“A resistência é um fator positivo”

É o que diz a pesquisadora Vera Gaspar da Silva, da Universidade Estadual de Santa Catarina, sobre a postura dos docentes ante a avaliação

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Vera Gaspar, da Udesc: desde Rui Barbosa já se associava má qualidade educacional ao despreparo docente

A avaliação só surtirá efeito se realizada com o engajamento dos professores, afirma Vera Lúcia Gaspar da Silva, professora titular do Centro de Ciências Humanas e da Educação da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc). Especialista em História da Educação, Vera Gaspar fala também sobre a carreira docente, que sofreu grande modificação ao longo do tempo. Uma das profissões públicas mais antigas do país, atraiu muita gente. Atualmente, bônus salariais estão eventualmente vinculados a avaliações. Mas Vera Gaspar conta que, na virada entre os séculos 19 e 20, eram concedidos alguns pequenos privilégios e honrarias, definidos por ela como "armadilhas da sedução" em sua tese de doutorado defendida na USP.


Apesar de ser um trabalhador como outro, com direitos e obrigações trabalhistas, o professor cumpre um papel social. Então ele deve ser avaliado como um profissional-empregado ou deve ter tratamento diferenciado?


Em primeiro lugar, entendo os professores como integrantes de uma categoria profissional. É importante localizar a origem da profissão: considera-se o magistério como uma das profissões públicas mais antigas, uma das primeiras – talvez mesmo a primeira – a ser regulamentada pelos estados, com estatuto próprio, plano de carreira, escolas de formação e tudo o que envolve a consolidação de uma profissão. Um contingente profissional que, considerando-se o ensino primário –  hoje, as séries iniciais do ensino básico -,  se amplia de maneira bastante significativa no mundo ocidental na virada do século 19 para o 20, com a difusão dos sistemas públicos de ensino. Em sua origem, esse profissional vai ocupar o que o educador português António Nóvoa nomeou como um lugar intermédio: por sua formação e papel, ele, mesmo que tenha origem nas classes populares, não mais pertence a esse lugar ,mas, embora se localize num território privilegiado, não chega a tomar posto nas camadas sociais mais altas.


Mas isso se modificou…


Certamente, temos hoje uma realidade que se distancia um pouco disso. Outras profissões surgiram, outras instituições nasceram, as demandas sociais se modificaram. Contudo, apesar de um conjunto de críticas que se faz à escola, continuo considerando-a uma instituição bem-sucedida.  Mesmo vendo-a uma instituição fundamental, entendo que o trabalhador da educação é um trabalhador como outros e que deve ser tratado com a dignidade que deve recair sobre todos. O que me incomoda  nas propostas de avaliação é que, em geral, simplificam o problema e os dispositivos têm servido muito mais para responsabilizar o professor pelo "fracasso escolar" do que para organizar protocolos de melhoria do ensino.


Sabe-se que existem restrições dos professores em relação a serem avaliados. A que se deve isso?

Considero a resistência um fator positivo. Se os professores resistem é porque têm um território a defender. Isso não significa ser contra qualquer forma de avaliação, mas entendo que só surtirá efeito uma iniciativa que conte com o engajamento dos professores. Insisto em defender que os professores são os mais interessados em encontrar caminhos para a superação de um conjunto de dificuldades que hoje adentram as escolas, como a violência, o consumismo exacerbado e que deseduca, dificuldades das crianças em compreender a lógica dos conteúdos escolares, dificuldades das famílias em ter uma presença mais efetiva na vida das crianças, entre outras. Essas dificuldades não foram construídas unicamente pelos professores ou somente dentro das escolas, e é neste cenário que os problemas precisam ser colocados. 
 

Qual a forma mais adequada para se avaliar um professor?


Penso que a questão deve ser colocada de outra forma: o que falta aos professores para que consigam desempenhar melhor seu papel? Assim, diria que falta uma formação mais sólida – e aqui faço uma autocrítica porque atuo em cursos de formação. Ao condenar excessivamente a formação técnica acabamos por privilegiar, na formação, a difusão de um repertório teórico que hoje revela limites. Ensinamos nossos alunos, os futuros professores, a fazer a crítica à escola e descuidamo-nos em ensinar-lhes o que e como fazer. Compreender o funcionamento da escola e suas relações com a sociedade é fundamental mas não é suficiente para formar um professor apto a levar adiante a tarefa de ensinar.


A avaliação  docente tem sido muito discutida. Muitos atribuem a baixa qualidade do ensino básico à falta de preparo dos professores.


Como mencionei, a formação precisa ser revista, e está sendo. Mas, isto só não é suficiente. O professor precisa ir ao teatro, ter acesso à literatura de boa qualidade, ir ao cinema, aos museus, enfim, consumir produtos culturais de qualidade. Essa vivência é fundamental para a atuação docente. Mas, acima de tudo, o professor precisa ser muito bem remunerado. Apesar de todo o investimento em se assegurar um piso nacional mínimo, o que vejo com bons olhos, isso ainda não é suficiente. Precisamos alcançar uma remuneração que justifique o enfrentamento dos desafios que a profissão, cada vez mais, coloca.


A ideia de necessidade de avalia­ção é nova ou já ocorreu em outros momentos da história dos docen­-
tes brasileiros?


Dediquei um capítulo de minha tese de doutorado a essa questão, que chamei de "armadilhas de sedução". Na virada do século 19 para o 20, período de referência para o estudo da escola e da profissão docente, essas armadilhas apresentavam-se basicamente de duas formas: nos planos material e simbólico. Como expedientes de ordem material, destacam-se especialmente a assistência aos normalistas através da concessão de bolsas e pensões, as gratificações e aumentos salariais, férias especiais, licenças remuneradas, licença-maternidade, vitaliciedade no cargo e outras. Como expedientes de ordem simbólica, destacam-se as distinções concedidas pelos estados, as inscrições nos livros de honra, a autorização para utilização de anéis distintivos e a instituição de medalhas. Isso indica que, antes de se retomar velhas práticas, é necessário avaliar as que já foram postas em marcha. Quanto à associação que se faz entre a baixa qualidade do ensino básico e a falta de preparo dos professores, essa ideia não é nova. Rui Barbosa já se ocupou dessa temática há mais de um século.

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