Abaixo as paredes

Em São Paulo, duas escolas públicas e duas da rede particular inovam nas práticas didático-pedagógicas

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Grandes salões que integram alunos de várias séries, umas das características de reorganização das escolas municipais paulistanas Campos Salles (foto) e Amorim Lima

A escola particular paulista Lumiar, fundada em 2002 como a primeira entre as representantes "democráticas" em atividade no Brasil, agora é tida como uma espécie de dissidente dentro do próprio movimento. Mantida pela Fundação Semco, do empresário Ricardo Semler, a escola reconhece que atravessa um período de "reestruturação".

"No sentido estrito, deixou de ser uma escola democrática desde que a mantenedora passou a concentrar a tomada de decisões, no final do ano passado", explica a socióloga Helena Singer. Ela é defensora incondicional do modelo democrático e sonha com a ampliação dessa proposta educacional no Brasil. Esteve à frente da organização do 15º Idec, que há dois anos trouxe ao Brasil lideranças como o israelense Yaacov
Hecht, do Instituto para a Educação Democrática, e mais 170 participantes, de 13 países. Desde 2008, deixou de auxiliar a escola Lumiar, da qual chegou a ser diretora pedagógica,  para se dedicar ao projeto da Politeia, a primeira incubadora de escolas democráticas no Brasil.

A entidade também atende educadores e escolas e promove o curso de especialização em educação democrática. O esforço começa a dar frutos. Este ano, a sede da entidade passou a abrigar a  primeira escola incubada, resultado de sua aproximação com o projeto da Teia Multicultural, da educadora Georgya Correa. De novo, assim como a Lumiar, tanto a Teia quanto o projeto experimental da Escola Politeia são representantes da rede particular.

Entre as experiências na rede pública, Helena identifica como democráticas as práticas da Amorim Lima e da Campos Salles, além do Cieja Campo Limpo, todas da rede municipal. Ainda que essas escolas não se reconheçam sob o  rótulo de democráticas, vêm construindo experiências alternativas. 


Novos caminhos


Localizada no bairro paulistano do Butantã, a EM Desembargador Amorim Lima ganha notoriedade – e respeito – com um projeto pedagógico inspirado na portuguesa Escola da Ponte. A mudança começou em 1996, quando a pedagoga Ana Elisa Siqueira assumiu a direção da escola. Desde então, a Amorim passou a ocupar as páginas de jornais e revistas, despertando o interesse e a curiosidade de todos. A razão é simples. Basta cruzar os muros da escola e circular pelo seu entorno para perceber que algo diferente acontece por ali.

As paredes acinzentadas e as muitas grades que confinavam diversos ambientes da escola não existem mais. Foram alvo de uma das primeiras iniciativas, quando o desafio estava apenas começando. A aprovação das crianças foi imediata, expressa na voz de uma aluna que colocou claramente o sentimento que partilhava com os colegas. 

"Diretora, ainda bem que a senhora tirou as grades. A gente não é doido nem bandido pra ficar preso, né?"
A Amorim também reordenou os espaços de ensino-aprendizagem. As classes convencionais cederam espaço a enormes salões, onde professores polivalentes trabalham de forma integrada com os estudantes.

Foi um divisor de águas. Começou em 2005, quando a secretaria municipal de Educação resolveu bancar o projeto da consultora educacional Rosely Sayão, inspirado no exemplo da Ponte, e dar carta branca às mudanças.

"Ninguém sabia o que fazer com aquela escola horrorosa, que não dava nem pra remendar", diz a diretora, Ana Elisa Siqueira. "Foi quando a gente teve a felicidade de se deparar com a experiência portuguesa, que nos apontou caminhos", recorda.


O lugar da autoridade


O primeiro ano foi um desafio.  Exatas 105 crianças de 1ª série e outras tantas da 5ª dividiram o espaço do salão pela primeira vez. Agora, são elas que decidem o conteúdo a ser estudado, sob a supervisão de um tutor. Afinal, a busca da autonomia é um valor matricial do projeto, assim como a disposição da Amorim de contemplar, na prática, os diferentes modos e tempos de aprender.

