Admirável mundo novo

Professores enfrentam o desafio de se adaptar às exigências do ofício no século XXI

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Rubem Barros



Por opção ou sujeição, a escola mudou. É fato. Os alunos, idem. Superexpostos à informação, à tecnologia e aos imperativos do mundo competitivo, com referenciais éticos cada vez menos universais, estão cada um em uma ponta do processo de transformações que ganhou velocidade inédita a partir dos anos 80. E o professor? Espremido pelas demandas de escolas e de alunos, busca meios para redefinir o seu ofício.

Um dos conceitos mais em voga, em virtude do atual cenário, é o da construção de competências, princípio apoiado por organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e adotado pela última Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96). As competências são originárias da adaptação, para o universo da educação, de preceitos adotados pelo mundo do trabalho na década de 80.

O principal artífice dessa passagem é o sociólogo suíço Philippe Perrenoud, que condensa suas idéias a respeito do tema no livro
10 Novas Competências Para Ensinar (leia indicações de leitura na versão impressa)

. Segundo Perrenoud, o eixo do saber do professor é transferido do conhecimento sobre as disciplinas ensinadas para a “faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações”.

E quais seriam as competências que o professor da escola básica deveria desenvolver para responder a contento às demandas educacionais da atualidade?
Educação

ouviu educadores e profissionais da área de Recursos Humanos – muitos deles também professores ou ligados à educação – para alinhavar sugestões de competências (ou, no fundo, direções) que devem estar no horizonte de quem trabalha no ensino básico.

Assumir a própria ignorância: eis o primeiro conselho, um tanto provocativo, do consultor e pedagogo José Emídio Teixeira. “Antes, o professor era um sábio. Hoje, há todo um aparato para que se aprenda por conta própria”, diz. Sua visão é a mesma de Marcos Nascimento, diretor de RH da EDS Brasil e professor de gestão de pessoas da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. “Os professores têm de dar vazão à capacidade de as crianças e adolescentes encontrarem soluções diferentes. O que interessa é trazer experiência”, avalia.

A necessidade de atualização permanente, tanto no que se refere ao universo conceitual como às novas tecnologias, é uma das indicações recorrentes. Para Eloísa Ponzio, diretora de formação contínua e eventos do Pueri Domus Escolas Associadas, o “professor tem de se requalificar para ser a dupla educativa do aluno na busca do conhecimento”. Ela julga importante, no entanto, fazer um alerta. “A formação de professores virou uma indústria, com aglomerados que mais parecem shows de rock. A verdadeira formação é no cotidiano.”.

Para dar conta dessa tarefa, várias escolas contam com unidades de formação de professores, em que sistematizam práticas e trocas de experiências. Para Zélia Cavalcanti, diretora do Centro de Estudos da Escola da Vila, de São Paulo, que realiza programas de formação continuada desde os anos 80, não se pode perder de vista que o modelo de Perrenoud é formulado como um ideal de educador e de educação. “A cada momento e em cada posição, algumas competências passam a ser mais importantes, a ter pesos diferentes”, pondera.

O entendimento do contexto em que se dá a prática didática é justamente outra necessidade muito apontada. Magdalena Jabut, coordenadora do Instituto Superior de Ensino Vera Cruz, destaca em primeiro lugar o gerenciamento da sala de aula, competência que implica exercer vários saberes ao mesmo tempo. “Organizar o tempo e o espaço, saber selecionar os temas, vinculá-los a outros conhecimentos e contextualizá-los, entre outras coisas, fazem parte dessa competência”, diz.

O trabalho em equipe, nos mais diversos níveis de atuação, é outro requisito indispensável. Não só em função de o conhecimento, cada vez mais, ser multidisciplinar, mas também pela necessidade de interação com orientadores, coordenadores, direção, pais e comunidade. Além disso, é preciso conhecer como a escola é gerida para que o professor potencialize sua própria atuação.

A busca por estimular a aprendizagem, a abertura para novas tecnologias, a participação em novas instâncias do cotidiano escolar, a necessidade de formação contínua — nada disso deve fazer com que o docente esqueça dos saberes tradicionais, ligados à formação clássica.

