Aldeia escolar

Em visita ao Brasil, Arun Gandhi, neto do líder pacifista indiano Mahatma Gandhi, fala dos ensinamentos de seu avô sobre a não violência a um grupo de jovens e educadores da periferia paulista

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Adriano Vizoni
Arun Gandhi, em São Miguel Paulista (SP): a educação não começa nem termina na escola; ela é um processo contínuo na vida

No caminho de volta da escola, um garoto olha para o pequeno lápis que está em suas mãos, já gasto pelo tempo de uso, e pensa: “eu preciso de um lápis melhor; se eu jogar esse fora, meu avô pode me dar um novo”.  Ao chegar em casa, no entanto, o avô responde ao seu pedido com uma série de perguntas, entre as quais “como o lápis tinha ficado pequeno?” e “por que ele tinha jogado o material fora?”. Em seguida, fala para o jovem estudante procurar o lápis e trazê-lo de volta. Décadas depois, já com 78 anos, Arun Gandhi se lembra da lição que aprendeu naquele dia com seu avô, o líder pacifista indiano Mahatma Gandhi. Mesmo a confecção de algo tão simples como um lápis exige o uso de recursos naturais, e o desperdício é uma violência contra a sociedade.


A história acima foi contada pelo próprio Arun Gandhi a um grupo de jovens e educadores de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, em um diálogo promovido pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), pela Fundação Tide  Setubal e pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), cujo tema foi “Educar para a não violência e a sustentabilidade: é possível?”. O ativista dá continuidade ao trabalho de seu avô por meio da fundação Gandhi Worldwide Education Institute, organização que busca a transformação social por meio da educação.


Nascido na África do Sul, Arun sofreu com a discriminação racial que oprimia e segregava milhares de pessoas no país. “Eu era agredido pelos brancos por ter a pele muito escura, ao mesmo tempo em que era hostilizado pelos negros por ter a pele muito clara”, conta. Certo dia, seu avô sugeriu que ele montasse uma árvore genealógica da violência. Ele deveria analisar suas atitudes e as das pessoas com quem convivia, dividindo-as entre violência física e violência passiva. Aos poucos, ele percebeu que o ramo da violência passiva era o que mais crescia.


Silêncios do medo
Discriminação, provocações e xingamentos são atos que se enquadram nesse tipo de violência e que permeiam o cotidiano da maioria dos educadores e estudantes presentes no encontro. O termo da moda, o bullying, não se encaixa aqui. Não se trata apenas de uma criança cometendo um ato de violência contra a outra, mas sim de um grupo de jovens que enfrenta, no seu dia a dia, situações adversas, como a falta de acesso a recursos básicos.


Os educadores presentes no debate foram convidados a refletir sobre a fala de Arun Gandhi e a partir dela formular respostas para a violência na escola. Para Joseli Perezine, coordenadora pedagógica da EMEF Armando Cridey Righetti, a escola onde trabalha é um centro de violência passiva. “Vemos muitas crianças sendo silenciadas pelo medo. Nós educadores, como agentes de transformação, temos de pensar estratégias para que os alunos reconheçam a violência e falem sobre ela”, diz.


A coordenadora ressalta, entretanto, que a resposta do professor não é sempre serena e reflexiva. Alguns deles preferem mudar de escola para não ter de lidar com as situações de violência. Para combater esse problema, a escola criou o projeto Além dos muros da escola, cujo objetivo é levar os professores à casa dos alunos para conhecer e entender o contexto em que eles vivem, além de articular ações conjuntas entre a família e a escola.


O encontro teve um significado especial para as coordenadoras pedagógicas Marli Viana e Maria Cristina Antoniak, da EMEF José Honório Rodrigues. “Nós temos alguns alunos que tiveram ocorrências sérias de violência contra professores e colegas e hoje estão aqui representando muito bem a escola”, conta Marli. Acompanhadas de 20 de jovens do ensino fundamental II, as professoras ouviram emocionadas o aluno Alexandre Almeida Lima, do 6° ano, ler a frase elaborada pelo grupo: “devemos praticar a não violência e respeitar o próximo como a si mesmo”. O estudante Juan dos Santos Amador conta que as brigas na escola são constantes, mas garante que aprendeu a lição: a violência não leva a nada.


Apesar de reconhecer a importância da educação formal, Gandhi considera que a família tem papel fundamental não só na formação pessoal das crianças, mas também na formação profissional. Sua instituição se baseia em um provérbio que diz “é preciso uma aldeia para educar uma criança”. A partir dessa premissa, seus projetos incluem a participação e o envolvimento das famílias e de toda a comunidade. Em sua fala final, o ativista afirmou enfático: “a educação não começa nem termina na escola; ela é um processo contínuo na vida que acontece por meio de nossas experiências e interações sociais”.

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