A vara

A coerção física e a missão educativa do traseiro

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No século primeiro, um Paulo amorosamente converso enviava cartas aos corintos: Se não tiver amor, nada serei. O amor é paciente, é benigno. No século 21, deparo com um outro texto, alegadamente inspirado nas Escrituras, mas cujo conteúdo se situa nos antípodas das epístolas de Paulo de Tarso. Depois do que ides ler, não vos surpreendais, se ouvirdes afirmar que todas as guerras foram feitas em nome de Deus.

Chegou às minhas mãos uma obra publicada no Brasil. Nela se pode ler: O objectivo no presente trabalho é fazer uma análise detalhada do uso da vara, do ponto de vista de Deus. Assim, tal e qual! Ainda pensei tratar-se de uma referência ao pedagogo João de Deus, mas, continuando a leitura, vi que não era – era mesmo ao Deus de Abraão que o autor da obra se referia.

Vinte séculos decorridos sobre o Sermão da Montanha, eis mais um triste exemplo da barbárie fundamentalista, em 67 páginas de instruções aos pais. Se o leitor souber conter a náusea, poderá continuar a leitura: Um dos obstáculos à disciplina é o pensamento humanista. A vara veio de Deus. Foi ele quem ordenou que os pais batessem nos filhos como expressão do seu amor por eles. A aplicação da vara tem por objectivo corrigir na criança os elementos que podem impedi-la de obedecer ao Senhor com alegria. Vemos a importância da obediência completa no caso da obediência parcial do rei Saul. Deus havia ordenado que ele destruísse todos os amalequitas, inclusive o gado deles…

Ou seja, o pobre gado sofre os efeitos das crises de humor do Deus cruel e vingativo de leituras lineares das Escrituras. Mas, nos Provérbios, 23,13,14, são as crianças que sofrem: Se fustigares a criança com a vara, livrarás a sua alma do Inferno. Estas palavras recordaram-me as de Thiers, quando discursava na Comissão Sobre a Instrução Primária: Desejo tornar omnipotente a influência do clero, conto com ele para propagar a saudável filosofia que ensina ao homem que ele está aqui na Terra para sofrer.

O autor da obra é rigoroso na descrição da técnica: Fustigar significa bater de maneira correcta. Embora a vara nunca seja realmente uma experiência agradável, se aplicada adequadamente, produz benefícios duradouros. É o instrumento mais eficaz, porque, apesar de bastante dolorida, não provoca lesão física. A correia, embora seja flexível, não é tão eficaz quanto a vara, e também pode machucar a criança.

Para abreviar o absurdo, concluo com algumas “recomendações” contidas no livro: Deus forneceu aos pais o lugar ideal para ministrar as varadas – o traseiro da criança. É um lugar que não oferece perigos, porque é bem recheado, mas mesmo assim bastante sensível. Para que o castigo tenha valor, é importante um bom toque físico. É verdade que o exercício dessa disciplina em amor, ao bater, dá trabalho, mas tem que ser feita em obediência ao mandamento da Palavra de Deus.

Ficamos sabendo quem inventou o traseiro que temos e para que serve. Juro que não inventei tais obscenidades. E creio que o autor da obra citada não deverá ter lido Epicuro, um dos vates da cultura clássica grega, na qual os autores dos textos bíblicos colheram inspiração: os seres humanos não devem ser coagidos, mas persuadidos. Os fervorosos adeptos da vara “pedagogicamente” utilizada também ignoram que, para ser virtuoso, não é necessário destruir a vida afectiva e atentar contra a alegria.

Certas “leituras” bíblicas fazem-me evocar o saudoso Abbé Pierre, quando dizia: Dou-me conta, ao escrever “Deus”, de como as palavras se cansam, se gastam. Pois não escrevia Hitler, no cinturão dos SS, “Deus está connosco”.?



José Pacheco – Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal) –



josepacheco@editorasegmento.com.br

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