A Rainha em xeque

Com índices de Ibope cada vez mais baixos, Xuxa no Mundo da Imaginação suscita debate sobre o potencial educativo da apresentadora e da programação infantil de televisão

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Laurindo Lalo Leal Filho e Thiago Pacheco

A maior prova da preocupação das mães com os programas oferecidos pela TV aos seus filhos pode ser conferida de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 10h15, na Rede Globo. Nesse horário, Xuxa Meneghel, mãe de Sasha desde 1998, dá prova desse cuidado maternal apresentando o seu
Xuxa no Mundo da Imaginação

. No novo programa infantil, a Rainha dos Baixinhos deixou de lado minissaias e músicas de sensualidade explícita e passou a dar espaço para temas mais apropriados às crianças – como cantigas de roda e fábulas de bruxas. Desde que o novo formato foi ao ar pela primeira vez, em outubro de 2002, é possível ver Xuxa em uma “versão mais contida”. Seria mesmo efeito da maternidade?




Sim, afirma Luca Rischbieter, especialista em educação infantil há 20 anos. “Antes, o programa era horrível, agora é apenas inofensivo”, acredita o pedagogo. Rischbieter fala com propriedade: por intermédio de uma amiga em comum, foi convidado, em 2003, para uma reunião na casa de Xuxa da qual participaram vários especialistas em educação infantil. “Ela está tentando mudar, fazer um espetáculo melhor. Nota-se uma preocupação em passar uma mensagem que não é mais indecente. E essa mudança acontece depois que Sasha fez 2, 3 anos. Com a maternidade, em algum momento a Xuxa percebeu que aquilo que ela fazia não era legal para as crianças.”




Segundo ele, até hoje, ninguém encontrou a fórmula ideal do programa infantil: como ser divertido sem deixar de ser educativo. Rischbieter vê iniciativas que deram certo – como o
Rá-Tim-Bum

, da TV Cultura -, mas que afirma serem esparsas, únicas. “A Xuxa é meio empírica. Vai fazendo e, se errar, tenta outra coisa. Mas eu penso que ela conseguiu fazer algo positivo. O programa tem fantasia, e é disso que as crianças precisam, de coisas que incentivem a imaginação delas. Acho que ela está mostrando o caminho para o futuro, o mundo da criança em um formato financeiramente viável.”




O “viável em termos financeiros”, porém, não tem se refletido em índices de audiência. A estréia de
Xuxa no Mundo da Imaginação

, em outubro de 2002, bateu nos 19 pontos de Ibope; dois anos depois, no programa de número 500, o índice foi de 6 pontos – já houve dias em que esse número chegou aos 5 pontos. Segundo o educador, isso prova que não se trata de uma mudança por razões mercadológicas. “Eu acho que ela é sincera e está bem-intencionada, não fez isso por razões comerciais. Tanto que perdeu espaço e audiência, não é uma jogada de marketing porque a fórmula antiga se esgotou. Se ela quisesse, poderia ainda ganhar muito dinheiro mostrando coisas como o
É o Tchan

, na televisão. Se fosse mal-intencionada, já teria voltado a fazer essas coisas.”




Vale lembrar que o nome de Xuxa continua forte: seu DVD
O Circo

, lançado este ano, vendeu 95 mil cópias e seus filmes ainda têm grandes bilheterias. Procurada por
Educação

, a assessoria de Xuxa alegou falta de agenda da apresentadora, impossibilitando que ela fosse ouvida pela reportagem.




Mudanças – Nem todo mundo, porém, vê as modificações que Xuxa fez em seu programa – e em sua imagem – como positivas. É o caso de Sirlene Reis, diretora executiva do Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes (Midiativa), uma organização não-governamental voltada para a análise e o incentivo a melhorias da programação televisiva. Sirlene aponta as novas investidas da loira como caminhos naturais, em decorrência do esgotamento da fórmula dos programas infantis centrados na figura de uma apresentadora. “Ela tenta novas coisas, mas falar para crianças é difícil e demanda cuidado. Falta muito ainda para atingir o que se entende por um programa de qualidade destinado ao público infantil”, coloca.




