A vírgula sem humilhação

Um sinal a mais ou a menos pode causar pequenos estragos

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Houve tempo em que professores de português ensinavam que vírgula serve para marcar pausas. E ficavam nisso, de forma que um aluno com dificuldade respiratória ou um balbo ou tartamudo, também conhecido pelo nome politicamente incorreto de gago, como o "Gago Apaixonado", do Noel Rosa, se sentiam compelidos a virgular compulsivamente.

Claro que o uso da vírgula serve para marcar pausas, mas vai muito além disso. Se um escriba dá uma parada para tomar café ou ir alhures, está fazendo uma pausa. Nem por isso precisa tascar uma vírgula à obra-prima que está a esculpir. Exagero, claro, apenas para acentuar que o uso da vírgula tem suas complexidades e nem toda pausa deve ser marcada por esse sinal. Eventualmente, pode-se usar o travessão.

O que importa aqui é a vírgula. Ela separa elementos que exercem a mesma função sintática, alguns tipos de orações, termos explicativos e por aí vai. Mas marca também expressões rápidas não evidentes por pausa na fala, como "sim, senhor" e "não, senhor".


Sentidos da frase

A propósito, convém acentuar que a falta dela às vezes afeta profundamente o sentido da frase. Foi o que ocorreu com um período escrito pelo ombudsman da Folha de S.Paulo, que, por certo, sabe virgular. De todo modo, foi responsável pela seguinte frase:

"O que há de novo nestes dias é a tentativa, na minha opinião irresponsável, de colocar a grande imprensa como participante de um golpe."

Com essa disposição de palavras e tal virgulação, manifestou "opinião irresponsável", num pequeno engano virgulatório. Ele quis dizer:

"O que há de novo nestes dias é a tentativa, na minha opinião, (vírgula), irresponsável, de colocar a grande imprensa como participante de um golpe."

Pouco feliz foi também ao intercalar a explicação ("na minha opinião"), que ficaria melhor se inserida depois da pausa natural – exemplo de pausa não virgulada -, que ocorre antes do verbo "é":

"O que há de novo nestes dias (vírgula), na minha opinião, (vírgula), é a tentativa irresponsável de colocar a grande imprensa como participante de um golpe."

Por que inserir a explicação "na minha opinião" entre o substantivo ("tentativa") e seu adjetivo ("irresponsável"), em corte tão violento? Aliás, por que introduzir a dispensável inserção, se tudo o que um ombudsman escreve como ombudsman expressa a opinião dele e de ninguém mais?

Com a inserção, ele provavelmente quis acentuar o adjetivo, dar mais peso a ele. Só que a falta da vírgula causou um pequeno desastre formal. Nada que um leitor atento e tolerante deixe de compreender como acidente de trabalho.


Possibilidades

Sem a desnecessária cunha explicativa, o período poderia ser um dos seguintes:

"Nestes dias, o que há de novo é a tentativa irresponsável de colocar a grande imprensa como participante de um golpe."

Ou:

"O que há de novo, nestes dias, é a tentativa irresponsável de colocar a grande imprensa como participante de um golpe."

Ou sem vírgulas, fluente e fluvial:

"O que há de novo nestes dias é a tentativa irresponsável de colocar a grande imprensa como participante de um golpe."


Pegadinhas com pontuação

Os exercícios abaixo, alguns já conhecidos, juntam um pouco de malícia e "pegadinha" (palavra que os dicionários ainda não registram, com o sentido de brincadeira ardilosa)


1 Acentue e pontue adequadamente a mensagem que se lê no botão do painel de alguns elevadores para que ela tenha sentido:

PREMER PARA PUXAR PARTE


2 Pontue a frase e descubra seu significado:

UM FAZENDEIRO TINHA UM BEZERRO E A MÃE DO FAZENDEIRO TAMBÉM ERA O PAI DO BEZERRO


3 Um soldado foi convocado para a guerra e recebeu o seguinte telegrama:

IRAS VOLTARAS NÃO MORRERAS

Acentue e pontue a frase de forma que haja duas interpretações: uma favorável e outra desfavorável ao soldado.


4 Pontue de duas maneiras distintas a fim de obter sentidos diferentes:

a) CAROLINA NOSSA SECRETÁRIA COMPROU UM AUTOMÓVEL

b) CAROLINA NOSSA SECRETÁRIA COMPROU UM AUTOMÓVEL.


5 Pontue a frase abaixo para dar-lhe sentido:

MARIA ANTES DO BANHO SUA MÃE DIZ ELA TRAGA A TOALHA.


RESPOSTAS:

1 PREMER, PÁRA. PUXAR, PARTE.

Nota: premer, verbo pouco usado, significa apertar. E a forma verbal pára, de parar, é acentuada para diferir da usadíssima preposição para.

2 UM FAZENDEIRO TINHA UM BEZERRO E A MÃE. DO FAZENDEIRO TAMBÉM ERA O PAI DO BEZERRO.

Nota: o período está longe de ser elegante, mas faz sentido.

3 a) IRÁS, VOLTARÁS; NÃO MORRERÁS. Ou: IRÁS, VOLTARÁS. NÃO MORRERÁS.

b) IRÁS. VOLTARÁS? NÃO. MORRERÁS. Ou: IRÁS. VOLTARÁS? NÃO, MORRERÁS.

4 a) CAROLINA, NOSSA SECRETÁRIA COMPROU UM AUTOMÓVEL

b) CAROLINA, NOSSA SECRETÁRIA, COMPROU UM AUTOMÓVEL.

5 MARIA, ANTES DO BANHO, SUA. MÃE, DIZ ELA, TRAGA A TOALHA.

Nota: raramente se pensa em sua, do verbo suar, palavra homônima, homógrafa e homófona do possessivo sua.

Indicações de leitura

Como diria um desses simpáticos políticos, vírgula é o principal capítulo da pontuação, e as gramáticas se detêm mais ou menos sobre o assunto. Há livros inteiros sobre pontuação e o uso da vírgula:


  • Arte de Pontuar, Alexandre Passos,


    Irmãos Pongetti Editores, RJ, 1959;


  • Tudo sobre a Vírgula, J. Ferraz Freitas,

    Edições de Ouro, RJ, 1962;


  • Só Vírgula – Método Fácil em Vinte Lições, de Maria Tereza de Queiroz Piacentini,

    Editora da UFSCar, SC, 1996;


  • Uso da Virgula, Thaís Nicoleti de Camargo,

    Editora Manole, SP, 2005.

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