A vergonha do marketing educativo

Privatização do ensino figura como fenômeno não apenas empresarial, mas antropológico

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Passada a avalanche avaliativa de final de ano, as férias escolares deveriam representar um momento de trégua do palavrório pedagógico. Mas não. Trata-se da época áurea do marketing educativo privado (intensificado nos últimos meses do ano), cuja expressão máxima é a propaganda do ensino superior, emblemática da intensa movimentação do setor que se estende desde as creches até os famigerados MBAs. 

Mediante os lucros estratosféricos do “negócio”, estamos assistindo, nas últimas décadas, à aurora de verdadeiras corporações ditas educacionais. A vertiginosa privatização do ensino figura como um fenômeno não apenas empresarial, mas antropológico, já que uma prática impulsionada por um marketing agressivo e abençoada por quase todos.  

Alheia a qualquer prescrição legal ou apelo ético, a maioria dos estabelecimentos de ensino privado veicula uma propaganda à base de
slogans

tão mirabolantes quanto falaciosos, escancarados despudoradamente em
outdoors

, televisão, jornais e revistas. Cada vez mais arrojados, os anúncios desse tipo tomam de assalto os espaços de circulação da informação, provocando uma overdose cognitiva, cuja eficácia calculada é, obviamente, resultado da reiteração
ad nauseum

.

Se, como forma, a estratégia mercadológica é a da repetição, como conteúdo, ela é a da profecia nada auto-realizadora. Prega-se um salto de
status

profissional (logo, sócioeconômico) ante um mundo competitivo, mas omite-se por completo que a empregabilidade segue uma lógica adversa à formação escolar. Exonera-se da obrigação de dar a conhecer, por exemplo, que a imensa maioria dos formados em administração, direito, psicologia, jornalismo etc. jamais encontrará colocação em sua área de formação. Propaganda da pior espécie, portanto. Propaganda mais que enganosa. Propaganda inescrupulosa.   

Meticulosas linhas de montagem de diplomas sem vazão profissional alguma. Centenas de milhares de salas de aula movidas à força de trabalho mal remunerado dos tais mestres e doutores formados com dinheiro público. Arranha-céus gigantescos alterando a paisagem das cidades, construídos a partir da esperança ingênua e dos tostões pingados de uma parcela crescente da população em busca do
americam dream

, o qual se efetiva – ao cubo do cubo, frise-se – apenas para os anônimos, quase invisíveis, proprietários do empreendimento.

Canto de sereia, o marketing educativo vem se firmando como o braço forte da negociata educativa privada – uma aberração ético-política cuja conivência de outros setores sociais é espantosa, em particular da mídia. Não seria equivocado suspeitar que, nessa época do ano, boa parte do orçamento dos meios de comunicação provenha daí.

Saídas? Uma, tão-somente: a interdição definitiva de toda e qualquer propaganda que envolva prestação de serviços educativos.

Outro desejo quimérico, agora de férias.




Julio Groppa Aquino é professor da Faculdade de Educação da USP

E-mail:



julio.groppa@editorasegmento.com.br



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