL), preso político, militante comunista e, todo tempo, escritor dedicado à condição humana. Com base em pesquisas nos arquivos públicos e privados de Alagoas, Rio de Janeiro e São Paulo, além de entrevistas com familiares, amigos, artistas e intelectuais contemporâneos, seu biógrafo descortina um Graciliano justo, solidário e compreensivo, ainda que muito autocrítico, introspectivo e por vezes ranzinza.
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Acervo Graciliano Ramos (www.gracilianoramos.com.b
Graciliano com o filho Ricardo Ramos
Quem se permitir ler o trabalho de Dênis de Moraes saberá que Graciliano não conheceu a retribuição financeira que seu talento merecia. Verá que foi polêmico no cargo de prefeito e afetuoso no de marido. Terá contato com a versão de que foi preso em 1936, mas que não se envolveu com a insurreição comunista de 1935. Também vai viajar ao agreste alagoano nos idos de 1902 para encontrar a criança que “desembestou para a literatura” aos 10 anos, quando começou a pegar emprestados os volumes da biblioteca de um tabelião Jerônimo Barreto. Lerá ainda os detalhes reveladores de sua alfabetização pelas mãos de seu pai, em casa, “aguentando pancada”, e poderá imaginar os gritos da professora no combate aos garranchos da caligrafia na escola.


Se não para compreender opções de estilo, a biografia serve para entender a dimensão da sensibilidade de Graciliano. O testemunho da estiagem, da violência no meio rural, da postura rígida da família sertaneja, que tinha na figura do pai o transmissor de valores hierárquicos incontestáveis. Tudo parece ter influência sobre o realismo crítico de sua obra.

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