Aldeias na metrópole

Escolas indígenas em São Paulo mostram o poder de transformação da instituição escolar e o desafio de formar professores habilitados nos dois saberes

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Gustavo Morita
Antes da chegada da escola às aldeias, as crianças eram vítimas de desnutrição crônica

Desde 2004 funcionam, na cidade de São Paulo, três escolas indígenas ligadas à Secretaria Municipal de Educação, inseridas nos Centros de Educação e Cultura Indígena (Cecis). São elas: Tenondé Porã e Krukutu, ambas em Parelheiros, localizadas na região sul, e Jaraguá, na zona norte. Os Cecis foram construídos em Territórios Indígenas (TI) de comunidades Guarani Mbya e atendem crianças de zero a 6 anos. As equipes de educadores e coordenadores, um educacional e outro cultural, são formadas por indígenas das próprias aldeias.


Chirley Maria de Souza, ou Chirley Pankará, coordenadora pedagógica dos Cecis, explica as diferenças entre as práticas da escola indígena e das outras. “Aqui na aldeia, a escola é parte da comunidade. Não tem crianças enfileiradas. Queremos crianças livres: elas podem andar pela mata, elas têm a liberdade delas”, diz. Ela ressalta que as ações realizadas nos Cecis se pautam pela noção do cuidar e educar de forma diferenciada e coletiva, sob a perspectiva guarani, sem ignorar outras culturas. “Nós casamos os saberes”, afirma.

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A prática pedagógica agrega costumes e rituais da cultura guarani, o que reforça o sentido de pertencimento a um grupo. “Se um menino vai para a roça com o pai, ele está aprendendo”, lembra a coordenadora. Dessa forma, no currículo das três escolas estão inseridas atividades voltadas para a plantação, culinária, artesanato, além de danças e cantos. O objetivo, até por conta da proximidade das aldeias com o contexto urbano, é o de preservar tradições, ainda que de forma relacionada com elementos de outras culturas.

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Relações alteradas
Antes da construção das escolas nas aldeias, as comunidades viviam uma realidade dramática que afetava sobretudo as crianças, vítimas de desnutrição crônica. O grau de mortalidade infantil era alto. Adriano Veríssimo Lima, coordenador educacional do Ceci Tenondé Porã, aponta para o fato de o território onde vivem ser muito restrito, impossibilitando a plantação e a caça do modo tradicional, o que agravava a situação dos indígenas. Hoje, com a merenda oferecida para as crianças, a condição de vida é outra. Além disso, Adriano afirma que, com os centros de educação e cultura, as relações entre os indígenas foram alteradas, estreitando laços e expandindo a comunicação. “A gente conversa mais, tem essa liberdade de chegar na casa de um aluno e mesmo não sendo da família dele, conversar com o pai e com a mãe”, conta.


Um projeto ainda em processo de implementação diz respeito a um trabalho de educomunicação a partir do uso de rádios. A ideia surgiu a partir de uma demanda da própria comunidade,ao constatar a importância de valorizar a oralidade, traço da cultura guarani. Adriano mostra-se animado com a iniciativa, afirmando que a ação deve estimular a criatividade das crianças e fazer com que elas se familiarizem com uma tecnologia que não é da aldeia, mas que ajuda na difusão da educação. “A gente está fazendo o curso e achando bem interessante. Agora só está esperando os equipamentos para começar a trabalhar”, diz.


Professor guarani
O foco da ação da Secretaria Municipal de Educação nas aldeias está na formação continuada dos professores indígenas, articulando conhecimentos guaranis com os direitos da criança. De acordo com Fernanda Noronha, assistente técnica educacional responsável pelas escolas de educação infantil da rede, a dinâmica da formação se dá por encontros mensais com os coordenadores dos CECIs na própria secretaria e, num segundo momento, já nas aldeias, os coordenadores conduzem a reunião com os educadores. Ela sustenta que o trabalho é todo realizado em diálogo com as comunidades e com o amparo das legislações específicas, tendo as Diretrizes Nacionais como base para a atuação.


A principal reivindicação dos professores é a oferta de formação inicial. “Eu creio que é o único problema que nós temos”, afirma Chirley Pankará. Segundo a coordenadora, em relação ao que está nos documentos legais, tudo vem sendo respeitado – o caráter de educação diferenciada, a participação das lideranças na elaboração das propostas, o oferecimento da merenda, a produção de materiais didáticos bilíngues. Agora, só falta um curso de ensino superior voltado para a formação de educadores. “O que a gente ensinou, o que a gente aprendeu foi sem uma educação formal. A formação nossa é a tradicional”, diz Adriano Lima. Ele defende a importância de cursar uma universidade, até para terem autonomia na condução administrativa da escola: “Só aí vai haver uma educação diferenciada conforme a gente quer”, defende. Os técnicos da Secretaria Municipal de Educação vêm dialogando com as comunidades indígenas numa tentativa de encontrar caminhos para viabilizar a formação inicial dos professores.


Uma das dimensões mais potentes da educação escolar indígena está na abertura de possibilidades para um encontro, mais sensível e generoso entre indígenas e não indígenas, refazendo relações historicamente marcadas pela desigualdade e violência. A antropóloga Larissa Menendez dá voz a essa esperança. “O que eu gostaria é que, no futuro, conseguíssemos efetivar uma troca”, diz. Ela aponta a solidariedade como um aprendizado que os povos indígenas têm para oferecer, enquanto elemento cultural presente no cotidiano de todas as comunidades. E evoca um porvir: “eu tenho essa utopia de que um dia não só a gente leve uma formação para fortalecer [a cultura indígena], mas que eles também possam contribuir com a nossa sociedade”.

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