Foi exatamente para incentivar a qualidade dos programas para os jovens brasileiros que o Midiativa realizou uma pesquisa e instituiu o
Prêmio MídiaQ

. O trabalho, feito em conjunto com a MultiFocus Pesquisa de Mercado, teve duas etapas. Na primeira, foram ouvidos 30 casais das classes A, B e C em São Paulo e o resultado foi uma lista com dez princípios que, segundo eles, um programa infantil deve ter para ser considerado de qualidade. Na etapa seguinte, esses dez princípios foram a base para 180 pais e 90 crianças avaliarem os programas da televisão brasileira. As listas de adultos e crianças foram comparadas e delas surgiu uma lista final, dividida em três faixas etárias: de 4 a 7 anos, de 8 a 11 anos e de 12 a 17 anos.




Para a premiação do
MídiaQ

, as listas foram analisadas por um conselho e chegou-se aos vencedores em cada faixa etária – menos na de 8 a 11 anos, porque se considerou que não havia programas apropriados e identificados para essa idade. O fato é que
Xuxa no Mundo da Imaginação

estava na lista de 4 a 7 anos, mas não foi premiado (o vencedor foi
Castelo Rá-Tim-Bum

). “O programa não atendeu aos critérios criados pela comissão; achamos que havia programas melhores”, conta Sirlene, uma das dez integrantes do conselho. Ela afirma que o prêmio e a pesquisa confirmaram que há uma carência de qualidade e de variedade de horários para a programação televisiva infantil no país.




Para Sirlene, no caso específico de Xuxa, o problema vai além do esgotamento da fórmula que a consagrou – e que a própria apresentadora ajudou a consagrar. Ela afirma que o programa “continua sendo pensado como se fosse apenas um produto comercial e realizado para realçar esse produto”. A diretora executiva do Midiativa acredita que com o passar do tempo Xuxa sentiu a necessidade de mudar. Nessa procura por um novo formato, nasceu Sasha, e com isso ela descobriu um novo “filão”, quando lançou o vídeo infantil
Xuxa para Baixinhos

. O projeto fez sucesso – recentemente, foi lançada a quinta versão – e, com base nele, foi criado o atual
Xuxa no Mundo da Imaginação

. “Para o vídeo, a idéia até funciona; mas fazer um programa diário é diferente. As coisas não são tão simples assim”, ressalta.




A especialista critica essa permanência do
merchandising

. Afirma que “já criamos uma geração inteira de consumidores”, referindo-se àqueles que cresceram assistindo às manhãs da Rede Globo, durante os anos 80. Rischbieter também concorda que essa característica da apresentadora continua em seu programa, mas contemporiza: “Como você quer que essa pessoa não faça isso?”, pergunta. “Ela mudou, mas mantém os mecanismos. Xuxa é uma indústria, e faz parte de uma engrenagem que, no mundo inteiro, incentiva e promove o consumo infantil.”




Nem tanto. A Suécia acaba de proibir anúncios dirigidos a menores de 12 anos, com a justificativa de que crianças abaixo dessa idade têm dificuldade em diferenciar um programa de um comercial. Não vão mais ao ar propagandas de brinquedos, roupa e comida, entre outros. A publicidade voltada para adultos também não pode seguir ou preceder imediatamente programas infantis. Para os especialistas suecos “as crianças tem direitos a zonas protegidas”.