E a figura do professor?  Há assimetrias na sala de aula? "O projeto só sobreviveu porque os professores encontraram o lugar da autoridade", sublinha Ana Elisa.  "Não é uma estrutura horizontal. O projeto confere uma importância absoluta aos educadores, que estão hoje em uma posição ainda mais destacada no contexto da escola", esclarece.

Mas nem tudo foi fácil. No início, a escola enfrentou dificuldades para se adaptar à nova dinâmica, longe das aulas expositivas tradicionais. "A verdade é que não conseguíamos dar conta do conteúdo curricular", confessa a diretora. O trabalho voluntário de um pai de aluno, o linguista Geraldo Tadeu de Souza, da Universidade de São Paulo, resolveu a questão. À procura de um objeto de pesquisa para o seu pós-doutorado, Souza se debruçou sobre pilhas de livros didáticos e, a partir deles, promoveu toda a adaptação curricular, definindo diferentes roteiros temáticos que servem de base à produção dos alunos e privilegiam a transversalidade. 

A Amorim Lima também inova ao estabelecer – e fazer valer – regras fixadas pelo conjunto da escola. São os "Princípios de convivência" que balizam as relações em seu  interior. Em função do pioneirismo, a Amorim Lima, literalmente, começa a fazer escola. Quem segue os passos da precursora é a Emef Presidente Campos Salles, de costas para o bairro de São João Clímaco e a favela de Heliópolis, a maior da capital paulista.


Bairro educador


O educador é figura conhecida em Heliópolis. Braz Rodrigues Nogueira é diretor da Campos Salles desde 2005 e trabalha com a perspectiva de aproximar escola e comunidade. Foi da construção desse  vínculo que partiram os pilares que hoje guiam não apenas o projeto político-pedagógico da escola,  mas o compromisso de transformar Heliópolis em um bairro educador.

"O primeiro princípio é que tudo passa pela educação, o que não quer dizer que passa só pela escola", distingue Nogueira. "Todas as instituições, da família ao Estado, têm a tarefa de educar", esclarece.

Outro princípio defendido em prol da construção do bairro educador é a visão da escola como um centro de liderança, capaz de atuar de forma articulada com outras lideranças locais, com o objetivo de promover uma transformação social, "com base na  justiça, na autonomia e na democracia".

Mas o  que o diretor percebeu depressa é que não bastava discursar sobre a mudança ou definir uma carta de princípios sem antes transformar a relação professor-aluno. Ao final de 2005, levou essa preocupação ao conselho da escola. Desse encontro surgiram três novos princípios: o compromisso com a autonomia, a responsabilidade e a solidariedade.


Barreiras


"É a tentativa de encontrar um novo caminho para a educação", resume Nogueira. Atenta aos passos da Amorim Lima e da inspiradora Escola da Ponte, também a Campos Salles mudou radicalmente as relações espaciais da escola. Ao final de 2007, 13 classes se transformaram em quatro grandes salões. Foi uma mudança e tanto, sempre com a sustentação da comunidade.

No projeto pedagógico da Campos Salles, Nogueira explica a razão desses novos espaços coletivos. Quebrar as paredes tem aqui o significado de eliminar as barreiras que separam as áreas do conhecimento, as disciplinas estanques, que não dialogam. "Os professores, agora, têm de trabalhar em equipe", justifica, assim como os alunos, que trabalham em grupos de quatro, integrados no salão. 

"O que articula todo mundo é o roteiro de estudo, que o conjunto de professores prepara com antecedência", explica. "É um roteiro quinzenal, com atividades obrigatórias e outras opcionais. Então, ele só termina quando a criança estiver pronta, a seu tempo", esclarece.

É a partir do roteiro que a criança exercita sua autonomia. Cada  grupo de estudantes tem a liberdade de começar o roteiro por matemática, português ou outro conteúdo que desejar.

As aulas expositivas ainda têm seu lugar, realizadas em classes convencionais, para a apresentação de cada novo roteiro de estudo. Apesar das mudanças, a escola não se furta ao convívio com instrumentos da educação tradicional, como a avaliação. "Vivemos um processo, ainda há muito que fazer, mas as avaliações externas, como a Provinha São Paulo, já mostram que nossos alunos têm superado seu próprio desempenho", completa.


