Além da gramática

O gramático Ataliba de Castilho comenta a exposição Menas: o certo do errado, o errado do certo e o ensino do português nas escolas

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Para incentivar a reflexão sobre os modos de falar e o que determina os padrões de certo e errado no uso do idioma, o Museu da Língua Portuguesa organizou a exposição: Menas: o certo do errado, o errado do certo. Com curadoria do gramático Ataliba de Castilho, um dos mentores do projeto Norma Urbana Culta (Nurc), e do jornalista e doutor em linguística Eduardo Calbucci, "Menas" propõe ao visitante que conheça as várias dimensões da língua, para além da gramática. São sete instalações distribuídas em uma área de 450 m2. Entre elas, chama atenção um vídeo em que a atriz Alessandra Colasanti encarna as quatro normas (a lexical, a semântica, a lexical e a discursiva) para mostrar que uma não é mais importante que a outra.
Autor da recém-lançada Nova gramática do português brasileiro (Ed. Contexto), Ataliba de Castilho fala a seguir, em entrevista concedida a Ana Paula Severiano, sobre o ensino da língua nas escolas, as diversas normas que pautam o discurso e o olhar da exposição que permanece no Museu da Língua, em São Paulo, até 27 de junho. 


As exposições do Museu da Língua Portuguesa trataram, até aqui, de grandes autores, como Guimarães Rosa, Machado de Assis e Gilberto Freyre. Por que fazer uma exposição sobre os erros de português?

Nunca houve uma exposição sobre matéria linguística, mas cedo ou tarde haveria. A sugestão partiu do Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, o João Sayad, já que esse é realmente um grande assunto. As pessoas, quando ouvem falar em língua portuguesa, pensam apenas na correção gramatical. Entretanto, a exposição não mostra isso, e de propósito. Nosso objetivo é mostrar que, se você entende como uma língua funciona, poderá entender como a sociedade estabelece os conceitos de certo e errado. Mas não achamos que esse seja o ponto de entrada na discussão sobre uma língua, é o ponto de chegada. Isso explica por que o Museu tematiza pela primeira vez um assunto propriamente linguístico.


Um vídeo da exposição mostra o diálogo entre as diversas normas (a gramatical, a lexical, a semântica e a discursiva). Qual delas a escola deve privilegiar?

As escolas de ensino fundamental e médio estão concentradas em corrigir os erros gramaticais. Mas a língua é também léxico, semântica e discurso. Eu cometo o erro lexical, por exemplo, quando uso uma palavra no lugar de outra, o que acontece muito com as palavras parônimas (caso de cavaleiro e cavalheiro). Há também o erro semântico, quando você usa uma palavra ou expressão pensando que ela tem um determinado sentido compartilhado, mas não é aquele o sentido dicionarizado. Além disso, você erra, quando faz um texto, se não leva em conta o interlocutor: por exemplo, ao escrever sobre um assunto corrente para o grande público usando uma linguagem técnica ou científica. O ensino deve atentar para essas variações do erro, porque a língua não é só gramática.


No livro A língua falada no ensino de português, o senhor ressalta que o processo de urbanização no Brasil alterou o modo de ensinar o português. As escolas tiveram de mudar porque a variação da língua falada no campo se juntou àquela da classe média urbana. Como é essa questão hoje, quando 80% dos brasileiros vivem em cidades?


Uma questão nova é que o perfil do professor de português mudou. A migração se acentuou e, no plano da educação, aconteceu outra coisa: a profissão de professor foi sendo desvalorizada. Por conta disso, pessoas que não aspiravam a ser professores, de português ou de outra disciplina, passaram a considerar a profissão. Elas levaram para a sala de aula o português que não é tido, até agora, como o português padrão. Porém, quem dá aula na escola, seja pública ou privada, está representando o Estado. A língua do Estado é a língua do professor. Se esse professor – oriundo das classes populares e que não pratica o português dito padrão da antiga classe média urbana – vai para as escolas, o entendimento do que é certo ou errado tem de mudar.


Os materiais didáticos acompanharam essa mudança?


A maioria dos livros didáticos está ultrapassada. Estamos ensinando nos materiais escolares uma língua que já existiu no Brasil, mas que desapareceu em meados do século passado. Os estudos linguísticos dos últimos 30 anos apontam quanta coisa é fluente na língua, mas não aparece nos livros. Começa por algo muito banal, que são os pronomes pessoais. Você abre a gramática e estão lá: Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles. Quem é que ainda usa o vós? Talvez nem o padre na missa. Há um divórcio entre o ensino e a realidade linguística dos alunos.


Podemos avançar rumo a um ensino de português mais adequado à nossa realidade linguística?


Como a escola pensa que sua função é passar o padrão culto e esse padrão não está atualizado nos materiais didáticos, há um duplo desengano. O ideal seria que a escola discutisse com seus alunos o que é mesmo uma língua. Mas, para isso, é necessário que o professor tenha uma preparação científica mínima, ou não conseguirá achar as respostas – em matéria de língua não há uma única resposta – diante de uma pergunta. O primeiro passo é assumir nosso português sem temor, sem medo, sem vergonha. A nossa identidade maior está na língua, mas essa identidade está maltratada. Os estudos da academia, da universidade precisam chegar ao professor. É necessário redigir materiais intermediários, em que tudo isso é interpretado e escrito numa linguagem acessível. Vai haver um momento de atualização, eu sou otimista.


Qual é o "certo do errado" e o "errado do certo"? Vale tudo na língua?


Não vale qualquer coisa. Aliás, isso não é dito em nenhum momento da exposição. Está dito que é para relativizar essa questão e que muitas vezes o limite entre o certo e o errado repousa numa avaliação social, e essa avaliação social também muda. Ou seja, não vale a pena discriminar ou recriminar uma pessoa pela forma como ela fala ou escreve. Se o padrão culto não foi atendido, a gente tem que problematizar. Por que foi que surgiu o dito erro? Aí você entra na fatura da língua e é isso que interessa. Parece que só raciocinamos nas aulas de matemática, e o resto é decoreba. Em português você também raciocina, é só colocar isso em pauta. E eliminar o decreto do certo e do errado, porque isso cala a boca das pessoas. Você as sujeita aos ditames do gramático, quando o objetivo do ensino é formar um cidadão livre.


Menas: o certo do errado, o errado do certo


Até 27 de junho de 2010 Museu da Língua Portuguesa
Praça da Luz, s/nº, Centro
(11) 3326-0775

www.museudalinguaportuguesa.org.br


R$ 6. Estudantes: R$ 3; Crianças até 10 anos e pessoas a partir dos 60 anos: entrada franca. 

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