Por aqui, Xuxa mudou um pouco. Sem a baixaria de outros tempos, mas com o mesmo antigo louvor ao consumismo. Porém, as mudanças, efetivamente, são boas para as crianças? Elas podem aprender com a versão
light

da apresentadora? As respostas extrapolam um pouco o foco em Xuxa e recaem no papel da televisão para a educação infantil. Rischbieter, mais uma vez, analisa não só uma ponta, mas o fenômeno todo. “Se vê no programa dela atividades proto e pseudopedagógicas. Mas, ao final, ela é uma gotinha de inocência num mar de absurdos. A televisão educa sem querer, é o mundo do adulto. As crianças vêem cada vez mais televisão sem os pais. Elas assistem a coisas boas e ruins, mas não têm ao seu lado quem diga o que é bom e o que é ruim”, ressalta.




Formação – Para o pedagogo, os pais e a escola não assumem a responsabilidade na formação das crianças e jogam a culpa da má-educação na televisão. Rischbieter vê possibilidades para que a TV seja mais educativa, “na medida em que a escola aceite que ela existe e se utilize dela no processo pedagógico”. Ele toma, como exemplo, as notícias sobre a Guerra do Iraque. Afirma que elas poderiam muito bem servir de tema para discussões e aprendizado sobre a geografia e a história do local; mas isso não acontece, diz, porque as escolas se prendem a programas rígidos de ensino.




A discussão sobre o papel da TV na formação infantil foi, segundo Sirlene, um dos motivos para a realização do prêmio
MídiaQ

. Ela diz que a idéia da Midiativa era fazer algo mais profundo que uma simples premiação, não ouvir apenas especialistas – e por isso levou em conta os dados da pesquisa, considerando opiniões de pais e crianças. O principal deles, de acordo com Ana Helena Meirelles Reis, diretora-geral da MultiFocus (que realizou a pesquisa), foi a preocupação de pais e mães com a programação da TV. “Os pais vêem na televisão uma parceira na formação dos filhos. Para eles, a TV deve reforçar os valores que tentam passar para as crianças e temem que elas, quando sozinhas, assistam exatamente ao oposto disso”, revela.




Só que a televisão não tem cumprido bem essa esperada parceria na formação das crianças. E não apenas porque é subutilizada pela escola, como considera Rischbieter. Há também, e a pesquisa da Midiativa/MultiFocus indica isso, uma falta de programas infantis de qualidade. O premiado na faixa de 4 a 7 anos, por exemplo, é o
Castelo Rá-Tim-Bum

, que tem mais de 10 anos e sobrevive de reprises na TV Cultura; na faixa de 8 a 11 anos, nenhum foi premiado; e na de 12 a 17 anos, o prêmio foi para
A Grande Família

, voltado não apenas para o adolescente, mas para todas as idades.




Além da pequena quantidade de programas adequados às diferentes idades, os programas infantis estão concentrados na parte da manhã. “Parece que depois da manhã, a criança desaparece”, brinca Ana Helena. “E as crianças que assistem TV à noite, que opção elas têm? As emissoras não abrem mão de shows voltados para a família toda. Mas deve haver um cuidado maior com a criança, porque ela está assistindo a televisão naqueles horários.”




Não só naqueles horários, mas em muitos outros: uma outra pesquisa, esta do Instituto Ipsos, realizada em 2003 em dez países, rendeu uma matéria na
Folha de S.Paulo

de 17 de outubro deste ano.Dos 500 brasileiros entrevistados, 57% responderam que seus filhos (entre 2 e 17 anos) assistem a TV durante pelo menos três horas por dia e 31%, de uma a duas horas. É mais um dado que mostra a participação cada vez maior da televisão no cotidiano das crianças.




Por conseqüência, é cada vez maior também a responsabilidade conjunta de pais, educadores e profissionais de TV. São eles, afinal, que podem melhorar a qualidade daquilo que é exibido, que podem impedir que as crianças vejam programas inadequados para sua faixa etária. Pais e educadores podem ver a televisão não como um inimigo, mas como uma ferramenta que auxilie a formação infantil, podem incentivar, até, que a televisão seja deixada de lado dando lugar a mais atividades ao ar livre e com os colegas. Dessa forma, mesmo programas como os da Xuxa passariam a ter menos influência na formação dos pequenos.


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