A vocação universitária

O objetivo da experiência acadêmica não deve ser o desenvolvimento econômico

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A universidade brasileira assistiu a uma expansão significativa na última década. Com a abertura de novas universidades públicas, um contingente expressivo de jovens passou a ter acesso ao ensino superior, um segmento da educação até então bastante elitizado. A democratização do acesso à formação superior deve ser saudada como uma iniciativa importante e todos os esforços no sentido de sua ampliação – sobretudo a partir da oferta de novas vagas no sistema público – podem representar um passo decisivo para a melhoria geral da qualidade da educação, inclusive no que concerne ao ensino fundamental e médio. Isso porque a formação de professores nas universidades públicas é, em geral, superior àquela oferecida pela maioria das instituições privadas.

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Mas uma transformação dessa envergadura não se faz sem riscos. Muitos têm alertado para o perigo da precarização das condições de trabalho no ensino superior e para a necessidade de implantação de políticas de acolhimento, acompanhamento e apoio a esse novo contingente de alunos que a ele passou a ter acesso. Há, contudo, um risco que, por ser menos evidente, tem sido praticamente ignorado pela mídia e pela própria comunidade acadêmica: o esvanecimento do potencial emancipador e crítico da experiência universitária em favor de um ideal pragmático segundo o qual a única – ou principal – razão de ser da formação universitária é a preparação profissional e o desenvolvimento tecnológico.

É evidente que esses dois aspectos não podem ser negligenciados em uma sociedade cujo desenvolvimento econômico demanda uma busca constante por inovação técnica que gera, por sua vez, uma carência crescente de mão de obra especializada. No entanto, o atendimento a imperativos econômicos não deve obliterar a tradição crítica que marca a instituição universitária; uma tradição que remonta pelo menos ao século XIV e que se traduz no ideal de uma formação liberal. Em seu sentido acadêmico o adjetivo “liberal” não se refere a uma doutrina política nem a uma ordem econômica marcada pelo livre mercado (cuja emergência só ocorrerá séculos mais tarde!), mas antes a um aprendizado liberado de qualquer aplicabilidade prática. Sua importância não reside nos bens econômicos que possa gerar, mas em seu potencial emancipador.

Em sua versão clássica os estudos liberais voltavam-se para a história, a literatura e a filosofia antigas, então consideradas como as disciplinas capazes de promover um diálogo do presente com a herança de realizações culturais que marcaram a busca humana pela compreensão de sua condição histórica e existencial. A esse legado clássico a modernidade adicionou as ciências da natureza e, posteriormente, as ciências sociais. Permanecer fiel a essa herança não implica reeditar seus conteúdos, mas atualizar seus princípios. Noutras palavras implica reconhecer que o principal objetivo da experiência universitária não é o desenvolvimento econômico, mas a capacidade humana de autocompreensão de sua condição existencial.

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