A vida imaginada

Nada vale a pena quando só temos rotinas e burocracias, cobranças e pressões. Até que a imaginação começa a funcionar

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A leitura nos ensina a reler o cotidiano. Se a escola não é o lugar da leitura e da imaginação, torna-se cansativa e enfadonha. Ficamos dando voltas sem sair da mesmice. O mais do mesmo é o menos possível. Imaginar significa repensar os significados.


O personagem Milo, de Tudo depende de como você vê as coisas, do norte-americano Norton Juster (Cia. das Letras, 1999), está mergulhado em pensamentos sombrios. Para que estudar? Para que perder tanto tempo dentro de uma sala de aula? Para que existem professores? Ele não vê sentido em aprender operações matemáticas, regras e exceções ortográficas, e a localização da Etiópia, por exemplo. Tudo é nada…
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É que nada vale a pena quando só temos rotinas e burocracias, cobranças e pressões. Nada é atrativo e interessante numa longa fila que anda devagar. Até que a imaginação começa a funcionar, e Milo entra numa inesperada aventura. O faz de conta nos faz contar novas histórias para nós mesmos.


O primeiro destino de Milo é a terra das Expectativas, pela qual todos têm de passar para ir mais longe. Ir além das expectativas é o princípio básico das viagens imaginárias. O próximo destino é Dicionópolis, metrópole de um reino feliz, à margem do mar do Conhecimento.


Imaginar palavras
A imaginação inventa uma vida cheia de possibilidades. Mas será preciso criar novas palavras para expressá-la. Em Dicionópolis, aprendemos a quebrar a monotonia verbal. Milo chega na companhia de Toque, um cãonômetro que nos lembra a importância do tempo. E é recepcionado por cinco personagens elegantes e eloquentes: o Duque da Definição, o Ministro do Significado, o Barão da Essência, o Conde da Conotação e o Subsecretário da Compreensão. Sem eles, é impossível conversar com entusiasmo e precisão. O imaginário nada tem a ver com o caótico.


No mundo imaginário, o dinheiro nasce nas árvores, e obviamente também as palavras! E essas árvores tão ricas e fecundas se encontram em Dicionópolis. Outra possibilidade é procurar um vendedor de letras e montar neologismos, tão necessários para que possamos comunicar coisas inéditas.


A economia de Dicionópolis se baseia na produção e no comércio das palavras. A frase “o silêncio é de ouro” pode causar uma crise, gerando escassez e pobreza. Mas também é perigoso o consumismo verbal. Períodos de verborragia acarretam grande desequilíbrio financeiro. Daí a necessidade de uma educação para a palavra. Usar a quantidade certa, evitando o excesso sem cair em perigosos laconismos.


No início era o nada…
Tempos atrás, na “terra do Nada”, nada havia a se dizer. Os demônios mudos ocupavam extensas regiões e os ventos assustadores afastavam qualquer ser humano que ousasse aparecer por ali. Mas corajosos conquistadores se aventuraram e começaram a construir ali o reino da Sabedoria. Nesse reino nasceram duas cidades, Dicionópolis, a cidade das palavras, e Digitópolis, a cidade dos números. É uma pena que vivam em guerra, disputando a primazia do conhecimento. A esperança é que as duas se reconciliem, pois os números e as palavras têm igual valor na busca da sabedoria.


Para que a vida imaginada não seja refém de uma guerra tão inútil, e se perca em conflitos internos, é preciso colocar ordem na casa. Precisamos, portanto, que duas princesas venham habitar e cuidar do mundo da imaginação: a princesa Rima e a princesa Razão, exiladas no Castelo no Ar. Resgatá-las será a missão do personagem Milo e seu fiel cãonômetro. Nesta viagem, os dois heróis encontram Alex Loisas, menino que vive levitando e tem uma teo­ria sobre como as pessoas veem o mundo.


Visões de mundo
Alex consegue ver através das coisas. Esta é sua forma de ver o mundo. Sua especialidade. Se soubermos adotar essa visão, poderemos descobrir as causas de muitas coisas. Mas na família Loisas há outros modos de enxergar a realidade, como explica Alex:


Meu pai prevê as coisas, minha mãe revê as coisas, meu irmão entrevê as coisas, meu tio vê o outro lado de todas as questões e minha irmã Alice vê o que existe debaixo das coisas.


Na escola, seria ótimo ampliar nossa visão, aprendendo com outros pontos de vista. Ninguém é onividente, mas podemos ouvir melhor o que os outros veem.


Para que a vida imaginada torne a vida real mais rica e interessante, é preciso que as visões de mundo conversem entre si. Por que a escola não acolhe essa conversa? Por exemplo, se encontramos um gigante do nosso tamanho, por que não pensar que ele é o menor gigante do mundo? Se nos sentimos perdidos, será que realmente estamos perdidos, ou já chegamos ao lugar para onde estávamos indo?


Tudo depende de como você vê as coisas pode ser leitura inspiradora para revisarmos e reescrevermos nossos projetos político-pedagógicos.


*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

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