“O educador precisa saber como se formam a personalidade, o indivíduo, as nuances culturais que condicionam seu comportamento, e como a base social influencia as relações entre os diversos grupos”, acrescenta Valério Macucci, professor de graduação e pós-graduação de gestão de pessoas e liderança da Faculdade Ibmec São Paulo. “Precisa estudar psicologia e sociologia, ter formação ética, política e filosófica para saber como a sociedade se forma.” Tarefa que requer também, como se nota, amparo institucional e social.




Efeito colateral



Excesso de avaliações e controles, e um nível de atividades de formação que os levou a desviar o foco da sala de aula: num primeiro momento, esse foi o resultado palpável do movimento das escolas de exigir que os professores participassem da gestão escolar e fizessem cursos de atualização.

“Foi uma sobrecarga de trabalho que resultou no processo contrário ao que se queria”, lembra José Salvador Faro, vice-presidente do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro). “O professor se tornou um executor de tarefas extra-educacionais. Começou a fazer muitas atividades administrativas e poucas no lado pedagógico.” Faro menciona principalmente as fichas de avaliação instituídas pelo Conselho Estadual de Educação paulista, hoje suprimidas.

Para a professora Eli Fabris, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, essa dimensão formalista é um problema da adoção dos critérios de competência. “Ao longo da história, nossas reformas educacionais têm primado pela ênfase na legislação. As mudanças não podem ser textuais, precisam chegar às representações e às práticas sociais”, diz.

“No Brasil, a idéia das competências está muito vinculada à pedagogia por objetivos, cujo paradigma é tecnicista e pragmático”, acrescenta. Para ela, entender o contexto da aprendizagem, ter conhecimento sólido em sua área de formação, criar propostas pedagógicas que tenham significado para os alunos, conhecer as diversas culturas dos jovens, repensar os tempos e espaços da escola, e analisar o currículo a partir das culturas nele presentes são as competências centrais que os docentes devem buscar.




Incluir, em vez de capacitar



Mais do que competências, os professores – e por extensão a educação – ganhariam mais se a eles fosse destinado um tratamento mais respeitoso, com sua inclusão na elaboração dos projetos da escola e na formulação de seus valores. É o que pensa o professor Nilson José Machado, da Faculdade de Educação da USP, sobre o uso do conceito das competências no Brasil, sobretudo no âmbito da escola pública. “A equação ‘preparar melhor para remunerar melhor’ é um equívoco. Os programas de capacitação, quanto mais bem-sucedidos, mais afastam da sala de aula o professor do ensino básico, que acaba indo para o ensino superior”, diz.

Para Machado, todos os cursos de capacitação deveriam ser extintos e o professor da rede pública com titulação acadêmica, remunerado no mesmo nível que os docentes universitários com títulos equivalentes. E o principal: contratação em regime de tempo integral. “Isso permitiria que fizesse atividades de pesquisa e tivesse outras vivências. Tenho convicção de que, no final das contas, não sairia mais caro para o Estado.”

Machado não é contrário à idéia das competências – chegou até a participar de palestras com Philippe Perrenoud -, mas à maneira como é implantada. “Os materiais dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), por exemplo, são minuciosos demais. Dizem como avaliar, como fazer tudo. Tratam os docentes como incompetentes.”

Para ele, a ação do professor tem quatro grandes dimensões: a de cartógrafo de relevâncias (que mapeia e hierarquiza o conhecimento), a de contador de histórias (que utiliza a narrativa para construir significados), a de mediador (que busca uma autoridade legítima, consensual, pelo uso da palavra), e a de tecelão (que tece significados o tempo todo).



Leia mais, na versão impressa:




» Exige-se hoje que o educador seja eficiente também em gestão

» O que se espera do professor e o que se espera da escola

» Como lidar com o avanço da tecnologia e o uso dela na sala de aula

» Indicações de livros sobre o papel do professor na atualidade

» Conheça as principais instituições de ensino que oferecem cursos para formação e qualificação de professores






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