A singularidade como marca do humano

Quando o educador é sujeito de seus processos e avaliações

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Moana tem quase três anos e desde março de 2009 passou a frequentar a creche central da USP. Em dezembro recebi seu primeiro relatório de uma instituição educacional. Descrevia a atividade de seu grupo e, em pequenos ‘boxes’, observações sobre suas atitudes, reações, progressos, problemas. Num deles a professora menciona seu fascínio pelas cores. Noutro sua intolerância ao barulho, seu encantamento pelos livros e histórias. Há o rito, que lhe é tão característico, de cantar e narrar antes de dormir, como quem se assegura do que houve e do que está por vir.

De minha parte havia reconhecimento, surpresas e gratidão por um olhar atento e sensível, capaz de distinguir já numa criança a singularidade como marca do humano. E não pude deixar de me imaginar daqui a cerca de 15 anos, tendo, por exemplo, um relatório do Enem em mãos. Seria capaz de reconhecer a singularidade de Moana nos percentuais que supostamente mensurariam com precisão matemática seu domínio em cada uma daquelas ‘competências’?  Esses números precisos, com requinte de casas decimais, dariam um retrato mais ‘objetivo’ de seu desempenho, suas conquistas e necessidades do que as observações de Margarete e Patrícia? E seus professores, reconheceriam naqueles números o resultado de seus esforços? E Moana? Neles vislumbraria algum sentido?

Até quando a educação infantil permanecerá imune à fúria das avaliações padronizadas? Livre da substituição do discernimento do professor pelo alegado rigor de um instrumento técnico cujos princípios e a operacionalidade ele desconhece? Irá também esse segmento da educação gradativamente desenvolver uma escala de grandeza matemática que dispense a palavra – precisa ou poética – do professor? Até quando o educador infantil permanecerá senhor de seus juízos e avaliações, sujeito de um processo ao final do qual ele se reconhece como autor?

Não pretendo negar a necessidade de grandes avaliações sistêmicas que, se benfeitas, podem auxiliar na elaboração de metas de políticas públicas. Mas crer que elas possam substituir o penoso, mas necessário, processo singular de ajuizamento de um professor acerca do desempenho de seus alunos é uma quimera. Um sonho – ou pesadelo – da tecnoburocracia cujas metas são a desconsideração da contingência, a ignorância da singularidade e a afirmação da superfluidade do humano.


José Sérgio Fonseca de Carvalho


Doutor em filosofia da educação pela Feusp



jsfc@editorasegmento.com.br

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