Arte e autoconhecimento


No bairro paulistano das Perdizes, zona oeste da capital,  uma escola dedicada à educação infantil e à primeira etapa do ensino fundamental também exibe uma proposta diferenciada. Hoje com 72 alunos, a Teia Multicultural é, na definição de suas idealizadoras, a realização de um sonho. "O sonho de educadoras que acreditam que a educação pode ser diferente, que o aprender pode acontecer de maneira prazerosa e significativa para as crianças, sem aquele autoritarismo tradicional, em que somente o professor tem o saber", define a Teia em sua página na internet.


Diferentes roteiros temáticos servem de base à produção dos alunos e privilegiam a transversalidade

A ideia vem de Georgya Correa, hoje diretora pedagógica e cultural, e Rosa Bertholini, que responde pela direção administrativa. Em atividade desde 2006, a escola se assume como democrática e tem como orientação didático-pedagógica o que denomina de educação multicultural. O teatro e a dramatização estão no centro da proposta, que recorre a outras formas de expressão cultural como ferramentas de ensino. A grande diferença é que o teatro, a música ou a dança não aparecem como meros instrumentos de apoio, mas assumem o protagonismo, como condição primeira, ponto de partida para o processo de ensino-aprendizagem. Não há um currículo formal a ser seguido, nem isso tem importância no projeto da escola.

"Intimamente ligada à cultura, a Teia não prioriza tanto a apropriação dos conteúdos do saber universal em si mesmos, mas o processo do conhecimento e suas finalidades", volta a explicar a página da internet. A diretora pedagógica procura dar sentido prático ao exposto no conteúdo digital. "Eu não sou "conteudista", mas ao mesmo tempo tenho os Parâmetros Curriculares como referência. O que não existe aqui é aquela coisa enciclopédica", diz. 


Artistas e tutores


No lugar da figura do professor, a Teia Multicultural  trabalha com 11 especialistas, os "artistas", segundo a designação da escola, profissionais que não obrigatoriamente têm formação na área educacional. São eles que trabalham, por exemplo, conteúdos como jogos e brincadeiras, música, artes e inglês. Ao lado deles, cada turma tem seu próprio tutor, este sim com formação em pedagogia. Não há livro didático nem provas formais de avaliação. 

A arquitetura da escola também não concebe propriamente o espaço convencional da sala de aula, mas salas-ambientes, que se apresentam como áreas de convivência. Ali, os alunos se aproximam pelo corte etário, em ciclos de dois anos – do primeiro ciclo da educação infantil (3 e 4 anos) até o último da primeira etapa do fundamental (9 e 10 anos). É nessas turmas que a proposta de ensino-aprendizagem se constrói, apoiada em dois projetos anuais. Um é escolhido pela turma no início do período escolar e absorve as crianças durante todo o primeiro semestre. Outro é coletivo: a montagem de uma peça de teatro, que marca o encerramento das atividades da escola.

"Eles fazem de tudo: cenário, figurino, adereços, música, cartazes  – tudo é produção deles, que também criam uma grande instalação aqui na escola para mostrar o processo de todo o trabalho", diz Georgya. 

Ela reflete na Teia muito de sua própria experiência de vida. Filha do diretor teatral Tannah Correa, Georgya cresceu em estreita ligação com a dramaturgia. Aos 10 anos, foi com a mãe para uma comunidade em Poona, na Índia, onde estudou em  uma escola alternativa, fundamentada nas artes e no autoconhecimento.  Descreve uma comunidade com crianças de várias partes do mundo, em que o teatro e as artes eram  a grande linguagem universal. Não chega a surpreender a intenção de reproduzir o modelo. "Dentro do projeto da Teia, definimos como essencial tornar a escola um espaço de autoconhecimento, com ênfase na questão da arte e na visão democrática", completa Georgya.

E é exatamente a afinidade da Teia Multicultural com o modelo dito democrático que marcou a aproximação da escola com a Politeia,  que abriga desde o início de 2009 o primeiro ciclo do fundamental II da Teia Multicultural. A "incubada" é batizada de Escola Politeia e conta com 15 crianças matriculadas.

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